Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Crispim chamou a um lado o pequeno e interrogou-o sobre o desempenho da comissão, mas quase logo levou as mãos à cabeça e recuou exclamando:
- Oh, diabo! que foi fazer este pastrana!...
O desazado caixeiro, que costumava levar às vezes fazendas à casa do comendador, não julgara preciso ler as indicações escritas sobre o cartão e fora entregar o corte de seda à esposa de Crispim.
Mr. Tal e Mr. Qual acudiram à exclamação, e sabendo do qui pro quo, enquanto o primeiro repreendia o caixeiro e jurava ir despedi-lo; o segundo, abusando da perturbação e do desespero de Crispim, disse-lhe:
- Talvez que V. Ex.ª esteja aflito, além do outro motivo, também pela falha do... da encomenda, por ter sido aquele corte de seda o último... mas acabamos de descobrir outro corte, e, se quer que o mande levar... eu sei onde é... não haverá engano... V. Ex.ª quer que o mande levar?... quer?...
- Mande... mande, respondeu sem pensar no que dizia o Comendador Crispim em apuros.
Teotônio ouviu-lhe a história do fatal qui pro quo com a circunstância agravante da quadra, prova evidente da culpa.
Ficaram os dois a olhar um para o outro e junto de um penedo outro penedo.
- Que entrosga! murmurou Crispim finalmente.
- E o meio de sair dela?... disse Teotônio.
Ambos por mais de uma hora ali se deixaram a imaginar explicações impossíveis, até que de súbito parou à porta da loja um carro (da praça) e dele se apeiou Clotilde;
Façam idéia da cara e da compostura de Crispim. Isto se passava em fins de junho, e o pobre homem suava a causar pena.
Clotilde vinha pálida, levemente trêmula, mas senhora.
Ela deu a mão ao marido e ao cunhado e disse com brandura àquele:
- Crispim, fizeste hoje um despesão comigo! o caixeiro me informou do preço da seda;agradeço-te muito o belo presente e a graça dos versos.
O marido respondeu estupidamente, fingindo rir e falando ao ouvido da esposa:
- Ah! causei-te ciúmes? era o que eu queria para vingar-me.
Clotilde tornou dizendo-lhe docemente:
- Bem sei, e podias tê-lo dito em voz alta; bem sei que a minha vontade e até os meus caprichossão a tua lei, e vou prová-lo.
Avançando então para dentro da loja, ela disse a Mr. Qual que se apresentara:
- Quero um outro corte daquela seda.
- Pois o que foi, é pequeno?...
- Não, Crispim, a seda porém é lindíssima, e eu desejo outro corte para aumentar a cauda dovestido, e para fazer algumas gravatas que destino ao nosso Quincas.
O marido sovina sentiu o golpe, e chegando-se para Teotônio disse-lhe baixinho:
- Ainda bem que o derradeiro depois do último...
Mas não acabou, porque Mr. Qual acudiu, dizendo:
- Pensávamos ter esgotado os cortes da delirante je ne veux pas qu'on m'aime, mas de mistura com outras sedas novíssimas um caixeiro achou mais um... ei-lo, é de V. Ex.ª!
- Mande-o pôr no carro.
E voltando-se para o marido Clotilde acrescentou:
- Mais duzentos mil réis para aumento da cauda do meu vestido e para gravatas do nossoQuincas, por certo que te não causam pena...
- Oh!... não... não!... balbuciou Crispim, que suava cada vez mais.
- Aquele corte de seda é o ultíssimo, disse Teotônio em tom muito baixo a Crispim.
- Que está dizendo a meu marido?... perguntou Clotilde sorrindo:
- Dizia-lhe que a delirante seda é feia como o inferno...
- Isso é inveja, mano, e o que eu sinto é que não haja ainda um corte, porque em lembrança daótima companhia que o senhor faz a Crispim eu levaria de presente à Luizinha...
- Oh, minha senhora!... parece milagre de V.Ex.ª... exclamou Mr. Qual; encontraram-se mais dois cortes da je ne veux pas qu'on m'aime no último caixão que acaba de se abrir neste momento.
- Dois! meu Crispim, sê condescendente... tu és tão bom para mim!... eu quero os dois... umpara Luizinha e outro que mandarei à prima Antonica que faz anos amanhã.
- Mas repara... balbuciou todo banhado em suor e concentrando a fúria o marido sovina.
- Os dois cortes de seda no carro! disse Clotilde a Mr. Qual, que logo obedeceu à ordem.
E quase terna ela continuou falando ao marido:
- Quero-os, e tu escreverás uns versinhos, como aqueles, para que eu os mande pregados na seda à prima Antonica.
Teotônio mal continha o ímpeto de desatar a rir da vingança da ciumenta cunhada.
Crispim alagado em suor e obrigado a submeter-se, embora furioso pela despesa de quatro cortes de seda além do reservado para a Bibi, temendo que aparecessem inesperados ainda outros que a vingativa esposa abrasava em ciúme quisesse tomar, disse a esta:
- Agora vamos para casa, dar-me-ás um lugar no carro.
- Não posso, só há lugar para dois, e o nosso Quincas me espera na Praça de S. Francisco dePaula.
E Clotilde, aceitando graciosa e risonha a mão que o marido lhe ofereceu, entrou no carro, que imediatamente partiu.
- Melhor do que eu esperava e temia! disse Teotônio ao concunhado.
E o sovina Crispim respondeu:
- Mas quatro cortes... afora o outro!... um conto de réis!... um conto de réis!...
-E a tua quadra à Bibi?
- O diabo leve a poesia!...
E o miserável vicioso deu dois passos para o interior da loja, e disse a Mr. Qual:
- Não esqueça a... encomenda!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.