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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Uma novena naquele tempo fazia as vezes da partida familiar em nossos dias. Emprazavamse umas tantas famílias do trato e conversa íntima da Sr.ª Romana com o fim de festejar algum santo por tenção especial. 

Armava-se, o oratório, tirava-se para a frente a imagem do santo em cuja tenção era a novena, e durante oito dias, e à boca da noite, rezava-se a ladainha. Afinal chegava o dia da festa, em que havia luminárias e outras frandulagens. 

Depois da reza, os velhos franceavam contando histórias do bom tempo que não volta, e recordando as rapazias que tinham feito. As devotas de respeito destrinçavam na vida alheia, mas sempre arrenegando dos mexericos dos noveleiros; as meninas fingindo escutar as mães, acompanhavam com o canto do olho os folguedos dos rapazes que saltavam no quintal, atacando foguetes ou fazendo sortes. 

Afinal vinha a ceia, forte e suculenta, como precisavam para conciliar o sono os estômagos de nossos avoengos. Em vez do sorvete, chupava-se o excelente ananás e a laranja, e por volta das nove horas estavam todos recolhidos. 

Uma das vizinhas da Sr.ª Romana tinha um enjeitado, que era estudante. Chamava-se o rapaz Ivo do Val, e fora achado uma noite à porta da casa, onde morava então com sua família, como donzela recatada, a Sr.ª Rosalinda das Neves, que veio a servir-lhe de protetora e mãe de criação. 

Boquejou-se, embuste de praguentos, que o enjeitado não era outro senão o fruto dos amores da donzela com um alferes do terço da infantaria, vindo do reino. O oficial prometera casamento; mas para desempenhar-se de sua palavra honrada, esperava a licença de El-Rei, da qual aliás não carecera para o mais que adiantara por conta da futura boda. 

Assim não chegando a pedida vênia, impetrada para Lisboa, e avultando à Rosalinda umas esperanças, que já lhe não cabiam no justilho, enquanto lhe minguavam as outras, que dantes lhe enchiam de abundâncias o coração, tomou a mãe da moça as devidas cautelas para tapar a boca aos praguentos. 

A moça adoeceu de ruim achaque; e ao cabo de umas tantas semanas, lã em certa noite apareceu na soleira da porta a resmelengar, uma trouxa que não se soube donde vinha. Disse a gente de casa que a trouxera um rebuçado embaixo do ferragoulo, e mal ali pousou, logo deitou a correr. 

Quem isso afirmava era a velha, que estava passando o seu rosário bem descansada, quando ouvira um grunhido na porta; e abrindo a rótula depois dos indispensáveis exorcismos e benzimentos, logo pôs em alvoroço a vizinhança, gritando: 

— Abrenuntio! Abrenuntio!... Cruzes! Te esconjuro!

— O que é, comadre? perguntou-lhe a vizinha do lado. 

— O porco sujo que me está fossando na porta, senhora! 

— T’arrenego! 

— E foi um maldito cigano que o trouxe! Eu bem o vi pelo buraco da rótula quando passou cosido num couro de bode e então deitava uma catinga de enxofre. 

— Que me conta, comadre?  

— É como lhe estou dizendo. 

— Espere, vizinha, que já lhe levo o meu coto bento de Jerusalém. Se for o cão tinhoso, há de ver como espirra, por mais artes que tenha. Aquilo é uma vela milagrosa!... 

Saíram as vizinhas com os maridos, e toda a casta de relíquia e esconjuros, e afinal conheceram que a causa do barulho era um enjeitado, e de gente pobre, pois estava embrulhado em uma esteira velha. 

No meio das exclamações de espanto e observações das comadres, ouviu-se um risinho de mofa. Era a vizinha defronte, a Pôncia, uma língua de lanceta, que se divertia cantarolando num falsete de tirar couro e cabelo: 

 

Ele sai pelo quintal, 

Porém entra pela rua,

Ora, etcetra e tal;

Tudo o mais é falcatrua

Seu alferes, al não al. 

 

— Que é isto, vizinha, cantando a esta hora da noite? 

Ai! ai! gente; quem canta, seus males espanta. 

— Enredeira do inferno! resmungou a mãe da Rosalinda. 

Criou-se o menino; e chegando à idade, o mandaram à escola aprender as humanidades, para depois lhe arranjarem algum modo de vida. O rapaz era esperto; até demais; porém não dava para clérigo, como dizia então o povo, dos que não mostravam aptidão literária. 

A razão desse dito é que nesse tempo a instrução no Brasil era um privilégio das ordens regulares especialmente dos jesuítas. O estudante confundia-se facilmente com o minorista que se preparava para o sacerdócio. 

Ivo era assíduo no pátio do colégio mas no tempo em que devia prestar atenção ao mestre, distraía-se em ver os painéis que pendiam das paredes, e as imagens das capelas. Ficava assim horas e horas com os olhos pregados nessas figuras, como se as quisesse embutir dentro d’alma. 

Ao sair da aula, armava-se de um carvão, e lá se ia a despejar pelos muros do convento caretas e engrimanços de toda a sorte, pelo que estava constantemente a levar carolo do padrereitor, quando não era a penitência de joelhos ou em cruz, e o jejum a pão e água. 

(continua...)

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