Por José de Alencar (1860)
JOANA - Vm. não sabe que medo tenho de dizer este nome!... Até à noite quando rezo por ele baixinho... não me atrevo... Ele pode ouvir... Eu posso me acostumar...
DR. LIMA - Mas dizias?
JOANA - Ah! Quando senti o primeiro movimento que ele fez no meu seio, tive uma alegria grande, como nunca pensei que uma escrava pudesse ter. Depois uma dor que só tornarei a ter se ele souber. Pois meu filho havia de ser escravo como eu? Eu havia de lhe dar a vida para que um dia quisesse mal à sua mãe? Deu-me vontade de morrer para que ele não nascesse... Mas isso era possível?... Não, Joana devia viver!
DR. LIMA - Foi então que Soares te comprou...
JOANA - Ele me queria tanto bem! Deu por mim tudo quanto tinha... Dois contos de réis! Eu fui para sua casa. Aí meu nhonhô nasceu, e foi logo batizado como filho dele, sem que ninguém soubesse quem era sua mãe.
DR. LIMA - Desgraçadamente morreu poucos dias depois... Se eu soubesse então!...
JOANA - Mas meu senhor não sabia nada. Fui eu que lhe confessei...
DR. LIMA - Porque já tinha suspeitado...
JOANA - E por isso só. Vm. era capaz de afirmar? Não! Quem lhe contou fui eu, com a condição de não dizer nunca!...
DR. LIMA - Pois bem, Joana! Não direi uma palavra. Continuarás a ser escrava de teu filho. Será para ele a dor mais cruel quando souber...
JOANA - Nunca!... Quem vai lhe dizer?... Além de Vm. e de mim, só Deus sabe este segredo. Enquanto meu senhor estava fora eu vivia descansada...
DR. LIMA - E tinhas razão... Presente, vendo-te ao lado de Jorge, não respondo por mim.
JOANA Meu senhor, Vm. teve sua mãe... Lembre-se que dor a pobre havia de sentir se seu filho tivesse vergonha dela!... Não o faça desgraçado! E por causa de quem?... De mim que morreria por ele.
DR. LIMA - Bem; prometo-lhe que hei de ter coragem! Virei raras vezes aqui. Evitarei o mais que puder... com receio de me trair.
JOANA - É melhor. Até Vm. se habituar.
DR. LIMA - Nunca me habituarei!.... Tu não sabes como eu te admiro, Joana; e como dói-me no coração ver esse martírio sublime a que te condenas.
JOANA - Eu vivo tão feliz, meu senhor!
DR. LIMA - Mas que necessidade tinhas de ser escrava ainda? Não podias estar forra?
JOANA - Eu, meu senhor?... Como?
DR. LIMA - Com o dinheiro que tiravas do teu trabalho, e gastavas na educação de teu filho.
JOANA - Nunca pensei nisso, meu senhor!... Demais, forra, podiam-me deitar fora de casa, e eu não estaria mais junto dele. A escrava não se despede.
DR. LIMA - Mas... Estremeço só com esta idéia!
JOANA - Qual, meu senhor?
DR. LIMA - Supõe que... te vendiam.
JOANA - Joana morreria; porém ao menos deixaria a ele aquilo que custasse... sempre era alguma coisa... Para um moço pobre!
DR. LIMA - E eu hei de estar condenado a ouvir Jorge agradecer-me a sua educação que ele deve unicamente a ti; a chamar-me seu segundo pai, ignorando que sua...
JOANA - Mais baixo!... Não se zangue, meu senhor!
DR. LIMA - Sabes que mais! Vou-me embora. Voltarei logo para abraçar Jorge, e não pisarei mais aqui. É uma tortura!
JOANA - Adeus, meu senhor! Não se agaste comigo.
DR. LIMA - Não. Quem sabe se tu não tens razão!
JOANA - Deus dê muita felicidade a meu senhor Dr. Lima.
(Abre a porta.)
CENA IV
Os mesmos e JORGE JOANA - Ah!
DR. LIMA - É ele?
JOANA - Nhonhô não conhece, não!... Sr. Dr. Lima!
DR. LIMA - Jorge!
JORGE - Ah! doutor! Quando chegou?
DR. LIMA - Hoje mesmo. É a minha primeira visita.
JORGE - E devia ser pelo bem que lhe queremos, eu e Joana. Venha sentar-se.
DR. LIMA - Está um homem!
JOANA - Não é, meu senhor doutor?... E um moço bonito! Hi! Faz andar à roda a cahecinha dessas moças todas.
JORGE - Se lhe der ouvidos, doutor, é um não acabar de elogios!... Mas há cinco anos que está ausente!
JOANA - Há de fazer pela Páscoa.
DR. LIMA - É verdade. Deixei-o quase criança... Tinha dezesseis anos. Acabou os seus estudos naturalmente!
JORGE - Ainda não.
JOANA - É o melhor estudante. Não sou eu que digo!... São os mestres dele.
DR. LIMA - Sempre foi... Que profissão escolheu?
JORGE - Segui o seu conselho... Estudo medicina; estou no 5o ano.
DR. LIMA - E de fortuna... Como vamos?
JORGE - O necessário. As minhas lições..
DR. LIMA - Ah! Dá lições? De quê?
JORGE - De música e de francês.
DR. LIMA - Lembro-me que tinha muita disposição para o piano. Cultivou essa arte?
JOANA - Toca que faz gosto!... Vm. há de ouvir.
DR. LIMA - Sem dúvida. E quanto lhe rendem as lições?
JORGE - Uns cem mil-réis por mês.
DR. LIMA - É pouco.
JORGE - Faço também algumas traduções que deixam às vezes um extraordinário. Joana por seu lado ganha...
JOANA - Quase nada, nhonhô! Já estou velha. Não coso mais de noite.
JORGE - Nem eu quero. Foi de passares as noites sobre costura que ias perdendo a vista.
DR. LIMA - Faz bem em tratá-la com amizade, Jorge. É uma boa...
JOANA - Sou uma escrava como as outras.
JORGE - És uma amiga como poucas se encontram.
JOANA - Ora, nhonhô!...
JORGE - Sabe, doutor! Creio que foi Deus que o enviou a esta casa.
DR. LIMA - Por que razão, Jorge?
JORGE - Eu lhe digo... Vem cá, Joana!... Mais perto!... Quero contar-te uma história.
(continua...)
ALENCAR, José de. Mãe. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7546 . Acesso em: 21 jan. 2026.