Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
A ceia começou: na ocasião do primeiro brinde Salvador Correia falou ainda a Gil Eanes e a Lopo de Melo.
- Enchei vossos copos!...
Os dois obedeceram.
- Agora de pé! e saudai e bebei à felicidade dos noivos!...
E cumprida a sua ordem, Salvador Correia pôs a mão espalmada sobre a cabeça de Inês, e disse aos dois:
- Lembrai-o bem!... é minha afilhada.
Logo depois expandiu o rosto, e acrescentou alegremente:
- Senhor Gil Eanes, senhor Lopo de Melo, tudo está esquecido. Não haja tristezas nem vexamesa perturbar o júbilo dos noivos e o nosso!...
E a ceia continuou e acabou vivamente animada.
Desde o dia seguinte propalou-se a notícia das duas escandalosas tentativas de rapto de Inês, e da famosa logração que habilmente preparara aos indignos e pervertidos fidalgos Aleixo Manoel.
O povo aplaudiu muito o ardil do cirurgião, e o seu feliz casamento: nas noites da segunda e terça-feira foi numeroso bando de colonos cantar à porta da casa dos noivos, e creio que as serenatas teriam ainda continuado, se a quarta-feira de cinzas não fosse começo da quaresma, que era muito respeitada.
Aleixo Manoel, porém, subira ao galarim da fama e da moda; fizeram-lhe cantigas, e no fim de poucos dias o povo sem audiência da Câmara nem licença do Governador deu ao Desvio do Mar a denominação de Rua de Aleixo Manoel.
CAPÍTULO 3
Como a Rua de Aleixo Manoel estendeu-se para o interior até a dos Latoeiros, ficando por muitos anos, onde começara em Desvio do Mar, e viu ali nas tardes de verão moças a pescar no mar e em terra. Como se aterrou aquele mar da Rua Direita, a de Aleixo Manoel já com a denominação de Rua do Padre Homem da Costa avançou até a atual do Mercado, e aí na praia se estabeleceu o primitivo mercado com o nome de Quitanda das Cabanas que depois se trocou pelo de Praia do Peixe. Refere-se uma tradição duvidosa do Padre Homem da Costa, e diz-se, como se abriu a vala da Carioca, e a rua daquele leio nome, até á qual se alongou a do Padre Homem da Costa; fala-se dos inconvenientes da vala e dos aplausos que por mandar cobri-la de grossos lajedos recebeu o Vice-Rei Conde da Cunha, que aliás pouco influíra na obra, tendo sido esse melhoramento determinado por grotesco e infeliz caso, história romanesca que se contará no capítulo seguinte.
Adiantava-se o século XVII e a Rua de Aleixo Manoel que peio lado de terra não se estendia além da dos Latoeiros que a corta em ângulos retos, e que hoje se denomina de Gonçalves Dias, pelo lado do mar ainda começava onde rompera em Desvio.
Na Rua Direita a praia era em pouco irregular: em alguns pontos o mar muito baixo sem a menor dúvida se mostrava retirante, e acumulava aqui e ali areias, formando ilhotas brancas e privadas de vegetação.
Mas entre esses pontos o mar ainda investia menos baixo sobre o continente, como teimoso a negar-se ao recuamento de suas águas.
E naqueles tempos a praia e o mar (onde ele era mais fundo ou menos entupido de areias) serviram de lugares de recreio, se o recreio não servia de pretexto para exibições ardilosas.
Envolvidas em suas mantilhas, e cobrindo o rosto com seus véus, as senhoras da Rua Direita, e principalmente (dizem) as da de Aleixo Manoel, tinham por costume ir à tardinha nos meses de verão pescar de caniço sentadas ou em pé na praia. As mães ou as tias já velhas acompanhavam as filhas e sobrinhas moças, zelando sua pundicícia e o seu decoro.
Todavia as pescadoras jovens sabiam perfeitamente o segredo de Inês - a mameluca, e ao deitarem os anzóis ao mar, o amigo vento vinha sempre desarranjar suas mantilhas e levantar seus véus, de modo que os observadores curiosos podiam ver e admirar olhos formosos, bonitos semblantes e soberbos colos.
E muitas vezes as vaidosas arteiras eram tão felizes na pesca que chegavam a pescar duplamente - peixes no mar e corações em terra.
Vejam como se mudaram os costumes!...
Naquele tempo, as jovens da Rua de Aleixo Manoel iam pescar para se mostrar; e hoje freqüenta a Rua do Ouvidor certo bando de pescadoras que andam se mostrando para pescar.
Mas não há bem que sempre dure!...
Tratando-se de construir a fortaleza da Lage à custa do povo, e, achando-se este sobrecarregado de impostos, a Câmara Municipal (que ainda não era ilustríssima), como não bastassem para essa obra algumas rendas que propusera aplicar à fortaleza, deliberou vender alguns terrenos das marinhas da cidade, sendo o produto da venda destinado àquele fim.
Uma das marinhas vendidas foi a que fazia frente à primitiva linha de casas da Rua Direita.
E assim lá se foi a praia de exposição ardilosa de bonitas pescadoras.
Ganharam com isso as Ruas Direita e de Aleixo Manoel.
Em poucos anos aterrou-se o mar que ajudava o aterro, amontoando areias, e tão rapidamente que no fim do mesmo século décimo sétimo já era regular e contínua a edificação e série de casas fronteiras às da única linha antiga da Rua Direita. Em 1698 já estava construída a casa que por ordem régia então se comprou para residência dos governadores e que é aquela onde desde anos se achavam estabelecidos o Correio Geral e a Caixa da Amortização.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.