Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Júlia É outra questão, já disse. Nos bailes, aos quais meu pai não te quer levar, é certo que os moços me cumprimentam; mas as tias, as mães e as irmãs armam-me tais laços para informar-se de ti, que evidentemente elas te prefeririam para os sobrinhos, para os filhos e os irmãos.
Corina Ainda bem que o padrinho da boneca te ama.
Júlia Veremos: já esperei mais. Também ele perguntou-me por ti. Desconfio da curiosidade.
Corina Podes esperar tudo... eu te juro. JuIia Não podes jurar o que não sabes. Uma experiência; vejamos: (vai buscar uma flor e tira as pétalas) Sim... não, sim... não... (até o fim) não! Estás vendo? Exijo que te cases.
Corina Acabarás por aborrecer-me, Júlia!
Júlia Eu? Se tu me fazes conhecer os homens!... Amo-te! Tu és o fogo em que provo a minha prata: se Teófilo for casquinha, boa viagem! (indo ao piano) Vamos ensaiar um dueto?
Corina Com que fim? O senhor Firmino não consente que eu cante em sociedade.
Júlia Mas se eu quiser...
Corina Prefiro que não queiras.
Júlia Tu te resignas demais: eu no teu lugar me revoltava, (abrindo o relógio) onze horas e três quartos... que dia comprido!... (boceja) Ah! É verdade: a outra questão. Corina, tu tens o coração encouraçado?...
Corina Que pergunta, Júlia!
Júlia Ainda não amas? Porém é indispensável que ames... digo-te que me é preciso que te cases... perde esse coração uma vez, Corina! Ah, eu tenho perdido o meu tantas vezes!... (rindo-se) Ainda bem que ele foge e volta, vai e vem, como passarinho acostumado à gaiola!
Voz de mulher (dentro)
Uma esmola à pobre velha pelo amor de Deus!..
Corina Ah! É a voz da minha pobre! (querendo ir)
Cena 2ª
Júlia, Corina, Teodora e Carlos
Teodora Menina, já lhe temos dito que não deve ir sozinha dar esmola à sua pobre: venha comigo...
Corina Perdoe-me... não tornarei a ir só... (vão-se as duas e voltam)
Carlos Isto é contra o preceito do Evangelho: a esmola da caridade não deve ter testemunhas; o segredo é a santa poesia da esmola: também o segredo, o mistério é quase sempre poético; não acha?...
Júlia Acho tudo quanto quiseres, menos somente uma coisa.
Carlos O que?...
Júlia O teu juízo, de que ninguém me dá notícias. (voltam as duas)
Carlos Minha mãe, Júlia começa a provocar-me...
Teodora É uma estouvada: eu te livro dela; vem comigo, Júlia; tenho que dizer-te (vai-se)
Júlia (beliscando Corina) Gare aux vers!
Cena 3ª
Corina e Carlos
Carlos Ela nem sabe falar o francês, e quer fazer calembour!...
Corina Não admira, aqui estou eu que ignoro até o português.
Carlos Se eu não a conhecesse tão instruída, chegaria a suspeitá-lo; porque a senhora finge não entender...
Corina O que?
Carlos O meu penar cruel...
Corina Então está doente?...
Carlos Do coração, bela Corina.
Corina Isso é grave: deve quanto antes consultar os médicos.
Carlos Porque zomba de mim?... Que fez do buquê de violetas que lhe ofereci?
Corina Pu-lo de molho por amor das violetas.
Carlos Essas flores nada lhe disseram?
Corina As flores?... Flores falando! Senhor Carlos...
Carlos Isto desespera! Porque assim me trata? Tanta impiedade quando me rendo a seus pés?... Um desengano, é apenas sentença que infelicita; mas o escárnio é injúria bárbara. Uma vez ao menos falemos seriamente...
Corina Se o assunto for sério...
Carlos Não pode sê-lo mais: ouça e decida. A minha alma vai falar, e a minha vida concentrar-se nos meus lábios: o amor em que se abrasa o meu coração é puro, como o fogo dos seus olhos, amo-a como Petrarca amou a Laura, Lamartine a Graziella, Gonzaga, ou antes Dirceu à Marilia! (Corina ri) Por quem é não ria-se... tudo o que quiser, menos rir assim. Eu a adoro... adoro-a nos meus sonhos... adoro-a nas minhas tormentosas vigílias... de dia a minha alma é seu altar... de noite... (Corina põe-se a rir) podes fazer-me o favor de não rir?...
Corina Mas é impossível conter-me! (rindo ainda)
Carlos Oh! A senhora ri enquanto o meu coração se afoga em pranto envenenado! Nós devíamos ser como duas flores que o almo sopro de amor aproximasse; mas a estrela do céu não vê o verme da terra que a namora, como diz Victor Hugo! (Corina desatando a rir, leva o lenço à boca) Oh! O rir aqui é inteiramente fora de propósito!...
Corina Mas o senhor tinha dito que ia falar seriamente...
Carlos E que há de mais sério que este amor poético, arrebatador, vulcânico... (Corina ri) e a senhora a rir! Aí está uma coisa com que dou o cavaco! Desengane-me, se quiser, mas não ria-se... não riase...
Corina Senhor Carlos... eu o estimo muito... faço justiça aos seus sentimentos... mas, tornando ao sério... (desata a rir)
Carlos Basta de rir: dona Corina, além do terno interesse do meu amor, eu quero, posso e devo livrá-la do mais horrível naufrágio...
Corina
Oh! não se exponha por mim... deixe-me
naufragar.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.