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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Entretanto cismava Ricardo no segredo do jantar para que fora convidado; e dois dias depois, na manhã de sábado, ainda ocupava-se com esse capricho de senhoras, muito inclinado a abster-se do convite, apesar de o haver aceitado por delicadeza. 

Achou porém em seu espírito boas razões, que o dispuseram; e às quatro horas da tarde apeava-se do tílburi no palacete de Botafogo. 

A reunião era mais numerosa que de costume. Além dos infalíveis, notava-se grande número de capitalistas e negociantes, a creme da praça. Aí estavam todos os nossos conhecidos, menos o visconde da Aljuba. Havia na sala a atmosfera moral que se forma pela expectativa e curiosidade do desconhecido. Os amigos encontrando-se inquiriam da novidade e perdiam-se em conjeturas acerca da reserva com que se tinham feito os convites, do segredo recomendado, e da surpresa que sem dúvida estava preparada para o banquete. Sintoma bem significativo da importância dessa reunião, que sob a aparência de festa ocultava talvez um acontecimento, era a presença de D. Leonarda Torres, a avó materna de Guida, ou a “avozinha” como a chamava a menina. 

A mãe de D. Paulina, velha de sessenta anos, nunca aparecia na sociedade; o defeito de uma perna proveniente de reumatismo gotoso, e o  gênio a retinham constantemente em casa. 

Nesse dia, Guida conseguira arrancá-la de seu retiro para fazê-la assistir à festa. E o que não obteria a gentil menina da velha, que morria-se de amores por ela? 

À chegada de Ricardo, Guida o levou para junto da velha, sentada à parte em uma cadeira de roldanas:

- Avozinha, aqui lhe trago uma pessoa para conversar. É o Dr. Nunes. 

- É médico? perguntou a velha. 

- Não, respondeu Guida sorrindo-se por adivinhar o pensamento da avó, que era falar de seus achaques. Mas é filho de São Paulo. 

- Está bom! 

- Fale-lhe de sua terra! disse Guida voltando-se para Ricardo. Ela passou lá muitos anos, quando menina; e ainda tem saudades. 

- Ah! morou em São Paulo algum tempo? disse Ricardo. Na capital mesmo? 

- No Brás. Não conheces a casa de D. Belmira de Leme Torres? 

- Muito; minha família e a sua visitam-se. 

- Pois estimo bem. É minha prima. 

- Agora, disse Guida alisando os cabelos brancos da velha, não se há de aborrecer mais. Tem quem a distraia; não é assim? 

E deixou os dois em conversa. 

De todas as pessoas na sala nenhuma estava tão desnorteada, como ficou o Soares que ao voltar do escritório para o jantar caseiro e o repouso da sesta, encontrou o palacete em festa, cheio de amigos com que decerto não contava achar-se naquele dia. 

- Que história é esta? perguntou o banqueiro que tudo levava em ar de brincadeira. Querem ver que o Aljuba espalhou que eu ia pôr-me ao fresco, e vocês pelo seguro vieram cercar-me a casa? Finórios!... Também tu, conselheiro! Vieste agarrar o teu velho camarada! 

- Que dizes?... Não vão bem os teus negócios? acudiu o Barros amornando a sua fria e pachorrenta gravidade. Bem sabes que até onde eu puder!... 

Soares abraçou-o com efusão, mas logo afogou esse impulso na perene galhofa: 

- Estás sonhando, meu velho! Nunca me correram tanto à feição os negócios, como depois que o farsola do visconde me anda a agourar. Tu sabes, praga de urubu... Mas deveras que vieram vocês a fazer? Quem os chamou cá? - É boa! Pois não nos convidaste para jantar! 

- Eu! Vocês querem divertir-se. 

- Foi o recado que recebemos. 

- Hum!... Não passa de invenções da senhora minha filha! Não resta dúvida! 

O banqueiro levou o dedo à boca: 

- Esperem que vou tenteá-la. Nisto apareceu Guida: 

- Sim senhor, papai, muito bonito! convida a cidade do Rio de Janeiro em peso para jantar, sem prevenir a mamãe, nem dizer a pessoa alguma! Pois isto se faz? 

- Henh! estão vendo, vocês! disse o Soares disparando a rir. 

- Ora não disfarce, papai. Todos estes senhores receberam seu convite, e com a recomendação de guardar segredo! 

- É verdade? 

- Então!... Mamãe e eu íamos sair, quando começam a chegar convidados. Os senhores hão de ter paciência e desculpar. Um banquete não é um discurso, que se improvisa. 

- É pena que não se possa mudar de sexo, Guida. Tu serias o primeiro banqueiro do Rio de Janeiro.

- Esse lugar já está tomado, papai. 

- O jantar!... gritou o Daniel na porta. 

- Brejeira! murmurou Soares fazendo cócegas nas faces de Guida.  

Sentaram-se os convidados à mesa, onde o cozinheiro teve o talento de concentrar os espíritos na mais séria das preocupações da vida àquela hora crítica do jantar. Assim já poucos se lembravam que ali tinham ido para outra coisa que não fosse apreciar a boa mesa do Soares. 

- Aposto que está muito curioso de saber o segredo? disse Guida a Ricardo que lhe ficava ao lado.

- Confesso que tenho alguma curiosidade; mas por um motivo que não supõe.

- E se eu adivinhar? 

- Tem muitas prendas para que lhe desse mais essa a natureza. 

- O senhor suspeita que o segredo é uma brincadeira, um logro. 

(continua...)

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