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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

VIOLANTE – E por fim de contas Casimiro como abandona assim a filha?...

BRAZ – Casimiro não abandona, confia a filha; ele tem mais que fazer, e nós também; reparou que Clemência trazia na mão um ramalhetinho de violetas?

VIOLANTE – Reparei...

BRAZ – Pois agora é o dr. Augusto que o traz ao peito.

VIOLANTE – É escandaloso! de dia tão claro!... no meu tempo não era assim.

BRAZ – Já sei: no seu tempo era de noite que se davam os ramalhetes; mas daqui a pouco darei ao dr. Augusto informações da madrinha; creio que logo depois um passeio pelo braço desse cavalheiro lhe fará bem, e... se a madrinha não for peca, o ramalhetinho de violetas será seu.

VIOLANTE – Isso tenta... Braz, penso que começas a desmoralizar-me.

BRAZ – Será uma vitória digna dos seus óculos e da sua touca.

VIOLANTE – Do meu dinheiro, queres dizer.

BRAZ – A palavra tem o seu pudor, disse Lamartine; eu respeito as conveniências. (Vendo passar uma moça.) Olá! temos revolução no jardim! aí vai a Acrobata.

VIOLANTE – Que é a Acrobata?

BRAZ – Uma das vinte desmentidoras da moléstia da época; uma das vinte pestes que dão público testemunho da saúde perfeita da situação econômica. Brada-se por toda parte: “não há dinheiro!” oh! se há! e sobra tanto que as mãos cheias se atira no lenteiro.

VIOLANTE – Como é isso?

BRAZ – Como esta mais dezenove no galarim; carros com parelhas magníficas, cada dia novo e riquíssimo vestido, pérolas, brilhantes, cinqüenta contos por ano multiplicados por vinte mil contos dados ao culto do vício torpe, afora as ceias e orgias, afora a milenária escala da lubricidade, que vai descendo até a ralé da infâmia. E não há dinheiro! mentira; prova da mentira: a Acrobata pela vigésima parte.

VIOLANTE – Então... essa desgraçada criatura...

BRAZ – Delírio de solteiros e casados, de rapazes e de velhos; a Acrobata é o tipo da unidade, porque bebe, come, sonha, deseja e exige sempre uma coisa única – dinheiro; dá caridade, porque ama sem exceção e com perfeita indiferença a todos que lhe dão – dinheiro. A Acrobata é um prodígio; madrinha, subamos à varanda, acompanhemos a Acrobata.

CENA V

VIOLANTE, BRAZ, LEOPOLDO e TIMÓTEO

TIMÓTEO (A Leopoldo) – O peixe boi saiu do lago para conversar com o Braz de Souza.

LEOPOLDO (A Timóteo) – Com efeito, é a velha mais horrível que tenho visto; é uma coruja monumental promovida pelo demônio a velha criatura humana. BRAZ – Preclaríssimos amigos! (Cumprimentam-se.) TIMÓTEO – Sr. Braz! minha senhora!

LEOPOLDO – Minha senhora! (A Braz) Como passou de ontem? adivinha-se... perfeitamente ditoso.

BRAZ (Apresentando) – A sra. dª. Violante, irmã do nosso amigo Casimiro. TIMÓTEO – Oh! minha senhora... tenho muita honra... (Fala a Violante.) LEOPOLDO (A Braz) – Mas... é um dragão de feia!

BRAZ (A Leopoldo) – Não me desanimes... estou apaixonado-me; onde a vês, é solteira ainda, e herdou há quatro meses de um tio e padrinho a insignificância de quinhentos contos de réis.

LEOPOLDO (A Braz) – Um! meio milhão! (Olhando) reparando-se bem, não é tão feia, como à primeira vista me pareceu; os óculos e a touca dão-lhe até certa graça...

VIOLANTE – Vamos, Braz. (Cumprimenta aos dois.)

BRAZ (Aos dois) – Até logo. (Indo-se com Violante.) Já deixei um iscado.

VIOLANTE (A Braz) – Quem?

BRAZ (A Violante) – O de pince-nez: é dos três designados por Clemência. (

Vai-se com Violante.)

CENA VI

TIMÓTEO e LEOPOLDO

TIMÓTEO – Ainda não vi a tua bela Clemência; mas a horrorosa tia nos garante o feliz encontro; a tia é a noite que precede a aurora.

LEOPOLDO – A noite... eu gosto da frescura da noite... porém a aurora não tarda a aparecer, e é bela como os amores...

TIMÓTEO – E leviana, inconstante, como as borboletas; olha, há mais namorados de Clemência do que candidatos ao trono de Espanha. Eu não me casava com ela.

LEOPOLDO – Nem eu; quem pensa em casamento! com uns cinqüenta contos de réis de dote seria ouro sobre azul; mas pobre, como é, afigura-se-me um banco de emissão sem fundo de reserva metálico.

TIMÓTEO – E neste maldito tempo, em que andam todos à bolina, furtando o vento.

LEOPOLDO – É verdade, não há casa sólida; a minha começou, que era a quem mais caía com o mel! mas a estagnação do comércio! os sustos e as concentrações do Banco do Brasil, que dantes consolava a gente! a casa ainda vai bem, vai muito bem; mas se eu ajeitasse uma noiva que me enchesse os olhos com o dote, eim?

TIMÓTEO – Para que então perdes o teu tempo com Clemência?

LEOPOLDO – Ora! ela é que o perde comigo; eu divirto-me, namoro-a pela mesma razão porque vou ao teatro, ou ao circo da Guarda-Velha. Se ao menos a tia desse a quinta parte do que possui à sobrinha!

TIMÓTEO – Pois a tia é rica?

LEOPOLDO – Meio milhão!... quinhentos contos de réis de herança, diz o Braz.

TIMÓTEO – Meio milhão! é caso de bater bandeiras: quinhentos contos! que senhora de bem! vale quinhentas vezes mais do que a sobrinha!

LEOPOLDO – Se o Braz não mente, vale. Uma velha bem velha, se é rica, é preferível à moça mais formosa, precisamente porque é a precursora infalível da moça formosa.

(continua...)

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