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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Ela tinha deixado cair a xícara de propósito; mas naquela ocasião estava bem longe de suspeitá-lo. Lancei toda a culpa sobre mim; e tive-me em conta do maior desastrado. 

Procurei-a: já tinha partido. Na próxima quinta-feira, logo que cheguei, dirigi-me a ela para lhe pedir perdão de minha inadvertência: 

—Peço-lhe mil desculpas, minha senhora, pelo que sucedeu! —Quando? —Quinta-feira passada. 

—Não me lembro. 

—Aquela minha distração de deixar cair a xícara... 

—Ah! foi o senhor?... Nem reparei! disse-me com a maior indiferença. 

Esta palavra me ofendeu mais que tudo quanto me tinha feito essa moça. Nem sequer com seu ódio ela se dignava me distinguir! De dia em dia a sua aversão tornou-se mais clara. Ela procurava sempre esquivarse ao meu cumprimento, e quando de todo não podia evitá-lo, recebia com fria altivez. Se estava ao piano e eu chegava, erguia-se, deixando suspensos os que a ouviam tocar ou cantar. Inventava então qualquer dos pretextos em que era fértil seu espirito vivaz; porém o verdadeiro motivo deixava-o bem transparente. Se eu me aproximava do círculo onde ela conversava, chamado por alguma palavra amável de D. Leocádia, calava-se imediatamente, e no primeiro momento favorável eclipsava-se. 

Duas ou três vezes, chegando à casa de D. Matilde, achei-a entretida a brincar com a prima e algumas amigas. Vendo-me entrar na sala, levantou-se bruscamente, e despediu-se das outras, surpresas: 

—Adeus! Adeus!... Vamos, Geraldo! Tomava o chapéu; o irmão contrariado a seguia; entravam no carro, e partiam para a chácara, apesar de ter ela prometido passar o dia com Julinha, e serem já horas do jantar. 

Tudo isso me convenceu afinal que o procedimento de Emília não era filho de uma simples antipatia, mas de um propósito firme de humilhar-me. 

Parecia um sistema de perseguição acintosa. O instinto da defesa acordou em mim, e com ele o desejo da vingança. De longe e disfarçadamente comecei a estudar essa moça, resolvido a descobrir o seu ponto vulnerável. 

Desde que a Duarteazinha, como a chamavam nos salões, apareceu nas reuniões de D. Matílde, foi logo cercada por uma multidão de admiradores. Sua nobre altivez os mantinha em respeitosa distância. Ela conservava sempre na sala, como na intimidade, um mimo de orgulhosa esquivança, que afastava sem ofender. 

Quando porém algum mais apaixonado ou menos perspicaz de seus admiradores, ousava transpor aquela régia altivez e casta auréola em que ela resplandecia, então sua cólera revestia certa majestade olímpia que fulminava. 

Emília não valsava; nunca nos bailes ela consentiu que o braço de um homem lhe cingisse o talhe. Na contradança as pontas dos seus dedos afilados, sempre calçados nas luvas, apenas roçavam a palma do cavalheiro: o mesmo era quando aceitava o braço de alguém. 

Bem diferente nisso de certas moças que passeiam nas salas reclinadas ao peito de seus pares, Emília não consentia que a manga de uma casaca roçasse nem de leve as rendas do seu decote. 

Uma noite, dançando com o Amorim, sócio de seu pai, recolheu a mão de repente, e deixou cair sobre ele um dos seus olhares de Juno irritada: 

—Ainda não sabe como se dá a mão a uma senhora? disse com desprezo. 

Proferidas estas palavras, sentou-se no meio da quadrilha, e nunca mais dançou com ele. O Amorim em uma das marcas, tinha-lhe inadvertidamente tomado a mão, em vez de apresentar-lhe a sua. 

Frequentava as reuniões de D. Matilde um moço oficial de marinha, o tenente Veiga. Tinha uma nobre figura e o cunho da verdadeira beleza marcial. Era um dos mais ferventes adoradores de Emília. Tirando-a para dançar uma noite, ela ergueu se e ia dar-lhe o braço; mas retraiu-se logo e tornou a sentar. 

—Desculpe-me. Não posso dançar! —Por que motivo, D. Emília? Ela calou-se; mas fitou-lhe as mãos com olhos tão expressivos que o moço compreendeu e corou: 

—Tem razão. Tirei as luvas para tomar chá e esqueci-me de calçá-las. 

Estes e muitos outros pequenos fatos eram comentados no salão de D. Matilde pelas outras moças, que não perdoavam a Emília tantas superioridades, como ela tinha; pois cingia-lhe a fronte a tríplice coroa da beleza, do espírito e da riqueza. 

Muitas vezes eu assistia calado aos tiroteios dessa guerra feminina. 

Alguma rival, observando a suprema delicadeza do gesto casto e gracioso de Emília, ralava-se de inveja e dizia para as amigas: 

—Ai gentes! Não me toquem!... 

—É mesmo um alfenim! acudia outra. 

—Pois há quem suporte aquilo? —Ora! É rica! Tem bom dote! —Já repararam? Nem ao mano ela se digna apertar a mão! —Tem medo que não lha quebrem, coitadinha!... 

—Não falem assim! dizia Júlia voltando-se com um gesto suplicante. Que mal lhes fez Mila?... Pois olhem! Eu acho aqueles modos tão bonitos!... 

(continua...)

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