Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Sales Torres Homem, chegado da Europa creio que em principio de 1837, ardia por tomar posição e reaparecer na imprensa política do Rio de Janeiro, e apenas se continha (eu lho ouvi por vezes), esperando por Evaristo Ferreira da Veiga, que estava então em Minas Gerais, e que era o estadista de sua maior confiança, de cujos conselhos não queria prescindir.
Evaristo voltou de Minas Gerais a 2 de maio de 1837 e dez dias depois faleceu - no Rio de Janeiro.
Sales Torres Homem achou-se privado do conselheiro patriota e deliberou por si, publicando o Jornal dos Debates, no qual teve por colaboradores os seus contemporâneos de estudos em
França, os Srs. João Manoel Pereira da Silva (atual conselheiro), Domingos Gonçalves de Magalhães (depois Visconde de Araguaia) e Manoel de Araújo Porto Alegre (ulteriormente Barão de Santo Ângelo).
O Jornal dos Debates, periódico de doutrinas liberais, mas em oposição ao governo do regente Padre Feijó, produzia por excelente e apurada redação notável impressão no ânimo do povo.
Sales Torres Homem, o redator principal da parte política do Jornal dos Debates, ganhava crédito e firmava opinião.
Um dia, no mesmo ano de 1837, Mongie conversando em sua loja com Sales Torres Homem, disse-lhe, aludindo aos seus eloqüentes artigos de oposição no Jornal dos Debates:
- O senhor teve a felicidade de seguir acertadamente a sua vocação; nasceu predestinado parafulgir na imprensa política e para elevar-se por ela às mais altas posições no seu país.
Sales pôs-se a rir e depois respondeu:
- E se eu te dissesse que sou político por violência feita à minha vontade e por imposiçõesarrebatadas de minha própria vaidade?...
- A pesar seu?
- Ao menos contra a mais decidida negação à política, e contra assentados planos do futuro deminha vida.
- O fato me pareceria, não digo singular, mas com certeza interessante.
- Pois eu lhe revelo o que ainda ninguém me ouviu, e que nem por isso lho digo com puerisreservas de segredo.
E Sales Torres Homem contou a Monge o que com ele se passara em 1832, como depois o referiu a diversos amigos seus, entre os quais se contou quem hoje escreve estas linhas.
É o que se segue:
Sales Torres Homem acabava de formar-se na Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, e até então sentira absoluta negação para a política, e preparava-se para entrar em concurso a uma das cadeiras da nova escola de Medicina (1832), quando soube que o tinham feito membro da Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional (sociedade política representante do partido liberal moderado que era o dominante) eleito para o conselho diretor e membro da comissão redatora da imprensa da sociedade.
(O fato explica-se: Evaristo Ferreira da Veiga empenhava-se em recrutar para o partido de que era chefe os jovens mais notáveis pela inteligência).
Sales revoltou-se contra aquela espécie de violência, mas passou a noite em claro aguilhoado pela sua vaidade a pensar que se rejeitasse, como a principio resolvera, aquelas nomeações, talvez julgassem que a rejeição era determinada por ele se reconhecer incapaz de escrever artigos sobre assuntos políticos.
Na manhã seguinte deixou o leito com a firme resolução de ir à sociedade, de escrever dois ou três artigos e depois dar demissão de redator, de conselheiro e de sócio, para ocupar-se só do seu concurso.
Mas Sales era (dizia ele) da mais completa ignorância em política.
Que faz então?
Pobre a não poder distrair alguns mil réis das magras despesas diárias, Sales toma metade dos seus livros de Medicina, leva-os a um livreiro da Rua dos Latoeiros, onde ele também morava, e pede-lhe que os receba e que lhe dê em troca algumas obras de Ciência Política.
- Mas que obras prefere? perguntou-lhe o livreiro que era seu freguês.
- Eu sei lá!... respondeu-lhe Sales; dê-me aquelas que são mais procuradas pelos deputados e homens políticos.
O livreiro sorriu-se, deu a Sales o Curso de Política Constitucional de Benjamin Constant e a História da Revolução Francesa, de Thiers.
Sales pôs-se a ler com ardor, e no fim de uma semana escreveu e mandou para a imprensa o seu primeiro artigo político que devia ser publicado no dia seguinte.
O novo publicista quase logo arrependido do que fizera, medroso do fiasco que se lhe afigurava certíssimo, encerrou-se em casa até dois dias depois, em que um amigo lhe apareceu entusiasmado, trazendo-lhe a Aurora Fluminense.
Na sua Aurora, Evaristo Ferreira da Veiga saudava a revelação da mais bela inteligência naquele artigo, em que um jovem escritor se estreara com um triunfo de eloquência e com evidente prova de sérios estudos.
Evaristo, o grande patriota, chefe do partido moderado, era por seu ilustrado talento, pelas suas virtudes e pelo seu exemplar desinteresse o entusiasmador da mocidade.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.