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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Devia por um arrebatamento imprudente comprometer sua felicidade, e frustrar a ocasião que nunca mais se apresentaria? Seria uma insensatez. 

Chamou pois a si toda a energia da contade, para impor a seu temperamento a calma precisa: compôs o traje, cujo desarranjo podia denunciar a perturbação interior do espírito e cuidou em reunir-se aos companheiros. 

Seu cavalo andava alí perto na várzea, aparando as pontas do capim mimoso; foi-lhe fácil apanhá-lo. 

A pequena distância andada, acistou os outros vaqueiros que por prazer, andavam a montear o gado barbatão. Encaminhou-se para quele ponto. 

Veio-lhe ao encontro o Ourém. 

— Ora ressuscitou o primo Fragoso! Já pensávamos que o El-dourado tinha-lhe pegado o encanto e que andava por aí também, não em figura de touro, a-pesar-de que Júpiter não se deshonrou de o ser para carregar às costas a bela Europa; mas na figura de um daqueles gentís amorinhos que andam a beijar as flores. E como a flor das flores ainda não encontrou um bem atrevido para beliscar-lhes as faces, era bem presumível que o primo à semelhança do Cisne de Leda se disfarçasse no passarinho. 

— Pois aquí me tem no meu próprio original de carne e osso, primo Ourém; e como destas corridas de touros não se tira outro proveito senão uma dome de caçador, vou saber em que altura anda o almôço, pois já passam das horas. 

— Não serei eu que o demore nessa pia intenção; pois se o primo com o coração cheio sente as badaladas do estômago, imagine o que será de mim, que já me sinto todo um vácuo. 

O Fragoso continuou o seu caminho. Ao passar por uma árvore viu os luzidos festões de uma trepadeira que descia dos galhos em bambolins de verde folhagem, recamada das mais belas flores purpúreas, quais pingentes de rubís. 

O moço capitão colheu um ramalhete dessas lindas flores que no sertão chamam bilros; e dirigiu-se para a colina onde estavam as senhoras. O capitão-mór que o viu passar, gritou-lhe de longe com a sua voz de trovão, fazendo ribombar desapiedadamente aquele seu grosso riso de mofa: 

— Então, sr. capitão Fragoso, que novas dá-nos do Dourado? Já esfolou o boi de fama, e traz aí as solas das chinelas? Olhe que o prometido é devido. Quando quiser, o mamote está à sua disposição. 

A-pesar-do ânimo resoluto em que vinha, careceu o Fragoso de muito domínio sôbre si, para recalcar a violência de seu despeito e responder com ar prazenteiro: 

— A nova que trago, sr. capitão-mór, é que não nascí para o ofício de vaqueiro, mas para o ter ao meu serviço. Foi isto que me ensinou o Dourado; e achando eu que tinha muita razão, deixeio ir descansado e prometi-lhe mandar o José Bernardo entender-se com êle. 

— Não é preciso, oboi não tarda aí. O Arnaldo já o derrubou comc erteza, retorquiu o capitão-mór. 

— Melhor; fez sua obrigação. 

Marcos Fragoso aproximou-se então de D. Genoveva: 

— Quando corria, lembrei-me que em vez de dar caça a um boi magro e fujão, empregaria melhor o meu tempo colhendo estas lindas flores para a senhora D. Genoveva e sua formosa filha, de quem são irmãs, pois também são flores, porém mais meninas e menos encantadoras. Dá-me licença que lhe ofereça, a ela, D. Flor e à sua gentil companheira? 

O galanteio era bem torneado para o tempo, e foi expresso com um apuro de maneiras, que já não se usa agora, e ainda mais naqueles sertões de gente franca e rude. 

— Agradeço por mim e por elas, disse D. Genoveva, distribuindo as flores pelas duas moças. 

— São muito lindas, observou D. Flor ao mancebo. Chamam-se bilros. 

— Ah! não sabia, acudiu Fragoso; serão de fadas, pois que outros dedos podem tanger bilros tão graciosos e delicados, que nem os de coral os excedem? 

Convidou então Marcos Fragoso as senhoras a se apearem para recolherem-se do sol, na tenda já armada alí perto.  

 

VII – A volta 

 

Na ourela da mata, à sombra de umas grandes sicupiras copadas de flores roxas, tinham os criados do capitão Marcos Fragoso arvorado um tôldo de damasco amarelo, sôbre estacas vestidas com o mesmo estôfo de côr azul, formando assim um vistoso e elegante pavilhão. 

Alí já estava armada a mesa, a qual, feita de improviso com quatro forquilhas e ramos, ocultava êsse aspecto rústico sob as telas de sêda que a fraldavam até o chão. Sôbre a alvíssima toalha do melhor linho de damasco, ostentavam-se com profusão as várias peças de uma riquíssima copa de ouro, prata, cristal e porcelana da Índia, que ofereciam ao regalo dos olhos, como do paladar, os vinhos mais estimados e as mais saborosas das iguarias da época. 

As canastras em que tinham vindo todos êsses objetos, reunidas umas às outras de ambos os lados da mesa e fraldadas igualmente de telas de sêda escarlate, formavam dois sofás ou divãs para assento dos convidados. 

(continua...)

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