Por José de Alencar (1874)
— Jaguarê, jovem caçador, tu dormes descansado enquanto os guerreiros tocantins se preparam para roubar a virgem de teus amores. Ergue-te e parte, se não queres chegar tarde.
Ele erguera-se para segui-la; mas a virgem formosa desferiu a corrida veloz através da campina e desapareceu na floresta.
Neste ponto do sonho o guerreiro acordara.
Uma estrela brilhante listrava o céu, como uma lágrima de fogo, e Ubirajara pensou que era o rasto de Araci, a filha da luz.
A juriti arrulhou docemente na mata e Ubirajara lembrou-se da voz maviosa da virgem do sol.
O guerreiro tornou à rede, esperando achar ali outra vez o sonho que visitara sua alma; porém o sono fugira de seus olhos.
Quando raiou a primeira alvorada, Ubirajara saiu da cabana e buscou no mais espesso da mata a sombra propícia à saudade.
Seu passo o guiava sem querer para as bandas do grande rio, onde devia ficar a taba dos tocantins.
É assim que os coqueiros, imóveis na praia, inclinam para o nascente seu verde cocar.
Ubirajara ouviu o rumor de um passo ligeiro através da mata; de longe conheceu Jandira que o procurava.
A doce virgem achara à porta da cabana o rasto do guerreiro e o seguira através da floresta.
— Que mau sonho aflige Ubirajara, o senhor da lança e o maior dos guerreiros, chefe da grande nação araguaia, para que ele se afaste de sua taba e esqueça a noiva que o espera?
— A tristeza entrou no coração de Ubirajara, que não sabe mais dizer-te palavras de alegria, linda virgem.
— A tristeza é amarga; quando entra no coração do guerreiro o enche de fel. Mas Jandira fará como sua irmã, a abelha, ela fabricará em seus lábios, os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras serão os fios de mel que ela derramará na alma do esposo.
— Filha de Majé, doce virgem, ainda não chegou o dia em que Ubirajara escolha uma esposa; nem ele sabe ainda qual o seio que Tupã destinou para gerar o primeiro filho do grande chefe dos araguaias.
O lábio de Jandira emudeceu; mas o peito soluçou.
A virgem conheceu que o amor de Ubirajara retirava-se dela, e que de todo o perderia se o não defendesse.
Então escondeu a dor no fundo da alma e chamou o riso a seus lábios, a alegria a seus olhos.
Ela sabia que os guerreiros amam a flor da formosura, como a folhagem da árvore; e que a tristeza murcha a graça da mais linda virgem.
— Chefe dos araguaias, Ubirajara, não desprezas Jandira que outrora escolheste para tua noiva. Se então ela era formosa a teus olhos, mais formosa se fará para merecer teu amor. Tu gostavas de seus cabelos negros que arrastam no chão; ela os entrançará com as plumas vermelhas do guará para que te pareçam mais bonitos. Seus olhos negros que te falavam, ela os cercará de uma listra amarela como os olhos da jaçanã. Sua boca, que ainda não provaste, Jandira a encherá de amor para que bebas nela o contentamento.
Jandira esperou a palavra de Ubirajara; mas os lábios mudos do guerreiro não se abriram.
— Teu amor, Ubirajara, ficará em meu seio como a flor no vale. Jandira te dará muitos filhos e todos dignos de teu valor. Nestes peitos que te pertencem, ela os nutrirá com seu sangue, não menos guerreiro do que o teu; porque é o sangue de Majé, o maior dos anciões, depois de Camacã. Seus braços, que outrora querias para tua cintura (34), não servirão unicamente para te abraçarem, mas também para te servirem. Tua esposa te acompanhará por toda parte, na taba, como no campo do combate; ela cuidará de tua cabana; aprontará as mais saborosas iguarias para seu guerreiro, e fabricará para ele o vinho, que a alma da festa.
— Jandira é a mais bela das virgens araguaias. Seu amor fará a ventura de um guerreiro valente. Ubirajara não podia achar para si uma esposa mais fiel; nem para seus filhos outra mãe tão fecunda. Mas a noite desceu em sua alma. Só a estrela do dia pode restituir-lhe a alegria que o abandonou. A filha de Majé merece um guerreiro que tenha olhos para a sua formosura.
Pojucã sentou-se pensativo à porta da cabana.
O semblante, sempre grave, como convém a um chefe, cobre-se de tristeza.
A noite que foge da terra, vencida pelo sol, parece recolher-se na alma do chefe tocantim.
Não é sua ferida que o faz sofrer. O bálsamo suave da embaíba sara rapidamente os golpes mais profundos; e os varões tocantins aprendem desde o berço a desprezar a dor.
E em seu coração de guerreiro que Pojucã sente as garras do Anhangá.
O revés de ser vencido e cair prisioneiro, ele o suporta como o varão forte que viu prostrados por Aresqui, no campo da batalha, os mais terríveis guerreiros.
A grandeza do vencedor o consola; resta-lhe ainda a glória de ter resistido a um braço como o de Ubirajara, grande chefe dos araguaias.
Mas ele esperava que depois de haver ornado com sua presença a festa do triunfo, o vencedor fosse generoso, e lhe concedesse a honra do sacrifício.
É o temor de que Ubirajara lhe recuse uma morte gloriosa e o retenha cativo, que nesse momento acabrunha o chefe dos tocantins.
Ele, um guerreiro livre, que pisara outrora como senhor aqueles campos, reduzido à condição de escravo?
(continua...)
ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.