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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Querem a perturbação, o sangue, a morte? Dizia o marchante. Pois hão de ter todas estas calamidades. Sou o procurados do povo de Goiana. Ainda há pouco vos dizia eu que da nobreza só tínhamos que esperar desdens e despotismos. Agora já posso acrescentar que temos também que esperar o assassinato às escurinhas e traiçoeiramente. Não me mataram; apenas feriram-me no ombro; mas a morte dos que defendem os direitos do povo e a autoridade real, essa eles a têm decretado como meio de consolidarem o seu poder, filho da violência e do artificio. São réus de crime de primeira cabeça. Ah! o que nos fazem – tenham certeza – não o botam em saco roto.

Antes de ser ferido pelo tiro que lhe foi disparado por mão até hoje desconhecida, Jeronimo Paes tinha já encaminhado parte do povo para o movimento insurrecional.

Quando chegou à botica, ainda estava ai o Ricardo perorando em favor da nobreza. Ricardo era um rapaz de condição obscura, que à proteção de um nobre devia certo emprego de que vivia. Não tendo podido completar a carreira sacerdotal, que encetara em vida do pai, viu-se obrigado, por morte deste, a voltar à Goiana onde esperava por ele a família acéfala.

Jeronimo não teve para ele a menor cortesia na linguagem, e muito menos no gesto.

- Tuas palavras são suspeitas, rufião – disse ele ao rapaz, rudemente, mostrando-lhe um punho cerrado. Cada uma delas representa uma das migalhas com que teu protetor te matou a fome, dando-te o emprego que tens. Disseste há pouco que não temos nem armas nem dinheiro. Enganas-te, vilão. Em nossos armazéns temos armas para levantar a vila inteira contra a nobreza sem freio que jurou aniquilar-nos. Quanto a dinheiro, olha daí, e dize lá se já viste rosas tão bonitas como estas que me caíram das alturas.

Assim falando, Jeronimo Paes fez saltar as dobras ao ar e as aparou com o açafate.

Ao sonido das moedas, um sem-número de mãos se estendem para sua banda, e diferentes vozes dizem à porfia:

- Dê-me uma rosa.

Uma ao menos dessas rosinhas amarelas, seu Jeronimo Paes. Cosme Cavalcanti, a quem foram logo levar a declaração, imprudentemente feita por Jeronimo, de que havia armamento nos armazéns dos mascates, corre a cercar a casa de Coelho que vareja, segundo vimos.

Entretanto Jeronimo, no ardor da exaltação e calculando o efeito da sua generosidade, distribui, pelos que lhe parecem mais dignos do presente, uma por uma, as dobras tentadoras.

E ao mesmo tempo que com a mão as distribui, segreda com os lábios quase à puridade, ao que as recebe: Quando sair daqui vá a casa de Coelho, José. Não deixes de ir, Antonio. Vê lá o que fazes, Martinho. Ele tem que falar a vocês acerca de uma diligencia importante e rendosa. Não faltes, Justino, nem tu, Jacinto; nem tu Sebastião.

Todos estes sujeitos respondiam afirmativamente e embolsavam a moeda.

O ouro dá calor e eloquência; dos tímidos faz audazes, dos prudentes temerários. A corrupção é feia, mas eficaz no momento; que tem que depois semelhe chaga podre, nojenta, mortal? Quando o tiro feriu o marchante, todos aqueles que tinham na algibeira uma rosa, tomaram imediatamente parte pelo ofendido e em altas vozes pediram armas para o desagravarem. Era mais o cheiro da flor do que o impulso da indignação natural o que lhes dava esta animação.

- Armas, armas, meu amigo, eis as primeiras palavras de Jeronimo quando entrou em casa de Antonio Coelho. Armas ao povo! Ele as pede; ele as quer. A vila é por nós.

Em menos de meia hora Goiana estava nos braços da anarquia. As paixões populares, exacerbadas e açuladas por Jeronimo Paes, por seus filhos, que correram em seu favor tanto que souberam do acontecido, por Belchior – o rabula, Manoel Gaudencio – o alfaiate, Romão da Silva – o meirinho, Manoel Rodrigues – o taverneiro, e por outros conhecidos e desconhecidos parciais, desafogavam em gritos, ameaças, insultos.

O sinos e os tambores deram logo sinal de rebate.

Dos moradores, uns, manifestado o motim, correram a tomar parte nele; outros, já escarmentados das violências praticadas por ocasião dos motins anteriores, fugiam, como podiam, com suas famílias, para fora da vila; outros, não tendo para onde ir, ou receando por pé na rua com tanto povo revolto, se deixavam ficar em suas casas, resolutos a defender-se ou a resistir se acaso fossem atacados pelas turbas. Dos que se atiravam na vertigem muitos não o faziam tendo a mira em outro alvo que o de ser sua casa respeitada pelo saque – epilogo negro de quase todos os motins populares.

Gritos contrários começaram a ressoar de pontos diferentes.

Daqui se ouvia este:

- Vivam os mascates! Morram os nobres!

D’acolá já era est’outro:

- Viva a nobreza de Goiana! Viva a nobreza de Pernambuco! Morra pé-de-chumbo.

Os adjuntos donde partiam estes últimos gritos, eram menos numerosos e menos densos. Dir-se-ia que estavam ainda em formação ou que tinham medo de formar-se. ressoavam à porta de fidalgos conhecidos e daí não se alongavam muito.

Quando algum forte bando se aproximava deles, as manifestações diminuíam ainda mais. Era medo, desdém, ou prudência?

- Silencio, escravos! Respondiam de cá os mais exaltados. Os de lá não retorquiam.

E o dragão popular passava revolto, espumante, vertiginoso, cuspindo injurias e obscenidades contra os que considerava seus adversários, e pensando no desforço pessoal e no roubo publico.

XXV

Cosme Bezerra voltou a esquina, acompanhado de ordenanças e parciais, entrou na Rua-da-matriz e foi descavalgar no Pátio-do Carmo, à porta de João da Cunha.

(continua...)

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