Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
ADRIANO, CINCINATO e BRÁULIO; canto e piano, alarido e movimento até o fim do ato.
BRÁULIO – Que é isto? (Vai à direita, volta à porta do fundo.) Fortíssimo!
fortíssimo!... (A Adriano e Cincinato.) Que homens loucos! (Ao fundo.) Fortíssimo!...
CINCINATO – Não tenha medo, a polícia não desperta.
BRÁULIO (Ao fundo.) – Fortíssimo! (Corre à direita e quase o lançam por terra os que saem em tumulto.)
CENA XII
ADRIANO, CINCINATO, BRÁULIO, D. DONALDO, DEMÉTRIO, FÁBIO,
JOGADORES: confusão, grita e música até o fim
D. DONALDO – Caramba!... hei ganhado honestamente.
VOZES – Não! sim! ladrão! é falso! silêncio! (Vozes encontradas.)
DEMÉTRIO – Silêncio! ouçam-me! quero falar! (Silêncio). Este homem roubounos e deve restituir-nos o nosso dinheiro... aqui está a tripa, onde há cartas falhas... podem examinar... houve além disso feitos e olheiros... e todos viram há pouco a empalmação do... (Mostrando as cartas.)
D. DONALDO – O senhor mente!...
DEMÉTRIO – Larápio!... (Atira com o monte de cartas sobre d. Donaldo, os jogadores seguram e separam os dois: confusão.)
D. DONALDO – Perro! encomenda a tua alma, que eu hei de te matar dez vezes!...
BRÁULIO – A ceia! a ceia está na mesa! a ceia! a ceia! (Confusão.)
CINCINATO (Na frente.) – A ceia!... o governo da casa contém os furores da maioria, falando-lhe à barriga! está em regra: a ceia! a ceia!
FIM DO PRIMEIRO ATO
ATO II
Salão da frente do Teatro Provisório: portas ao fundo comunicando com
o corredor dos camarotes da segunda ordem.
CENA I
FÁBIO E ÚRSULA, que entram
FÁBIO – Que é isto, Úrsula?... deixaste arrebatada o camarote, como se fugisses ao bote de uma serpente.
ÚRSULA – Sim... eu vi, não uma serpente, mas um homem que eu supunha bem longe daqui: é ele... eu o reconheci no fundo do camarote de Adriano.
FÁBIO – Quem? ...
ÚRSULA – Clarimundo... o antigo tutor de Helena...
FÁBIO – Clarimundo! então chegou hoje no paquete do Rio da Prata: mas... que comoção, Úrsula! estás convulsa... (Chega uma cadeira.)
ÚRSULA (Sentando-se.) – A surpresa... eu não esperava... oh!... esse homem...
FÁBIO – Tão profunda sensação!...(Úrsula estremece.) ah! já compreendo: receias que ele venha destruir a minha obra...
ÚRSULA – É isso mesmo... adivinhaste.
FÁBIO – Ora!... enriqueceu muito, negociando no Rio da Prata; mas por último arruinou-se em uma grande e desastrosa especulação: li há poucos dias cartas, em que ele se lastimava do seu infortúnio: pobre como chega não pode salvar Adriano, e por pouco que me auxilies, Helena abandonada pelo marido...
ÚRSULA (Em pé.) – Escuta aqui mesmo e já. (Olhando em torno.) Meu único irmão, meu único amor na terra, tenho-te amado com fraqueza de mãe... pobre e ocioso, jogador e libertino tens achado alimento para teus vícios na riqueza que herdei de meu marido...
FÁBIO – É melhor deixar esse sermão velho lá para casa.
ÚRSULA – Além do esbanjamento da minha fortuna, um dia me impuseste cruel sacrifício: pretextando intimidade de relações com Adriano, obrigaste-me a procurar a amizade de sua esposa; jurei-te que em outros tempos um abismo de ódio me separara da mãe de Helena: resisti, chorei; porém tu venceste.
FÁBIO – E daí?
ÚRSULA – Oh! pérfido amigo de Adriano, tu me querias para vil instrumento da sedução de sua esposa; colocaste-me na mais triste posição, porque todas as aparências me condenam como tua cúmplice.
FÁBIO – E daí?
ÚRSULA – E a minha consciência também me acusa, porque com o meu ouro pagas a perversão de Adriano, e eu, ainda imprudente, preveni Helena de paixão criminosa de seu marido.
FÁBIO (Rindo.) – E por último propuseste-lhe vir esta noite ao Teatro Provisório, no que Helena conveio logo, porque uma cartinha anônima levada pelo correio urbano já lhe havia anunciado em que camarote poderia ver a rival feliz.
ÚRSULA – Oh! Fábio... tu és mau e me sacrificas sem piedade; agora porém não me submeto mais: eu te peço... por quanto amor me deves, deixa em paz Helena, abafa essa paixão insensata e condenável; liberta-me de um remorso que me punge...
FÁBIO – Estás fora de ti... isso é nervoso, minha irmã...
ÚRSULA – Ingrato que me ridicularizas! vê bem: eu romperei o véu desta intriga... Helena saberá tudo, e ainda mais... eu me compadeço de Adriano, e posso vingar-me de ti, estendendo-lhe mão amiga, e desvendando-lhe os olhos...
FÁBIO – Que revolução!... o simples encontro inesperado de Clarimundo!...
ÚRSULA – Sim... é isso mesmo; Clarimundo conhece as razões da inimizade que
houve entre mim e a mãe de Helena, e na fraqueza imperdoável de tua irmã ele veria somente a perversidade do ódio velho... do ódio de além túmulo... do ódio da mulher demônio...
FÁBIO – Tens medo desse homem... (Aparece Bráulio à porta do fundo.)
ÚRSULA – Medo!... oh!... seja medo... supõe o que te parecer... imagina embora que eu me confundo nos turvos segredos dessa sociedade brilhante, onde às vezes se escondem traições e vergonhas nas dobras dos ricos vestidos de seda; mas, eu to disse já, não abusarás mais de mim...
FÁBIO – Isso passa... são recordações da mocidade... pecados veniais do outro tempo...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.