Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Mas em breve Mlle Aimée, e logo a imitá-la as celebridades alcazarinas não se contentaram com a sua exposição às vezes em seminudez na cena escandalosa do Alcazar, que determinou a decadência e a corrupção da arte dramática na capital do Império; elas quiseram ainda pôr-se em exibição repreensível de dia, e madame gorda prestou-se a essa exploração do vício.
As tais alcazarinas, tomando como em prova seus novos e riquíssimos vestidos, fugiam do interior da loja; e era junto às portas desta e em face do público a passar pela rua que madame gorda e madame magra as cercavam, simulando marcar supostos defeitos em sua obra, ora alisando com os dedos os talhes do corpinho, ora fazendo aquelas freguesas de colo nu e nuas espáduas executar longo e moroso movimento de rotação, como bonecas-figurinos de vidraça de cabeleireiro, enquanto elas, as duas irmãs, em fingido e ativo exame indicavam aos observadores curiosos as formas e os contornos dos corpos assim expostos, e o inconfessável prestigio de tanta riqueza de vestidos.
Ora, é claríssimo que não se provam inocentemente vestidos às portas da rua. As pessoas gordas não se abaixam com facilidade; mas madame gorda rebaixou-se muito.
Era demais. A freguesia antiga e séria abandonou a loja de madame gorda. Em breve (para alguns sem dúvida em longo) Mlle Aimée como andorinha que era bateu a linda plumagem (verso de modinha antiga) e foi fazer verão em outras cidades, as suas companheiras, de mim nomeada, caíram aqui no inverno do desprezo merecido, ou fizeram à cidade do Rio de Janeiro o grande favor de ir arranjar primavera e outono, onde melhor lhes pareceu.
História de ciganas nômades.
E madame gorda sempre a engordar cada vez mais fisicamente, sentindo-se, por justa punição de pecado, emagrecer economicamente, trancou as portas de sua loja de modas, e foi longe do Brasil maldizer da vil condescendência com que se prestara a servir ao impudor das alcazarinas. É caso de dizer - bem-feito.
A outra loja, também célebre, menos moderna, porém, ocupou a casa quase fronteira da de madame gorda, e que hoje é muito conhecida pela sua denominação de Dois Oceanos, como se não fosse bastante um oceano só para afogar os fregueses.
Desde perto de quarenta anos floresceu nessa casa a loja das judias; a denominação escrita na tabuleta não era essa; o público, porém, não conhecia nem admitia outra.
A loja era de modas, nela, além de se fazerem vestidos, vendiam-se chapéus e diversidade de enfeites para senhoras.
O chefe e dono do estabelecimento era um francês (alsaciano) judeu, cujo nome não sei, mas notabilíssimo por ser pai de três bonitas filhas, três judias jovens, solteiras e espertas, que eram as principais recomendações da loja.
Declaro que vi muitas vezes e sem o menor perigo para a minha virtude madame gorda e sua irmã quase magra, mas não tenho idéia, ou não conservo lembrança, das três judias, que representavam o contraste daquelas duas irmãs.
Informam-me que a loja das judias foi muito afreguesada, teve fama e crédito e que as três jovens bonitas, faceiras e de afabilíssimo trato, judias que eram, judiaram o mais que é possível com dezenas de elegantes mancebos, e com alguns ridículos velhos, que se enamoraram delas.
As judias deixavam-se namorar, sorriam-se aos namorados, faziam vestidos e vendiam chapéus e enfeites às esposas, às filhas e às irmãs dos seus apaixonados, judiavam com estes, e se conservavam honestas.
Dizem-me que das três irmãs a segunda na conta dos anos, e eram vinte neste tempo, a segunda que, apesar do - in medio posita do virtus, foi a menos contida, ou a mais ousada, muito urgida por um seu ardente apaixonado, que era então membro da Câmara dos Deputados, dera-lhe, o mil vezes pedido, longo anel de seus cabelos louros a troco de um colar de finas pérolas.
O ilustre parlamentar, que foi realmente ilustre e depois senador, etc., pensou que podia tecer com os cabelos do áureo anel lisonjeira corda para prender a judia, mas que havia de acontecer?... a Câmara foi dissolvida, e o deputado dissoluto, voltando à loja das judias, e ali fazendo à namorada proposições terníssimas, recebeu em resposta a mais cruel judiação:
- Ah, doutor!... palavra de honra, depois da dissolução da Câmara o seu amor não pode mais entrar na ordem do dia.
O ex-deputado teve o bom-gosto de rir-se, mas saiu da loja desapontado; mais tarde, quando era senador, e foi mais alguma coisa, já as judias tinham-se retirado da cidade do Rio de Janeiro e recolhido à França.
Uma delas casou-se aqui, creio que com um judeu a quem. amava; das outras não sei; deixaram fama de judiação namoradeira, mas sem descrédito aviltador.
Ganharam bom dinheiro na loja e zombaram dos namorados intencionais-sedutores.
Direito perfeito: eram judias, e como tais judiaram.
Madame gorda e madame quase magra, sua irmã, multiplicadas por si mesmas, não valiam o próprio colar de pérolas que a troco do anel de seus cabelos louros recebeu menos dignamente de seu apaixonado a segunda das três judias.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.