Por José de Alencar (1872)
Algumas vozes proferiram o nome do Dr. Nogueira, como o homem do momento. Ele hesitou: não tinha previsto o lance; podia arriscar a sua reputação; era mais prudente deixar-se ficar na penumbra desdenhosa de seu incontestável talento.
Foi então que Ricardo exaltando-se com aquela cena onde vibravam as cordas mais nobres e generosas do coração, ergueu-se num assomo de entusiasmo, e sua voz sonora, palpitando aos impulsos do sentimento, arrebatou a atenção geral.
XXV
Trila o piano. As notas frescas, brilhantes e vivazes de um romance de Schubert se escapam em enxames pelas janelas, voluteando, como os coleiros que esvoaçam pelo jardim, entre os ramos floridos dos resedás. Eram onze horas.
Mrs. Trowshy, sentada junto à mesa carregada de livros, mapas e outros objetos, espera gravemente que Guida se resolva a começar a lição; mas a menina inteiramente embebida na execução da música, nem se lembra da mestra. - Alons, Guida.
Afinal conhecendo, depois de três advertências inúteis, que perdia seu tempo, aproximou-se do piano e abriu o livro da música sobre a estante, para evitar que a discípula tocasse de cor.
Guida levantou-se logo do tamborete; e a mestra pensando que ela cedia-lhe o lugar para vê-la tocar a peça e corrigir algum engano, sentou-se ao piano e executou, com o maior escrúpulo, a linda composição de Schubert.
Mas Guida que ela supunha à sua beira, acompanhando atenta a sua lição, estava bem sentada à mesa, onde abrira a sua caixa de tintas e coloria uma aquarela, mas a seu moo, pintando a folhagem de encarnado, os bois e os carneiros de verde, e a água de amarelo.
Dando a mestra por falta da discípula a seu lado, tornou à mesa para observar a pintura da moça:
- What horror!... exclamou ela espantada com o disparate das cores.
- A senhora não tem bom gosto, Mrs. Trowshy, disse Guida. Não sabe apreciar a originalidade! A inglesa disparou a rir, passando com extrema volubilidade do horror à gargalhada:
- How funny!... How funny!...
- Não se ria, Mrs. Trowshy! Isto que a senhora está vendo é uma obra-prima! Que vigor de colorido! Que tons brilhantes!... Os versos de certos poetas, se fosse possível pintá-los, saíam assim.
A mestra divertida com a travessura da menina, tomou tão vivo interesse, que segundo o seu costume entrou logo em colaboração. Mas Guida não estava de veia nesse dia, pois abandonando-lhe o pincel e a cadeira, esqueceu aquele divertimento e foi à cata de outro.
Deu duas voltas pela saleta, sem lembrar-se de coisa em que esperdiçasse o tempo, porque de lição, não queria ela saber naquele dia, e tinha resolvido na sua fantasia um sueto.
No fim de contas foi “Sofia” quem deu o tema para a nova travessura. Sentou-a Guida em uma cadeira defronte de si, com as patas dianteiras erguidas; e abrindo seu costureiro de pau-de-cetim embutido de ébano, dispôs-se a cortar para a felpuda cachorrinha um vestido de cauda à Pompadour, com dois tremendos pufos.
- Que está fazendo, Guida?
- O enxoval para “Sofia”. É verdade: ainda não lhe comuniquei o seu próximo casamento com um gentledog que está apaixonadíssimo do seu dote!
Nesse momento Soares apareceu à porta e chamou:
- Guida!
- Papai ainda não foi para o escritório?...
- Chegaram visitas, quando ia sair, e trouxeram umas novidades que te hão de interessar!
- Ah! São figurinos? perguntou Guida ocultando sob um remoque a súbita emoção.
- É outra espécie de novidade.
Travando-lhe da mão, Soares levou-a até o gabinete, e aí fê-la sentar perto dele na sua secretária.
- Lembras-te da conversa que tivemos aqui neste mesmo lugar há perto de quatro anos?
- Era tão criança então!... Se ainda hoje sou! atalhou Guida gentilmente.
- Esperta! acudiu Soares beliscando-lhe o beiço; já estas preparando a retirada!
- Ah! então é um ataque? Foi bom prevenir-me!
- Pois defende-te! Essa conversa, que tivemos há quatro anos, veio, recordo-me bem, por causa do susto que te causaram, com a invenção de que eu ia te casar antes de um mês com o Bastos.
- Susto que ainda me faz estremecer, observou em aparte Guida.
- Então eu te prometi duas coisas: primeira, que antes de completares dezoito anos, eu não te falaria nem por sombras em casamento; segunda, que tu mesma, de tua livre vontade e a teu gosto, escolherias um marido.
- Disso me lembro perfeitamente, e o trago bem guardado; pois é a maior prova do bem que me quer e da confiança que tem em sua filha.
- Ela merece tudo e mais, tornou Soares; mas a essas duas obrigações contraídas por mim correspondiam duas cláusulas a que de teu lado te submeteste.
- Vamos a ver.
- De tua parte, me prometeste que em completando os dezoito anos farias logo tua escolha; e no caso de não concordar eu, por estar um de nós enganado, te sujeitarias durante um ano às provas a que eu submetesse o escolhido, para conhecer-lhe o caráter a arrancar a minha ou a tua ilusão. Foi isto?
- Literalemnte.
- Bem. Os dezoito anos se completaram há perto de três meses: e a escolha?... Está feita?
- Não, papai.
- E quando se faz?
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.