Por José de Alencar (1872)
- Eu cá trago estas coisas em ordem, tornou o amanuense; e acabou de ler a nota. – “Negócio de D. Leonarda.” Depois dessa formalidade explicou Benício ao mancebo que a sogra do Soares o incumbira de pedir-lhe o favor de achar-se em sua casa terça-feira ao meio-dia em ponto, para na qualidade de advogado aconselhá-la em negócio importante e até mesmo arranjar certos papéis necessários.
Assegurou Ricardo que as ordens de D. Leonarda seriam cumpridas; e ali estava exato no dia e hora que lhe fora designado. Viera o mancebo com certa emoção incompreensível, que ainda naquele momento não pudera dominar ao todo, e menos assinar-lhe a causa.
Atribuía à curiosidade. Que lhe queria a senhora? Teria ele de penetrar nos segredos de sua vida? Pretendia a velha incumbi-lo de redigir seu testamento? Ia ele tornar-se o confidente de alguma dessas dissensões intestinas que às vezes lavram no seio das famílias?
Abriu-se a porta; e Guida apareceu em companhia de Mrs. Trowshy.
A moça trajava nesse dia com extrema simplicidade. Estava toda de branco, e a alvura de suas vestes de cambraia sob a nívea cútis dava-lhe a serena transparência da luz mate. Sua bela estátua parecia flutuar nesse éter diáfano onde brilhavam com vivo fulgor os olhos negros e as tranças opulentas de seus cabelos. O lábio talvez pálido em outro semblante menos puro, no seu era folha de rosa nadando em leite; e por ele perpassava um sorriso merencório como deve ser a pétala aveludada da flor quando se despede da luz, de que embebia-se.
Ao vê-la entrar na sala como uma doce visão de manhã de abril, Ricardo, imaginação de artista, com o culto da forma e o entusiasmo do belo, não pôde conter os raptos de seu espírito; e esteve por alguns momentos no enlevo da admiração.
- Está cansado de esperar? disse Guida saudando o advogado.
Feitos os cumprimentos, Mrs. Trowshy foi sentar-se na outra parte da sala, no vão duma janela, com um volume de Dickens. Os dois moços ficaram onde estavam, Guida no sofá, e Ricardo na cadeira do lado.
- Minha avó está arranjando sua papelada. Talvez se demore, e por isso incumbiu-me de uma coisa bem difícil; distrair-lhe a impaciência.
- A senhora dispensa o cumprimento? perguntou Ricardo gracejando.
- Decerto; cumprimentos a esta hora entre o advogado e seu cliente... Porque eu estou aqui representando minha avó.
Não é verdade?
- Assim o entendo; e eu não seria advogado se não houvera aprendido a fundo a paciência; além de que, não tenho pressa. Consagrei o dia de hoje à Srª. D. Leonarda.
- Então não lhe incomoda esperar?
- De modo algum; antes me dá o prazer...
- Ai! ai!... que lá se vai o advogado.
- É verdade!
- Estimo bem que não estivesse aflito por ir-se, porque minha avó é muito vagarosa, coitada, tão doente; e eu não sabia como fazer-lhe passar desapercebido esse tempo. O piano... Se ainda tivesse cordas, podia tocar-lhe o Capenga não forma. Mrs. Trowshy quando se agarra com seu romance, ninguém conte com ela. Então Dickens!
- É o seu autor favorito?
Acenou a moça que sim.
Não estava Guida, essa manhã, no seu natural, que era uma doce jovialidade, salpicada às vezes de ironia, e outras de meiga afabilidade. Em seu vulto perpassava, como na face cristalina de um lago, as mutações do pensamento. Ao entrar tinha ela a atitude séria e concentrada, porém ao mesmo tempo decidida e serena, de quem atravessa um momento difícil da vida, mas arrima-se, para transpô-lo, a uma resolução inabalável.
A conversa tirou-a dessa reserva, sem contudo dissipar-lhe de todo na fronte a sombra da preocupação. Buscou reassumir o seu gentil e gárgulo sorriso, mas a harmonia e a graça dessa mimosa expressão ressentia-se de uma ligeira crispação. As fibras nervinas desse delicado organismo, alguma forte comoção as tinha percutido.
Agora, em meio de um gracejo, deixava-se colher por súbita distração, como se o pensamento, transformado em uma borboleta, lhe fugisse pela janela a farfalhar entre as flores do jardim; mas, a ser assim, depressa achara a idéia que buscava, pois tornou logo à conversa.
- Dickens?... É o autor de sua paixão, disse afinal confirmando o aceno, e com uma ligeira confusão.
Delicadamente Ricardo fingia observar Mrs. Trowshy, para não se mostrar apercebido do enleio da moça. -
Gosta dos romances ingleses? perguntou Guida.
- Poucos tenho lido. A literatura francesa nos invadiu; e por algum tempo foi nosso único fornecedor de idéias. Das outras apenas conhecíamos as obras-primas, os grandes poetas. Ultimamente já entramos em comércio com outras literaturas; mas a mim falta-me o tempo e o gosto.
- Alguns acham os romances ingleses muito insípidos.
- É natural. Somos uma raça tão diversa! Eles hão de achar os nossos extravagantes.
- Oh! quanto à extravagância, quero contar-lhe o desfecho de um que li há tempos; creio que é de... Não me lembro! disse Guida com certo assomo nervoso.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.