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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Naquele momento Jão Fera sofria a suma de todos os sofrimentos que derramara em seu caminho; de todas as ânsias, que sua mão levantara. Tudo nesse homem, a dor como a alegria, a raiva como o amor, a gula como a embriaguez, revestia a natureza da fera; tinha fauce para devorar, e garras que lhe dilaceravam o chão da alma, como a pata da suçuarana escarva a terra no arremessar do pulo. 

 Durou rápido trato essa agonia moral; e não podia prolongar-se que o rijo coração, vaso frágil para contê-la, embora acrisolado ao fogo das paixões tempestuosas, ia estalar. 

  Abalou-se o corpo vigoroso com um forte calafrio, que sacudiu-lhe a terrível obsessão; e o facínora surgiu outra vez audaz e ameaçador. Rebatendo o chapéu com um revés de mão, descobriu a fronte rija e alta, que se escalvava entre uma floresta de cabelos negros. Outra vez se descarnou a sua fisionomia com a expressão dura, ríspida e incisiva, que lhe dava a aparência de um perfil talhado em gume de aço. 

  - É sina! proferiu no tom implacável do fanatismo. 

  Com pouco reboou das barrocas da azinhaga o tropel de um cavalo. Jão Fera acostumado a distinguir nos rumores da mata as várias notas que formavam a surdina da floresta, inclinou o ouvido à escuta. Não se enganara; o animal vinha naquela direção e aproximava-se rapidamente. 

  Galgando então pelos socalcos do imbê, que descia dos galhos de um prócero jequitibá, alcançou o tope no rochedo, donde se descortinava entre o rendado das folhas uma volta do caminho. 

 Não tardou que apontasse ali, para sumir-se logo na curva da estrada, um cavaleiro. 

  Era o mesmo embuçado que falava pouco antes com Monjolo. Orçava pelos cinqüenta anos; barroso da cara que lhe cobria uma barba ruiva e áspera como as cerdas da capivara; de mediana estatura e excessivamente magro; vinha trajado ao uso da terra: chapéu mineiro de feltro pardo, sob o qual via-se o lenço de Alcobaça que lhe servia de rebuço; poncho de pano azul forrado de baetilha, com a gola de belbute levantada; botas de bezerro armadas de chilenas de prata. 

  Os lábios do capanga, onde flutuava um sorriso de desprezo, contraíram-se logo, e arrojou-se o corpo à frente para não desprender a vista assanhada do cavaleiro, que sumira-se na curva do caminho. Desceu rápido ao rés da azinhaga, por onde breve meteu-se o desconhecido. 

  Mal que assomou este no alto da rampa, a pupila injetada do capanga cravou-selhe no semblante e o atraía como a garra do abutre; a par, os dedos da mão direita afagavam com certa volúpia feroce o longo cabo da faca, passada à cinta, e já a meio fora da bainha. 

  Não parecia o embuçado muito senhor de si e tranqüilo de ânimo; pois lançava a um e outro lado olhos inquietos e investigadores, à feição de quem temia e perscrutava algum perigo oculto naquelas brenhas que o cercavam. Alguma vez hesitou, como incerto da resolução que devia tomar; olhou para trás, ou enfrestou pela vereda que serpejava diante dele vistas impacientes. Dir-se-ia que vacilava, entre continuar e retroceder; ou quiçá julgava-se transviado, e procurava afirmar-se no caminho para ele desconhecido. 

  De chofre empinou-se o cavalo, arremessando o homem sobre a escarpa da barranca, donde rolou ao trilho, como um corpo inerte.

 

VI 

O empenho 

 

  O capanga abatera um olhar de nojo para o cavaleiro que lhe veio rolar aos pés. 

A faca brandida com força vibrava ainda no tronco do jequitibá, onde cravara a cabeça de um urutu, que estorcia-se de fúria e dor. 

  Fora a negra serpente que espantara o animal, quando enristou-se como uma lança, fincando a cauda e chofrando o bote. Advertido pelo faro, antes de ver altear-se o negro colo, o cavalo rodara sobre os pés; e a cobra ameaçada pelos cascos elou-se ao tronco, onde a alcançara a mão certeira de Jão Fera, que já tinha apunhado a faca. 

  Recobrando-se do atordoamento da queda, ergueu-se o desconhecido, a apalpar o corpo um tanto pisado e a sacudir a roupa. 

Apre! resmungou ele. Escapei de boa. 

O capanga lançou-lhe um sorriso esguardo: 

- Desta vez escapou, disse ele com surda entonação. 

 Dirigiu-se ao tronco e arrancou a faca, depois de esmagar a cabeça da urutu. 

- Que diabo é isso? perguntou o embuçado. 

- Não vê? retorquiu Jão limpando nas ramas a folha da faca. 

- Agora penetro porque o diabo do ruço pinchou-me! 

Cuidando então do cavalo que podia fugir-lhe, o desconhecido pôs-lhe cerco, e com algum trabalho conseguiu colher as rédeas; feito o que tornou ao lugar, onde havia deixado o capanga. 

 Este o esperava impassível, mas um tanto absorto. 

- Como se chama o senhor? perguntou bruscamente ao cavaleiro. 

- Oh, homem, lembrou-se disso agora! tornou o outro um tanto ressabiado. 

- Quando o senhor me procurou há tempos para seu negócio, não me disse como se chamava. 

- Porque não era preciso. 

(continua...)

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