Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Dando esta resposta com tom enérgico, o rio-grandense guiou o caudilho à varanda onde tinham posto a ceia. 

Em uma das extremidades da longa mesa, estavam colocados dois pratos com talheres de prata destinados ao dono da casa e seu hóspede. Diante deles fumegava um grande assado de couro, e um peixe que enchia a imensa frigideira de barro. Havia além disso ervas e legumes. 

Já estavam na varanda os gaúchos da comitiva do coronel, os quais lhe deram as boasnoites. O Canho adiantou-se para beijar a mão de Bento Gonçalves que era seu padrinho.

— Oh! Estás por cá, Manuel? 

— Cheguei esta tarde. 

— Como vai a comadre? 

— Boa, graças a Deus. 

— Estás um rapagão! Abanca-te; vamos cear. 

O coronel tomou lugar à cabeceira, dando a direita ao hóspede. Na outra ponta da mesa sentaram-se os camaradas e Manuel, em bancos de madeira; cada um tirou um prato da pilha que havia no centro e colocou-o diante de si. 

Depois de servido o dono da casa e o hóspede, os pratos eram levados pelo escravo copeira para a outra extremidade, onde os gaúchos iam tirando seu quinhão com a faca de ponta que traziam à cinta. 

— Vamos ao peixe, general, disse Bento Gonçalves servindo a Lavalleja. Então, Manuel, andas de vadiação ou isto é volta de negócio? 

— Nem uma, nem outra coisa. Vim só para falar a meu padrinho. 

— Pois fala, rapaz; não percas tempo. 

— É sobre um particular. 

— Está bem; então logo mais. 

Terminada a ceia, enquanto os outros tomavam mate e fumavam, o coronel fez ao gaúcho um gesto para que este o acompanhasse à sala. 

— Que particular é esse? Alguma gauchada, aposto? 

— Vim pedir a bênção de meu padrinho, para me dar felicidade, e mesmo porque talvez lá me fique! 

— E para onde te botas? 

— Para Entre-Rios. 

— Buscar o quê? 

— O homem que matou meu pai! 

— Hein!... Depois de tanto tempo? 

— São coisas que não esquecem nunca. 

— Não esquecem, bem sei; mas se perdoam; talvez o sujeito esteja arrependido.

— Melhor; Deus o absolverá.

— Visto isto, estás decidido? 

— Desde muito tempo. Há cinco anos a esta parte que descobri o homem lá em EntreRios, e então pela festa vou sempre para aquelas bandas, ver se ainda lá está. 

— Estiveste invernando-o antes de charqueá-lo? replicou o coronel a rir. 

— Sabe Deus quanto me custou deixá-lo sossegado todo este tempo. Mas eu precisava trabalhar primeiro, para que a mãe ficasse com alguma coisa. Tudo pode acontecer; e afora eu, não tem ela quem a ajude. 

— E Bento Gonçalves não está aqui, rapaz? 

— Meu padrinho tem muitos por quem olhar; não pode chegar para todos. Se eu não voltar, sempre ficará com que acender o fogo.  

— Que diz tua mãe a tudo isto? 

— Ela não sabe. 

Bento Gonçalves deu duas voltas pela sala. 

— Escuta, Manuel. Teu coração te pede o que vais fazer? Sentes que sem isso não poderás viver descansado? Fala verdade. 

— Se eu não vingasse o pai, ele me renegaria lá do céu e não quereria para filho um poltrão ingrato. 

— Com a breca! Meu ofício não é de padre! exclamou impetuosamente o coronel. Vai, rapaz; segue teu impulso. Tenho fé em que hás de honrar as barbas de teu padrinho; se chegar tua hora, o que não há de suceder, descansa em paz, que eu velarei sobre tua mãe. 

— Obrigado, meu padrinho; bote-me sua bênção. 

— Deus te abençoe e te acompanhe, Manuel. 

Beijou o gaúcho a mão vigorosa do coronel, que ria-se estrepitosamente para disfarçar a comoção.  

Quando Manuel recolhia-se à pousada, ouviu uns rufos de guitarra coados pelas frestas esclarecidas de uma rótula da vizinhança. Ao som do acompanhamento arrastado, uma voz maviosa, de timbre infantil, dizia com terna expressão uma cantiga brasileira. O gaúcho apesar de preocupado pôde ouvir as seguintes coplas: 

A minha branca pombinha.

Com tanto amor a criei; 

Depois de bem criadinha,  

Fugiu-me; por que, não sei. 

 

Quis beijar o seio dela, 

Bateu as asas, voou; 

A minha pombinha bela,  

Foi gavião que a levou.


— Bravo, Catita! exclamou a voz do Lucas Fernandes. 


O PÁREO 

 

Dias depois, já em outubro, na sala de uma pousada da província de Entre-Rios, estavam reunidos vários andantes, invernistas e também alguns capatazes da vizinhança. 

Ente outros pousara ali um chileno que vinha de Mendoza ou Córdova, e contava atravessar toda a campanha até o Rio Grande do Sul. Espécie de mercador ambulante, misto de mascate e de aventureiro, costumava ele percorrer as cidades e povoações do interior à cata do bom negócio, como da boa-vida. 

Trazia duas ou três mulas carregadas com uma partida de fazendas de lã e seda, porém especialmente de chapéus-do-chile, palas de vicunha, e guarnições de prata para arreios de montaria. De caminho ia chatinando a sua mercadoria, e comprando animais, que mais adiante negociava, se lhe ofereciam bom lucro. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...56789...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →