Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Acabam aqui os anexos; segue porém como apêndice a historieta que prometi, e que vai sem declaração da loja e do ano em que se passou para que não me acusem de leviandade.
Mr. Tal estava de mau humor e com alguma razão, tendo encontrado entre outras sedas e fazendas em remessa chegada de Paris dez cortes de seda para vestidos, todos de padrão igual e horrivelmente espantador com extravagante mistura de cores vivíssimas, e de ramagens grandes e pequenas amarelas, vermelhas, negras, etc.
Mr. Tal não quis expor semelhante espanta-freguesas. Mr. Qual, porém, que era desde algum tempo sócio em parte dos lucros da loja, jurou que venderia todos os dez cortes, e pôs um deles suficientemente desenrolado na vidraça.
Mr. Tal disse ao sócio:
- Venda-os a todo preço, a quarenta mil réis ou menos cada um, se aparecerem gostos estragados a comprá-los.
No primeiro dia não houve homem ou senhora que, passando por defronte da loja, não indicasse como que admiração e repugnância, vendo tão espantadora e medonha seda.
Mas no dia seguinte a uma hora da tarde parou de repente à porta da loja bonito faetonte tirado por cavalos negros, trazendo dentro (não dos cavalos, mas dele faetonte) recostada em entorso Mlle Bibi (nome que lhe dou) com os cabelos à Madalena, et coetera.
Mademoiselle saltou do faetonte, entrou na loja e pediu para examinar a seda, que Mr. Qual, acudindo logo, apresentou-lhe dizendo:
- Última e delirante moda de Paris! recebemos vinte cortes desta seda, e só nos resta este que éo último: vestido a - je ne veux pas qu'on m'aime! - Mme Mac Mahon há pouco mais de um mês fez com um destes vestidos verdadeiro furor no baile do Eliseu.
- Sim, respondeu Mlle Bibi a rir: é mais do que feia, é tão horripilante esta seda, que por força obriga a atenção, por conseqüência convém-me. O preço?
- Por ser o último corte... e porque Mlle o distinguiu... duzentos mil réis...
- Que diabo! mas que me importa o diabo do preço?... quero esse corte de horrorosa seda...ponha-o de lado que é meu, daqui a meia hora há de vir quem lho pague.
E Mlle Bibi voltou-se com artificioso movimento, e a olhar para a direita, para a esquerda e para a frente lançou-se dentro do faetonte, e outra vez reclinada de estorso, e pondo à mostra uma das altas botinas toda cheia de laços e fivelas, tendo dado ordens ao cocheiro, foi levada à trote largo pela Rua do Ouvidor acima.
Menos de meia hora depois, e sem vergonha nenhuma, o Comendador Crispim (eu vou crismando os verdadeiros personagens da história), homem de quarenta anos e casado com senhora ainda moça, bonita e virtuosa, entrou na loja, viu e pagou o corte de vestido de seda, pediu papel e tinta e (mal inspirado poeta) escreveu a seguinte quadra:
Aí tens a mais feia seda,
Que se fará bela em ti,
Pois tudo é belo em teu corpo, Meu anjo, minha Bibi.
E logo colocou o seu verso entre as dobras da seda, fez acondicionar esta em cartão bem arranjado e escreveu sobre o cartão a necessária indicação da rua e do número da casa da Bibi e deu ordem para ser imediatamente levada a encomenda ao seu destino.
Um caixeiro saiu logo com o corte de seda.
O Comendador Crispim que, embora fosse rico, era muito econômico, e freqüentemente queixava-se à esposa das despesas que ela fazia com suas toilettes de modo a vexá-la não pouco, acabava de pagar duzentos mil réis corte de abominável seda coagido por exigência do vício que o escravizava.
Raras vezes a esposa tinha merecido seda de tanto preço ao marido sovina. É verdade que Crispim pagara os duzentos mil réis, lamentando semelhante capricho, mas somas muito mais avultadas já por castigo lhe tinha custado a sua fraqueza.
Não é fraqueza que se diz?...
Mas Crispim ia sair da loja, quando parou à porta, vendo aproximar-se outro comendador (no Brasil os doutores e os comendadores são como as folhas do bosque e as areias do mar), o seu concunhado Teotônio, e ambos ficaram a conversar.
A conversação foi confidencial e versou sobre as impertinências das esposas e sobre os expedientes com que eles as mistificavam.
Os dois comendadores casados com duas senhoras irmãs e honestíssimas eram maridos como há por aí outros que, ainda mesmo sem comenda, são maridos de encomenda.
Crispim, depois de ouvir o que Teotônio lhe dizia da sua Luizinha, que às vezes ciumenta o massava, chorando, mas sempre acabava por acreditar na sua inocência, tomou a palavra por sua vez.
- Olha, Teotônio, a minha Clotilde só me atrapalha, vindo alguns dias encontrar-me na Rua do Ouvidor; hoje, porém, como eu podia correr certo perigo, livrei-me absolutamente da Clotilde. Foi uma dos diabos... estou quase arrependido.
- Que foi?
- De um retalho de seda azul que lhe ficara de um vestido ela arranjou uma gravata para onosso sobrinho Quincas, e esta manhã fingi por isso tal acesso de ciúmes, que a deixei chorosa, desgrenhada..,
- Mas que loucura cruel! Quincas tem apenas dezesseis anos de idade, e desde os cinco emque perdeu seus pais é nosso filho de adoção...
- Chegando à casa eu pedirei perdão à Clotilde; era-me porém necessário livrar-me hoje dela naRua do Ouvidor.
Os dois foram interrompidos pelo caixeiro que tinha ido levar o corte de seda à casa de Mlle Bibi.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.