Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Nenhum outro homem, dominado por tão veemente paixão, seria capaz dêsse ato. Mas o amor de Arnaldo vivia de abnegação; e eram êsses os seus júbilos. O pensamento de elevar-se até D. Flor, não o tinha; e se ela, a altiva donzela, descesse até êle, talvez que todo o encanto daquela adoração se dissipasse. 

Apeou-se e tirou um ferro de marcar, da maleta de couro, que trazia à garupa, e a que no sertão dá-se o nome de maca. 

Todo o bom vaqueiro tem seu tanto de ferreiro quanto basta para fazer um aguilhão, para arrnajar as letras com que marca as reses de sua obrigação e as de sua sorte, para dar têmpera à faca de ponta, e até mesmo para consertar a espingarda. 

Arnaldo, havia anos, fabricara na forja da Oiticica um ferro que representava uma pequena flor de quatro pétalas atravessada por um F. O feitio era mais apurado e de menores dimensões do que os ferros geralmente usados no sertão. 

Essa flor, que tinha por estame uma inicial, significava o emblema da mulher a quem idolatrava. Seu timbre, sua glória, era gravá-lo no gado, como em todos os animais bravios, que seu braço robusto domava. Assim os submetia ao domínio e jugo da soberana de seu coração. 

Por toda a parte, nas rochas, como nos troncos seculares, êle tinha esculpido êste símbolo de sua adoração. Como os descobridores de novas terras erigiam um padrão, ou fincavam um marco para tomar posse dessas paregens em nome de seu rei, êle, Arnaldo, na sua ingênua dedicação, pensava que, daquela sorte, avassalava o deserto a D. Flor, e afirmava o seu império sôbre toda a criação. 

O moço sertanejo bateu o isqueiro e acendeu fogo num toro carcomido, que lhe serviu de braseiro para quentar o ferro; e enquanto esperava, dirigiu-se ao boi nestes têrmos e com um modo afável. 

— Fique descansado, camarada, que não o envergonharei levando-o à ponta de laço para mostrá-lo a toda aquela gente! Não, ninguém há de rir-se de sua desgraça. Você é um boi valente e destemido; vou dar-lhe a liberdade. Quero que viva muitos anos, senhor de si, zombando de todos os vaqueiros do mundo, para um dia, quando morrer de velhice, contar que só temeu a um homem, e êsse foi Arnaldo Louredo. 

O sertanejo parou para observar o boi, como se esperasse mostra de o ter êle entendido, e continuou: 

— Mas o ferro da sua senhora, que também é a minha, tenha paciência, meu Dourado, êsse há de levar; que é o sinal de o ter rendido o meu braço. Ser dela, não é ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo. Eu também trago o seu ferro aquí, no peito. Olhe, meu Dourado. 

O mancebo abriu a camisa, e mostrou ao boi o emblema que êle havia picado na pele, sôbre o seio esquerdo, por meio do processo bem conhecido da inoculação de uma matéria colorante na epiderme. O debuxo de Arnaldo fôra estresido com o suco do coipuna, que dá uma bela tinta escarlate, com que os índios outrora e atualmente os sertanejos tingem suas redes de algodão. 

Depois de ter assim falado ao animal, como a um homem que o entendesse, o sertanejo tomou o cabo de ferro que já estava em brasa, e marcou o Dourado sôbre a pá esquerda. 

— Agora, camarada, pertence a D. Flor, e portanto, quem o ofender tem de haver-se comigo, Arnaldo Louredo. Tem entendido?… Pode voltar aos seus pastos; quando eu quiser, sei onde achá-lo. Já lhe conheço o rasto. 

O Dourado dirigiu-se com o passo moroso para o mato; chegado à beira, voltou a cabeça para olhar o sertanejo, soltou um mugido saudoso e desapareceu. 

Arnaldo acreditou que o boi tinha-lhe dito um afetuoso adeus. 

E o narrador dêste conto sertanejo não se anima a afirmar que êle se iludisse em sua ingênua superstição. 

 

VI – Os bilros 

 

Quando Arnaldo correndo atrás do Dourado, respondeu com palavras de desprêzo ao desafio do Fragoso, êste já irado teve tal acesso de cólera que produziu-lhe uma vertigem. 

A impossibilidade de punir imediatamente a insolência do vaqueiro eu causa a essa congestão de ódio. Por momentos esteve sem acôrdo, como alucinado; mas recobrou-se breve. 

Se tivesse na mão uma arma de fogo qualquer, pistola ou clavina, com certeza a houvera disparado contra Arnaldo; mas privado como estava de qualquer meio de saciar a sua vingança, e vendo o sertanejo afastar-se cada vez mais na velocidade de sua carreira, êle descarregou a sua raivasôbre o cavalo. 

Ferido ao vivo pelos acicates, e ao mesmo tempo sofreado pela rédea, o árdego animal começou a corcovear, e foi aos trancos atirar-se em um atoleiro que a passagem constante do gado tinha cavado no meio de umas touceiras de carnaúbas. 

Já fatigado da carreira, alí ficou a patinhar na lama, o que ainda mais exasperou o cavaleiro. Saltando na ilha que formava uma das touceiras, o Fragoso apanhou os talos da palmeira e com êles esbordoou o animal. Êste, pungido pela dôr, conseguiu galgar o atoleiro e fugiu; a fúria do moço capitão voltou-se contra as plantas, e êle continuou a fustigar os cardos, os crauatás e os troncos da carnaúba. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6465666768...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →