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#Biografias#Literatura Brasileira

Como e por que sou romancista

Por José de Alencar (1873)

O romance, como eu agora o admirava, poema da vida real, me aparecia na altura dessas criações sublimes, que a Providência só concede aos semideuses do pensamento; e que os simples mortais não podem ousar, pois arriscam-se a derreter-lhes o sol, como a Ícaro, as penas de cisnes grudadas com cera.

Os arremedos de novelas, que eu escondia no fundo de meu baú, desprezei-os ao vento. Pesa-me ter destruído as provas desses primeiros tentamens que seriam agora relíquias para meus filhos e estímulos para fazerem melhor. Só pôr isso, que de valor literário não tinham nem ceitil. 

Os dois primeiros anos que passei em São Paulo. Foram para mim de contemplação e recolhimento de espírito. Assistia arredio ao bulício acadêmico e familiariza-me de parte com esse viver original, inteiramente desconhecido para mim, que nunca fora pensionista de colégio, nem havia até então deixado o regaço da família.

As palestras à mesa do chá, as noites de cinismo conversadas até o romper da alva, entre a fumaça dos cigarros; as anedotas e aventuras da vida acadêmica, sempre repetidas; as poesias clássicas da literatura paulistana e as cantigas tradicionais do povo estudante; tudo isto sugava o meu espírito a linfa, para mais tarde desabrochar a talvez pálida florinha.

Depois vinham os discursos recitados nas solenidades escolares, alguma nova poesia de Otaviano, os brindes nos banquetes de estudantes, o aparecimento de alguma obra recentemente publicada na Europa e outras novidades literárias, que agitavam a rotina de nosso viver habitual e comoviam um instante a colônia acadêmica.

Não me recordo de qualquer tentâmen literário de minha parte, até fins de 1844. Os estudos de filosofia e história preenchiam o melhor de meu tempo, e de todo me traíam..

O único tributo que paguei então à moda acadêmica, foi o das citações. Era nesse ano bom-tom ter de memórias frases e trechos escolhidos dos melhores autores, para repetilos a propósito.

Vistos de longe, e através da razão, esses arremedos de erudição, arranjados com seus remendos alheios, nos parecem ridículos; e todavia é esse jogo de imitação que primeiro imprime ao espírito a flexibilidade, como ao corpo o da ginástica.

Em 1845, voltou-me o prurido de escritor; mas esse ano foi consagrado à mania, que então grassava, de baironizar. Todo estudante de alguma imaginação queria ser um Byron; e tinha pôr destino inexorável copiar ou traduzir o bardo inglês.

Confesso que não me sentia o menor jeito para essa transfusão; talvez pelo meu gênio taciturno e concentrado que já tinha em si melancolia de sobejo, para não carecer desse empréstimo. Assim é que nunca passei de algumas peças ligeiras, das quais não me figurava herói e nem mesmo autor; pois divertia-me em escreve-las, com o nome de Byron, Hugo ou Lamartine, nas paredes de meu aposento, à Rua de Santa Tereza, onde alguns camaradas daquele tempo, ainda hoje meus bons amigos, os Doutores Costa Pinto e José Brusque talvez se recordem de as terem lido.

Era um discurso aos ilustres poetas atribuir-lhes versos de confecção minha; mas a broxa do caiador, incumbido de limpar a casa pouco tempo depois de minha partida, vingou-os desse inocente estratagema, com que nesse tempo eu libava a delícia mais suave para o escritor: ouvir ignoto o louvor de seu trabalho.

Que satisfação íntima não tive eu, quando um estudante que era então o inseparável amigo de Otaviano e seu irmão em letras, mas hoje chama-se o Barão de Ourém, releu com entusiasmo uma dessas poesias, seduzido sem dúvida, pelo nome de pseudo-autor! É natural que hoje nem se lembre desse pormenor; e mal saiba que todos os cumprimentos que depois recebi de sua cortesia, nenhum valia aquele espontâneo movimento.

Os dois anos seguintes pertencem à imprensa periódica. Em outra ocasião escreverei esta, uma das páginas mais agitadas da minha adolescência. Daí datam as primeiras raízes de jornalista; como todas as manifestações de minha individualidade, essa também iniciou-se no período orgânico.

O único homem novo e quase estranho que nasceu em mim com a virilidade, foi o político. Ou não tinha vocação para essa carreira, ou considerava o governo do estado coisa tão importante e grave, que não me animei nunca a ingerir-me nesses negócios. Entretanto eu saía de uma família para quem a política era uma religião e onde se haviam elaborado grandes acontecimentos de nossa história.

Fundamos, os primeiranistas de 1846, uma revista semanal sob o título – Ensaios Literários.

Dos primitivos colaboradores desse periódico, saudado no seu aparecimento pôr Otaviano e Olímpio Machado, já então redatores da Gazeta Oficial, faleceu, ao terminar o curso, o Dr. Araújo, inspirado poeta. Os outros aí andam dispersos pelo mundo. O Dr. José Machado Coelho de Castro é presidente do Banco do Brasil; o Dr. João Guilherme 

Whitaker é juiz de direito em São João do Rio Claro; e o conselheiro João de Almeida Pereira, depois de ter luzido no ministério e no parlamento, repousa das lides políticas no remanso da vida privada. 


VI

Foi somente em 1848 que ressurgiu em mim a veia do romance.

Acabava de passar dois meses em minha terra natal. Tinha-me repassado das primeiras e tão fagueiras recordações da infância, ali nos mesmos sítios queridos onde nascera.

(continua...)

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