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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Quando parou de extenuado, as luvas de camurça de veado estavam dilaceradas, e as mãos finas e macias vertiam sangue. Então escoado por essa exerção física o primeiro ímpeto de cólera, a razão, se ainda não reassumiu o seu império, pôde sofrear a índole violenta. 

Concentrou-se e refletiu. 

Marcos Fragoso era de ânimo generoso, ornado de prendas de cavalheiro; mas tinha o gênio arrebatado e irascível. Além disso, a-pesar-do atrito da cidade e polimento da vida praceira que levava no Recife, era ainda sertanejo da gema; sertanejo por descendência, por nascimento e por criação. 

Os sertanejos ricos daquele tempo era todos de orgulho desmedido. Habitando um extenso país, de população muito escassa ainda, e composta na maior parte de moradores pobres ou de vagabundos de toda a casta, o estímulo da defesa e a importância de sua posição bastariam para gerar neles o instinto do mando, se já não o tivessem da natureza. 

Para segurança da propriedade e também da vida, tinham necessidade de submeter à sua influência essa plebe altanada ou aventureira que os cercava, e de manter no seio dela o respeito e até mesmo o temor. Assim constituiam-se pelo direito da fôrça uns senhores feudais, por ventura mais absolutos do que êsses outros de Europa, suscitados na média idade por causas idênticas. Traziam séquitos numerosos de valentões; e entretinham a sôldo bandos armados, que em certas ocasiões tomavam proporções de pequenos exércitos. 

Êstes barões sertanejos só nominalmente rendiam preito e homenagem ao rei de Portugal, seu senhor suserano, cuja autoridade não penetrava no interior senão pelo intermédio deles próprios. Quando a carta régia ou a provisão do governador levava-lhes títulos e patentes, êles a acatavam; mas se tratava-se de coisa que lhes fosse desagradável não passava de papel sujo. Não davam conta de suas ações senão a Deus; e essa mesma era uma conta de grão-capitão, como diz o anexim, por tal modo arranjada com o auxílio do capelão devidamente peitado, que a conciência do católico ficava sempre lograda. Exerciam soberanamente o direito de vida e de morte, jus vitæ et næcis, sôbre seus vassalos, os quais eram todos quantos podia abranger o seu braço forte na imensidade daquele sertão. Eram os únicos justiceiros em seus domínios, e procediam de plano, sumarissimamente, sem apêlo nem agravo, em qualquer das três ordens, a baixa, média, e a alta justiça. Não careciam para isso de tribunais, nem de ministros e juízes; sua vontade era ao mesmo tempo a lei e a sentença; bastava o executor. 

Tais potentados, nados e crescidos no gôzo e prática de um despotismo sem freio, acostumados a ver todas as cabeças curvarem-se ao seu aceno, e a receberem as demonstrações de um acatamento timorato, que passava de vassalagem e chegava à superstição, não podiam, como bem se compreende, viver em paz senão isolados e tão distantes, que a arrogância de um não afrontasse o outro. 

Quando por acaso se encontravam na mesma zona, o choque era infalível e medonho. Ainda hoje está viva no sertão a lembrança das horríveis arnificinas, consequências das lutas acirradas dos Montes e Feitosas, mais tarde dos Ferros e Aços. O rancor sanguinário das dissenções políticas de 1817 e 1824, foram resquícios dessas rivalidades e ódios de família, que mais breves não cederam contudo na crueza e animosidade às dos Guelfos e Gibelinos. 

O capitão Marcos Fragoso, ainda moço, arredado havia anos do interior e limado pela vida da cidade, não estava no caso de um dêsses potentados do sertão, e não podia julgar-se com direito e fôrça de entrar em competência com o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, cujo nome era temido desde o Exú até os confins do Piauí. 

Assim, quando arrastado pela paixão que nele acendera a formosura de D. Flor, deixara o Recife e viera ao Quixeramobim, sob o pretêsto de visitar sua fazenda do Bargado, mas com o fim único de aproximar-se da donzela, dispôs-se o moço capitão a render a sua homenagem ao senhor daquele sertão, a quem já considerava como sogro. Acreditava, porém, que essa homenagem fosse acolhida de um modo obsequioso e retribuída por uma deferência a que se julgava com título. 

Falhou a sua conjetura. O capitão-mór lhe dera em sua casa o mais cortês e suntuoso agasalho; porque nisso não tivera em mente obsequiá-lo e sim fazer ostentação de sua opulência. Desde, porém, que êle, Fragoso, transpusera o limiar e deixara de ser hóspede da Oiticica, o senhor de Quixeramobim não o considerou mais senão como um vizinho que lhe devia todas as honras e bajulações, passando a tratá-lo nessa conformidade. 

Se não ocorresse ao capitão-mór a idéia de aproveitar o mancebo para dar à sua filha querida um noivo sofrível, certamente que nem o mandaria visitar por seu ajudante, nem o deixaria passar tranquilo no Bargado, cêrca de um mês; já lhe houvera suscitado algum conflito para ter ensêjo de obrigá-lo a um ato formal de submissão. 

(continua...)

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