Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
A apreciação do artigo publicado na Aurora por Evaristo decidiu o destino de Sales Torres Homem, que arrebatado pela vaidade (dizia ele) abandonou a idéia do concurso e a profissão da medicina que pretendia seguir, e dedicou-se todo à imprensa política, e a princípio com a exclusiva lição do Curso de Política Constitucional de Benjamin Constante da História da Revolução Francesa, de Thiers.
Eu creio que nesta revelação da origem do seu pronunciamento, e da sua entrada na vida política Sales exagerava muito, tanto a própria negação a envolver-se nas lutas dos partidos em 1832, Gomo a inverossímil e absoluta ignorância da Ciência Política e tal e tão profunda, que ele nem tinha idéia daquelas duas obras que o livreiro lhe deu; mas é positivo que esse ilustradíssimo varão contava assim a história do quase recrutamento forçado que o levou a jurar bandeira no partido liberal, e a tornar-se homem político.
O livreiro Mongie, que antes de todos merecera receber esta curiosa informação, e que na cidade do Rio de Janeiro de tanta estima foi objeto, nela faleceu depois de poucos anos de florescimento, deixando-lhe lembrança de honrado nome, e parentes que se enraizaram no
Brasil.
Anexo II
Uma loja de cabeleireiro florescia há mais de dezoito anos no n.º 110, entre as ruas dos Ourives e dos Latoeiros, tendo então por emblema a Cabeça de Ouro.
Vendiam-se ali tranças crescentes e faziam-se penteados, mas certamente a loja não era célebre. De súbito mais ou menos todos, e as senhoras principalmente, sem exceção, estavam diante da vidraça da Cabeça de Ouro, e ali se deixavam em contemplação.
E havia justificada razão para isso numa trança de cabelos exposta na vidraça.
A trança era muito vasta, de cabelos finos e de cor castanha, quase pretos, de formosa nuance, e tão longa se estendia, que se mostrava em três lanços ou voltas na vidraça.
Eram cabelos de comprimento extraordinário e de beleza notável; mediam nada menos que dois e meio metros, fora o que deles ficara ornando ainda a cabeça da senhora que, sem dúvida, a seu pesar se privara de tesouro tão singular; deviam, pois, ter sido na cabeça de sua dona cabelos de doze a treze palmos de comprido.
Quando ela os abandonasse soltos, aqueles imensos e formosos cabelos não lhe cairiam até os pés, como os imaginários de uma das mais belas heroinas dos romances de Alexandre Dumas, arrastar-se-iam seis ou sete palmos pelo chão, como estupenda cauda de um manto de madeixas.
Era um prodígio da natureza, e em face do prodígio geralmente se acreditou em artifício, supondo que na trança sutilmente se tinham pendido um aos outros cabelos de muito menor comprimento, como os cabeleireiros muitas vezes o fazem em tranças e crescentes de menor preço. Mas não houve quem descobrisse o artifício.
As senhoras e muitos homens entravam na loja da Cabeça de Ouro, viam, examinavam com ávidos olhos e muito de perto a maravilhosa trança; crescia-lhes, porém, a suspeita de ilusão, porque o zeloso dono defendia o seu precioso tesouro de exames manuais que poderiam prejudicá-lo. Fizeram-se na cidade apostas pró e contra a realidade do comprimento natural daquela trança.
A procedência dos cabelos era também questão que excitava muito a curiosidade daqueles que não tinham suspeitas de artifício; mas a principio o dono guardava segredo, porque o mistério ainda mais aumentava essa curiosidade e o concurso de senhoras e cavalheiros na sua loja.
Dentre os adivinhadores, uns diziam que os cabelos tinham pertencido à cabeça de uma pobre camponesa italiana, que os deixara cortar, vendendo-os por pequeno preço, que lhe parecera, coitadinha, elevada quantia, quase riqueza. Outros pretendiam saber que aqueles cabelos tinham sido de uma senhora espanhola, e cortados depois que ela morrera. Outros, talvez leitores entusiastas das Mil e Uma Noites, asseguravam, e seriam capazes de jurar, que a trança maravilhosa provinha do Oriente, onde coroara sublime a cabeça de linda Georgiana ou Circassiana, mísera escrava e vítima dos ciúmes de perverso pachá.
Além dessas, imaginavam-se outras procedências, de Portugal, da Grécia, e nem sei donde mais. Predominavam nas adivinhações o Sul da Europa, e o Oriente. E ninguém, e nenhum tinha a idéia, ou a conjetura de uma brasileira, como triste sacrificadora de seus extraordinários e maravilhosos cabelos.
Riam-se, zombavam desses sonhos ou imaginações os suspeitos que teimavam em considerar a trança exposta na vidraça da loja da Cabeça de Ouro como habilíssima e ilusória obra-de-arte consumada.
Por fim fez-se a luz. A trança que tantos supunham artificial e de falso comprimento de cabelos era natural e absolutamente verdadeira. Eis aqui a simples história da trança de cabelos prodígia.
O Dr. Antônio da Costa foi chamado para tratar de uma senhora ainda jovem e casada, natural da cidade de Mariana (província de Minas Gerais), e dali recentemente chegada.
Qualquer que fosse a moléstia que atormentava a formosa senhora mineira (porque formosa era, como me informaram), sofria ela também constantes dores de cabeça, e no correr do seu tratamento o Dr. Antônio da Costa, que aliás se maravilhara, vendo e contemplando os admiráveis cabelos da doente, exigiu com a maior pena que eles fossem cortados, e, amigo que era do dono da loja, foi dar-lhe notícia daquela riqueza imensa de extraordinários cabelos, contra os quais a ciência médica impusera a tortura horrível da tesoura.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.