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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Pior do que isso. Antes de ter o prazer de conhecê-la, ouvi falar da anedota de um médico, que se mandou chamar de madrugada a toda a pressa para ver uma cachorrinha. 

- Ah! contaram-lhe isso? tornou Guida a rir; mas sem dúvida não disseram que foi uma aposta! 

- Em todo o caso... 

- Papai duvidou que eu fosse capaz de fazer o doutor ir a um baile ou coisa que se lhe parecesse; eu apostei. Arranjei uma partida em nossa casa, mas com o maior segredo. 

- Como o jantar de hoje. 

- Tal e qual; às onze horas, quando as salas estavam cheias escrevi ao doutor, em nome de meu pai, a carta chamandoo para ver minha querida “Sofia”, que estava gravemente enferma. Ele veio; levou a coisa de brincadeira; e ao retirarse teve de sair pelas salas, pois não havia outro caminho. Aí as minhas amigas, que já estavam prevenidas, rodearamno com muitas festas, e tanto fizeram que o velho dançou uma quadrilha para recobrar a liberdade. Eu ganhei a minha aposta e meu pai deu-me “Edgard”. Bem vê que lucrei com a travessura. 

- Já não me admira que faça tantas. 

- Fiz; tinha dezesseis anos apenas; é verdade que, se não as faço ainda hoje, não é por falta de vontade, mas por acanhamento. Já tenho dezenove e contudo ainda me sinto menina. 

Nesse momento ergueu-se comovido o barão de Saí. 

- Meus senhores, vou fazer um brinde. 

Compreenderam todos como por uma repercussão moral que era chegado o momento da explicação; e abriu-se profundo silêncio. 

Guida e Clarinha, a filha do barão, trocaram um olhar de inteligência que não passou desapercebido a Ricardo. O barão propôs a saúde nestes termos: 

- Ao meu velho amigo Soares, ao homem honrado que se fez por seu trabalho, e a quem o povo despachou comendador por aclamação, antes que sua Majestade houvesse por bem nomeá-lo. Aqui está o decreto. 

O velo com gesto solene abriu o pergaminho, onde se via uma assinatura de quatro contos de réis; as outras eram bagatela. 

Ao mesmo tempo D. Clarinha, a filha do barão, prendia ao peito do Soares a venera da Rosa cravejada de brilhantes. Patenteou-se o segredo; e as explicações correram ao redor da mesa. 

Uma semana havia que no Jornal do Comércio começara a aparecer uma mofina concebida nestes termos: 

“COMENDADOR CHENCHÉM” 

 

“Um marreco bem conhecido na praça, por suas especulações e trapaças, assentou de fazer-se comendador de meiacara. O título ‘soa’ e não custa cinco ‘rés’ ou ‘réis’. 

 

O banqueiro, quando lhe mostraram o jornal, riu-se: 

- São as unhas do tratante do Aljuba... Não resta dúvida. 

- É um desaforo! diziam-lhe os amigos. 

- Pois eu tomo a coisa às avessas. É uma fineza, que ele me faz diferençando-nos. 

Quem mais se incomodou com o caso foi o barão de Saí, que no maior segredo tratou de comprar a comenda para seu velho amigo, a fim de malograr a vil mofina. D. Paulina e Guida, de combinação com ele, prepararam a surpresa, a cujo desfecho acabamos de assistir. 

Muitos dos convivas não se tinham apercebido da mofina, pela indiferença com que passam os olhos por essa arena da imprensa, onde se esgrime, de envolta com idéias e sentimentos nobres, toda a casta de paixão. 

Valeu-lhes o Benício, que ninguém jamais apanhou desprevenido. 

Submergindo a mão pelas profundezas do bolso, tirou dois ou três retalhinhos de jornal; eram exemplares da mofina que tinha o cuidado de cortar cada dia para apresentá-la cheio de pesar e indignação a quantos encontrava, aproveitando a ocasião para fazer o pomposo elogio de seu íntimo amigo, o Soares, que, isto é dele, “metia no chinelo todos os comendadores havidos e por haver”. 

- A mofina?... Querem ver o desaforo?... Aqui está, essa pouca-vergonha! dizia o homem serviçal obsequiando aos vizinhos. 

Erguera-se o Soares: 

- Meus amigos. Isto nada vale por si, disse com o chasco habitual, pondo o dedo na venera; nada, nem como comenda, nem como jóia. Como “comenda”, é uma “encomenda”, que já não “recomenda” ninguém. Como jóia, eu tenho no coração do meu velho João, e dos amigos aqui presentes, um diamante de melhor água e quilate do que qualquer destes. Mas a intenção, essa é um tesouro; é a alma de um homem honrado e amigo dedicado. Sentiu-se que o Soares estava comovido. 

- Guida, minha filha, vem cá. Toma esta jóia; ela te há de servir de broche. Em teu colo todos hão de admirá-la; e tu podes ter orgulho, minha filha, de adornar-te com a probidade de teu pai! 

Guida lançou os braços ao pescoço do Soares. 

Romperam os aplausos. A comoção era geral. Havia na reunião a eletricidade moral dos espíritos em ebulição, que só esperam uma centelha, para se inflamarem. A cena aí estava aberta; desenhada a situação; faltava só a palavra eloqüente, que a exprimisse. 

(continua...)

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