Por Machado de Assis (1868)
A viúva usava para com ele de tanta solicitude que não era possível duvidar do sentimento que a dirigia. Pelo menos Estêvão assim o pensava. Achavase quase sempre só, e deliciava-se em ouvi-la. A intimidade começou a estabelecer-se.
Logo na segunda visita, Estêvão falou-lhe em Meneses pedindo licença para apresentá-lo. A viúva disse que teria muito prazer em receber amigos de Estêvão; mas pedia-lhe que adiasse a apresentação. Todos os pedidos e todas as razões de Madalena eram dignas para o médico; não disse mais nada.
Como era natural, ao passo que as visitas à viúva eram mais assíduas, as visitas ao amigo eram mais raras.
Meneses não se queixou; compreendeu, e disse-o ao rapaz.
- Não se desculpe, acrescentou o deputado; é natural; a amizade deve ceder o passo ao amor. O que eu quero é que seja feliz.
Um dia Estêvão pediu ao amigo que lhe contasse o motivo que o tinha feito descrer do amor, e se algum grande infortúnio lhe havia acontecido.
- Nada me aconteceu, disse Meneses.
Mas ao mesmo tempo, compreendendo que o médico merecia-lhe toda a confiança, e podia não acreditá-lo absolutamente, disse:
- Por que negá-lo? Sim, aconteceu-me um grande infortúnio; amei também, mas não encontrei no amor as doçuras e a dignidade do sentimento; enfim, é um drama íntimo de que não quero falar: limite-se a pateá-lo.
Capítulo VII
- Quando quiser que eu lhe apresente o meu amigo Meneses... dizia Estêvão uma noite à viúva Madalena.
- Ah! é verdade; um dia destes. Vejo que o senhor é amigo dele.
- Somos amigos íntimos.
- Verdadeiros?
- Verdadeiros.
Madalena sorriu; e como estava brincando com os cabelos do filho deu-lhe um beijo na testa.
A criança riu alegremente e abraçou a mãe.
A idéia de vir a ser pai honorário do pequeno apresentou-se ao espírito de Estêvão. Contemplou-o, chamou por ele, acariciou-o e deu-lhe um beijo no mesmo lugar em que pousaram os lábios de Madalena.
Estêvão tocava piano, e às vezes executava algum pedaço de música a pedido de Madalena.
Nessas e noutras distrações lá passavam as horas.
O amor não adiantava um passo.
Podiam ser ambos.duas crateras prestes a rebentar a lava; mas até então não davam o menor sinal de si.
Esta situação incomodava o rapaz, acanhava-o, e fazia-o sofrer; mas quando ele pensava em dar um ataque decisivo, era exatamente quando se mostrava mais cobarde e poltrão
Era o primeiro amor do rapaz: ele nem conhecia as palavras próprias desse sentimento.
Um dia resolveu escrever à viúva.
"É melhor, pensava ele; uma carta é eloqüente e tem a grande vantagem de deixar a gente longe."
Entrou para o gabinete e começou uma carta.
Gastou nisso uma hora; cada frase ocupava-lhe muito tempo. Estêvão queria fugir à hipótese de ser classificado como tolo ou como sensual. Queria que a carta não respirasse sentimentos frívolos nem maus; queria revelar-se puro como era.
Mas de que não dependem às vezes os acontecimentos? Estêvão estava relendo e emendando a carta quando lhe entrou por casa um rapazola que tinha intimidade com ele. Chamava-se Oliveira e passava por ser o primeiro janota do Rio de Janeiro.
Entrou com um rolo de papel na mão.
Estêvão escondeu rapidamente a carta.
- Adeus, Estêvão! disse o recém-chegado. Estavas escrevendo algum libelo ou carta de namoro?
- Nem uma nem outra cousa, respondeu Estêvão secamente.
- Dou-te uma notícia.
- Que é?
- Entrei na literatura.
- Ah!
- É verdade, evenho ler-te a primeira comédia.
- Deus me livre! disse Estêvão levantando-se.
- Hás de ouvir, meu amigo; ao menos algumas cenas; dar-se-á caso que não me protejas nas letras? Anda cá; ao menos duas cenas. Sim? É pouca cousa.
Estêvão sentou-se.
O dramaturgo continuou:
- Talvez prefiras ouvir a minha tragédia intitulada -- O Punhalde Bruto...
- Não, não; prefiro a comédia: é menos sanguinária. Vamos lá.
O Oliveira abriu o rolo, arranjou as folhas, tossiu e começou a ler o que se segue, com voz pausada e fanhosa:
CENA I
CÉSAR (entrando pela direita); JOÃO (pela esquerda)
C É S A R — Fechada! A sinhá já se levantou?
J O Ã O — Já, sim senhor; mas está incomodada.
C É S A R — O que tem?
J O Ã O — Tem... está mcomodada.
CÉ S AR — Já sei. (Consigo) "Os incômodos do Costume". (A João) Qual é então o remédio hoje?
JOÃO — O remédio? (Depois de uma pausa) Não sei. C É S A R — Está bom, vai-te!
CENA II CÉSAR, FREITAS (pela direita) C É S A R — Bom dia. Sr. procurador . . .
FREITAS — De causas perdidas. Só me ocupo em procurar as perdidas. Procurar o que se não perdeu é tolice. A minha constituinte?
C É S A R — Disse-me o João que está incomodada.
FREITAS — Mesmo para V, S.a?
(continua...)