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#Autos#Literatura Portuguesa

Auto da Festa de São Lourenço

Por José de Anchieta (1587)

Tendo o corpo de São Lourenço amortalhado e posto na tumba, entra o Anjo com o Temor e o Amor de Deus, a encerrar a obra, e no fim acompanham o santo à sepultura.

ANJO

Vendo nosso Deus benigno vossa grande devoção que tendes, e com razão, a Lourenço, o mártir digno

de toda a veneração,

determinam, por seus rogos e martírio singular, a todos sempre ajudar, para que escapeis dos fogos em que os maus se hão de queimar.

Dois fogos trazia n’alma, com que as brasas resfriou, a no fogo em que se assou, com tão gloriosa palma, dos tiranos triunfou.

Um fogo foi o temor do bravo fogo infernal, e, como servo leal, por honrar a seu Senhor, fugiu da culpa mortal.

Outro foi o Amor fervente de Jesus, que tanto amava, que muito mais se abrasava com esse fervor ardente

que co’o fogo, em que se assava,

Estes o fizeram forte. Com estes purificado como ouro refinado, padeceu tão crua morte por Jesus, seu doce amado.

Estes vos manda o Senhor a ganhar vossa frieza, para que vossa alma acesa de seu fogo gastador, fique cheio de pureza.

Deixai-vos deles queimar como o mártir São Lourenço, e sereis um vivo incenso que sempre haveis de cheirar na corte de Deus imenso.

TEMOR DE DEUS

(Dá seu recado.)

Pecador, sorves com grande sabor o pecado, e não ficas afogado com teus males!

E tuas chagas mortais não sentes, desventurado!

O inferno como seu fogo sempiterno, Já te espera, se não segues a bandeira da cruz, sobre a qual morreu Jesus para que tua morte morra.

Deus te envia esta mensagem com amor, a mim que sou seu Temor me convém declarar o que contém para que temas ao Senhor.

(Glosa e declaração do recado.)

Espantado estou de ver, pecador, teu vão sossego. Com tais males a fazer, como vives sem temer, aquele espantoso fogo?

Fogo que nunca descansa, mas sempre provoca a dor, e com seu bravo furor dissipa toda a esperança

ao maldito pecador.

Pecador, como te entregas tão sem freio ao vício extremo? Dos vícios de que estás cheios engolindo tão às cegas a culpa, com seu veneno.

Veneno de maldição tragas sem nenhum temor, e sem sentir sua dor, deleites da carnação sorves com grande sabor.

Será o sabor do pecado muito mais doce que o mel, mas o inferno cruel depois te dará um bocado

bem mais amargo que o fel

Fel beberás sem medida, pecador desatinado, tua alma em chamas ardida. Esta será a saída do deleite do pecado.

Do pecado que tu amas Lourenço tanto escapou que mil penas suportou, e queimado pelas chamas, por não pecar, expirou.

Ele a morte não temeu. Tu não temes o pecado no qual et tem enforcado Lucifer, que te afogou, e não ficas afogado.

Afogado pela mão do Diabo pereceu Décio com Valeriano, infiel, cruel tirano, no fogo que mereceu.

Tua fé merece a vida, mas com pecados mortais quase a tiveste perdida,

e teu Deus, bem sem medida, ofendeste, com teus males.

Com teus males e pecados, tua alma de Deus alheia, da danação na cadeia há de pagar com os danados a culpa que a incendeia.

Pena sem fim te darão dentre os fogos infernais teus deleites sensuais. Teus tormentos dobrarão, e tuas chagas mortais . Que mortais são tuas feridas pecador. Porque não choras? Não vês que nestas demoras, estão todas corrompidas, a cada dia pioras?

Pioras e te confinas, mas teu perigoso estado, na pressa e grande cuidado com que ao fogo te destinas, não sentes, desventurado?

Oh, descuido intolerável de tua vida! Tua alma está confundida no lodo, e tu vais rindo de tudo, não sentes tua caída!

Oh, traidor!

Que negas teu Criador, Deus eterno, que se fez menino terno por salvar-te. E tu queres condenar-te e não temes ao inferno!

Ah, insensível! Não calculas o terrível espanto, que causará o juiz, quando virá com carranca muito horrível, e à morte te entregará.

E tua alma será sepultada em pleno inferno, onde morte não terá mas viva se queimará com seu fogo sempiterno!

Oh, perdido! Ali serás consumido sem nunca te consumir. Terás vida sem viver, com choro e grande gemido, terás morte sem morrer.

Pranto será teu sorrir, sede sem fim te abeberra, fome que em comer se gera, teu sono, nunca dormir, tudo isto já te espera.

Oh, morfio! Pois tu veras de continuo ao horrendo Lucifer, sem nunca chegar a ver aquele molde divino de quem tiras todo o ser.

Acaba já de temer a Deus, que sempre te espera, correndo por sua esteira, pois não lhes vai pertencer se não lhe segues a bandeira.

Homem louco!

Se teu coração já toco, mudar-se-ão alegrias em tristezas e agonias. Olha que te falta pouco para fenecer teus dias.

Não peques mais contra Aquele que te ganhou vida e luz com seu martírio cruel bebendo vinagre e fel no extremo lenho a cruz.

Oh, malvado!

Ele foi crucificado, sendo Deus, por te salvar. Pois, que podes esperar, se foste tu o culpado e não cessas de pecar?

Tu o ofendes, ele te ama.

Cegou-se por dar-te a luz. Tu és mau, pisas a cruz sobre a qual morreu Jesus.

Homem cego, porque não começas logo a chorar por teu pecado? E tomar por advogado a Lourenço que, no fogo, por Jesus morreu queimado?

Teme a Deus, juiz tremendo, que em má hora te socorra, em Jesus tão só vivendo, pois deu sua vida morrendo para que tua morte morra.

AMOR DE DEUS

(Dá seu recado)

Ama a Deus, que te criou, homem, de Deus muito amado! Ama com todo cuidado, a quem primeiro te amou.

(continua...)

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