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#Romances#Literatura Brasileira

A Viuvinha

Por José de Alencar (1857)

Dizem que há um momento em que toda mulher é bela, em que um reflexo ilumina o seu rosto e dá-lhe esse brilho que fascina; os franceses chamam a isto... la beauté du diable.

Há também um momento em que as mulheres belas são anjos, em que o amor casto e puro lhes dá uma expressão divina; eu, bem ou mal, chamo a isto... a beleza do céu.

Carolina estava em um desses momentos; a felicidade que irradiava no seu semblante, o rubor de suas faces, o sorriso que adejava nos seus lábios, como o núncio desse monossílabo que ia resumir todo o seu amor, davam-lhe uma graça feiticeira.

Envolta nas suas roupas alvas, no seu véu transparente preso à coroa de flores de laranjeira, os seus olhos negros cintilavam com um fulgor brilhante entre aquela nuvem diáfana de rendas e sedas.

Jorge adiantou-se pálido, mas calmo, e, tomando a mão de sua noiva, ajoelhou-se com ela aos pés do sacerdote.

A cerimônia começou.

No momento em que o padre disse a pergunta solene, essa pergunta que prende toda a vida, o moço estremeceu, fez um esforço e quase imperceptivelmente respondeu. Carolina, porém, abaixando os olhos e corando, sentiu que toda a sua alma vinha pousar-lhe nos lábios com essa doce palavra;

— Sim! murmurou ela.

A bênção nupcial, a bênção de Deus, desceu sobre essas duas almas, que se ligavam e se confundiam.

Pouco depois desapareceram os adornos de cerimônia e na sala ficaram apenas algumas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade de dois corações.

Jorge às vezes esforçava-se por sorrir; mas esse sorriso não iludia sua noiva, cujo olhar inquieto se fitava no seu semblante.

Entretanto a alegria de D. Maria era tão expansiva; o velho militar contava anedotas tão desengraçadas e tão chilras, que todos eram obrigados a rir e a se mostrar satisfeitos.

Jorge, mesmo à força de vontade, conseguiu dar ao seu rosto uma expressão alegre, que desvaneceu em parte a inquietação de Carolina.

Contudo havia nessa reunião uma pessoa a quem o moço não podia esconder o que se passava na sua alma, e que lia, no seu rosto como um livro aberto.

Era o senhor Almeida, que às vezes se tornava pensativo como se combinasse alguma idéia que começava, a esclarecer-lhe o espírito; sabia que a sua presença era naquele momento uma tortura para Jorge, mas não se resolvia a retirar-se.

Deram dez horas, termo sacramental das visitas de família ; passar além, só é permitido aos amigos íntimos; é verdade que os namorados, os maçantes e os jogadores de voltarete costumam usurpar este direito.

Todas as pessoas levantaram-se, pois, e dispuseram-se a retirar-se. O negociante, tomando Jorge pelo braço, afastou-se um pouco.

— Estimei, disse ele, que a nossa conversa de ontem não influísse sobre a sua resolução.

O moço estremeceu.

— Era uma coisa a que estava obrigada a minha honra, mas...

O senhor Almeida esperou a palavra, que não caiu dos lábios de Jorge. O moço tinha empalidecido.

— Mas?... insistiu ele.

— Queria dizer que não sou tão culpado como o senhor pensa; talvez breve tenha a prova.

O negociante sorriu.

— Boa noite, senhor Jorge.

O moço cumprimentou-o friamente.

As outras visitas tinham saído e D. Maria, sorrindo à sua filha, retirou-se com ela.



CAPÍTULO VII

Eram onze horas da noite.

Toda a casa estava em silêncio.

Algumas luzes esclareciam ainda uma das salas interiores, que fazia parte do aposento que D. Maria destinara a seus dois filhos.

Jorge, em pé no meio desta sala, de braços cruzados, fitava um olhar de profunda angústia em uma porta envidraçada através da qual se viam suavemente esclarecidas as alvas sanefas da cortina.

Era a porta do quarto de sua noiva.

Duas ou três vezes dera um passo para dirigir-se àquela porta e hesitara; temia profanar o santuário da virgindade; julgava-se indigno de penetrar naquele templo sagrado de um amor puro e casto.

Finalmente tentou um esforço supremo; revestiu-se de toda a sua coragem e atravessou a sala com um passo firme, mas lento e surdo.

A porta estava apenas cerrada; tocando-a com a sua mão trêmula, o moço abriu uma fresta e correu o olhar pelo aposento.

Era um elegante gabinete forrado com um lindo papel de cor azul-celeste, tapeçado de lã de cores mortas; das janelas pendiam alvas bambinelas de cassa, suspensas às lanças douradas.

A mobília era tão simples e tão elegante como o aposento: dois consolos de mármore, uma conversadeira, algumas cadeiras e o leito nupcial, que se envolvia nas longas e alvas cortinas, como uma virgem no seu véu de castidade.

Era, pois, um ninho de amor este gabinete, em que o bom gosto, a elegância e a singeleza tinham imprimido um cunho de graça e distinção que bem revelava que a mão do artista fora dirigida pela inspiração de uma mulher.

(continua...)

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