Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Consumou-se o sacrifício da bela vítima, que viu em pranto caírem cortados seus maravilhosos cabelos; em compensação voltou ela perfeitamente restabelecida para Mariana, e o dono da Cabeça de Ouro, que aproveitara os avisos do seu amigo o Dr. Antônio da Costa, procedeu regularmente e de modo que ficou com os preciosos despojos do sacrifício da tesoura.
Foram pois de uma brasileira, de uma senhora mineira esses cabelos admiráveis, finos, abundantes e formosos, que expostos em trança passaram por inverossímeis em seu comprimento de mais de onze palmos.
Mais tarde escolhidos da cópia imensa daqueles cabelos surpreendentes, quase inverossímeis, os que mais compridos eram, foram mandados para a Exposição Universal de Londres (a segunda), e finda esta vendidos por 5.000$000 do nosso dinheiro, tão grande foi a admiração que eles causaram.
E alonguei-me tanto que o terceiro anexo não cabe neste folhetim.
CAPÍTULO 19
Anexos
Como falhando-me o assunto com que contava para o terceiro anexo, acho excelente recurso nas célebres casas de modas de madame gorda, e das três judias, e finalmente completo este capítulo, que é agora e decididamente o último, contando uma historieta, que as senhoras casadas não devem ler.
Vá a quem toca, e que eu não sei quem seja, mas a quem aliás agradeço a obsequiosa suavidade da carta anônima que me dirigiu.
Procurei zelosamente informações da casa célebre loja de brinquedos, à Rua do Ouvidor quina da de Gonçalves Dias, e fiquei in albis. Apenas me falaram de loja desse gênero próxima à Rua do Ouvidor, mas na de Gonçalves Dias, e bem que este nome esteja gravado profundamente no meu coração, denomina rua cujas casas não podem entrar nas Memórias da Rua do Ouvidor.
O meu leitor anônimo, que tanto me honrou, é quem pode melhor orientar-me, porque, lho digo, consultei a dois velhos respeitáveis dos que me assinalou, outrora jovens estudantes e freqüentadores da loja de brinquedos da Rua do Ouvidor, quina da de Gonçalves Dias, e ambos me responderam pela negativa, e tão decididamente, que me desanimaram o empenho de outras informações.
Ora, o caso é que me achei em apuros de comprometimento. A tal loja de brinquedos devia ser o meu terceiro anexo, e por força maior reconheci-me desanexado!
Mas (vaidade de autor que é tão estulta como todas as outras vaidades deste nosso mundo, planeta de doidos) eu faço, ou fiz de conta que os meus numerosíssimos e enlevadíssimos leitores e principalmente leitoras (ainda mais vaidade no caso) esperavam com interesse e ardor o terceiro anexo, e agora positivamente último capítulo das Memórias da Rua do Ouvidor, obra dantênica, buenarótica, homérica e destinada a atravessar os séculos.
Em tão grande aperto, não quis dar o meu braço a torcer, e viajando eu só de cima para baixo, e de baixo para cima a procurar matéria nova para encher o terceiro anexo, descobri notabilidades que me dariam assunto para escrever ainda uns vinte capítulos.
Mas eu já declarei que a minha obra monumental estava acabada e não quero ir além do terceiro anexo para não comprometer as condições arquitetônicas do edifício que levantei.
Entre dezenas de recordações algumas, cabeludas e outras descabeladas, desta mina inesgotável da Rua do Ouvidor desde meio século e alguns anos tomarei de preferência duas lojas célebres e uma historieta, conto imaginário, ou verdade verdadeira.
Anexo III
Lembrarei em primeiro lugar a mais moderna das duas lojas célebres, aquela que ainda há menos de doze anos ocupava a casa do atual n.º 108, contígua à da Estrela.
Anos depois de 1840 tiveram nessa casa loja de modas duas francesas de meia-idade, irmãs, das quais uma alta e quase magra e a outra notavelmente gorda.
Ou porque fosse a principal sécia da casa ou por aquela distinção física a irmã gorda deu não o nome, mas a alcunha à loja.
Como as duas irmãs se chamavam nem eu sei, nem creio que alguém cuidasse em sabê-lo; o nome da loja era o da família de ambas, estava escrito no portal; mas ninguém o lia.
Loja de madame gorda era a denominação conhecida.
As duas irmãs não podiam agradar por bonitas; eram porém francesas que sabiam atrair fregueses por seus modos afáveis, e que gozavam crédito de modistas de bom-gosto.
A loja de madame gorda foi muito concorrida, e portanto a própria irmã que era magra ia engordando financeiramente.
Estabelecido o Alcazar Lírico depois Teatro Lírico Francês na Rua da Vala (da Uruguaiana atualmente), as principais ninfas alcazarinas foram aos poucos tomando madame gorda por modista, e enfim a célebre Mlle Aimée firmou o reinado da tesoura de madame gorda nas toilettes das alcazarinas florescentes.
Até aí não havia que dizer; as novas freguesas pagavam caro, e gastavam como se fossem pescadoras do Pactolo. Eram poucas, somente as mais famosas, as alcazarinas a quem madame gorda servia, mas cada uma delas valia por dez a despender na loja.
Isso não espantou a antiga e séria freguesia de madame gorda.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.