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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Como depois de dar por terminadas as Memórias da Rua do Ouvidor fui acusado de três omissões de casas célebres, e para remissão desse pecado tenho de ajuntar à obra três anexos. Como no anexo I trato de um livreiro notável, e acho azada ocasião para referir o interessante caso que levou o ilustre Sales Torres Homem, depois Visconde de Inhomirim, a entrar na vida política contra sua vontade. Como no anexo II me ocupo da loja de cabeleireiro Cabeça de Ouro que se tomou célebre por formosíssima trança de cabelos que media na vidraça onde foi exposta onze palmos e mais algumas polegadas (dois metros e meio); digo donde era a senhora, a quem se cortaram esses maravilhosos cabelos, e onde eles foram parar. Como enfim deixo adiado o anexo III por não caber no folhetim, que já ficou longo com os dois primeiros.

Bem disse eu, muitas omissões haviam de ser notadas nas Memórias da Rua do Ouvidor!

Terminando o Capítulo 17 dessas Memórias tomei larga respiração, escrevendo a palavra mais suave que os autores conhecem:

FIM

Eis-me hoje obrigado a voltar ao Folhetim do Jornal do Commercio para que me absolvam de três esquecimentos involuntários pelos quais me chamaram a contas.

Mas eu não me sei arranjar com a palavra Fim que escrevi, acabando o Capítulo 17, e com um novo capítulo depois do Fim, senão tomando o exemplo e seguindo a lição dos ministros de Estado, que depois do Fim dos seus relatórios ajuntam sempre a estes os anexos.

Não tremem, porém, de medo os meus leitores; os anexos das memórias da Rua do Ouvidor não hão de ser dez vezes maiores do que o corpo da obra, como se observa nos excelentíssimos relatórios.

Recebi três protestos, três obsequiosas censuras, três acetinadas e penhoradoras acusações de esquecimento de outras tantas casas notáveis, e, fazendo confissão do meu involuntário descuido, vou corrigi-lo neste capítulo de anexos.

E tenho para mim que neste reconhecimento e na emenda do meu erro dou prova de exemplar virtude, pois que vivo em tempos em que a vaidade humana tomou dogma o quod scripsi, scripsi de Pilatos, sendo todos os homens infalíveis como o Papa.

Leitores pacientíssimos! não há recurso; é indispensável voltar a fazer viagem pela Rua do Ouvidor.

Mas que viagem!... ao que vos convido, ou quase que vos obrigo, não é mais a viajar, é a dar três grandes saltos, porque cada uma das casas notáveis esquecidas está em quarteirão distinto.

Ainda bem que a ginástica já entra seriamente no sistema de educação pública, e na província do Rio de Janeiro adotou-se até a ginástica apropriada para o sexo feminino na escola normal.

Declaro em defesa prévia que não acabo de fazer censura, nem epigrama. Eu reconheço a conveniência e aplaudo a aplicação do ensino da ginástica.

Portanto, meus leitores, estamos habilitados para dar sem perigo três saltos em honra dos três anexos.

Anexo I

A casa hoje ocupada pela livraria dos Srs. Barbosa & Irmão, e sita na Rua do Ouvidor, entre as Nova do Ouvidor e dos Ourives, foi justificadamente célebre, sendo também livraria de Mongie.

Filho de livreiro notável de igual nome, estabelecido em Paris e ali muito conhecido e estimado editor, que as bibliografias não esquecerão, Mongie veio para o Rio de Janeiro, e na casa mencionada, defronte da então florescente loja de perfumarias dos Desmarais, abriu em 1832 livraria, cuja importância era grande e muito explicável pelas relações com a casa paterna, em França.

Mongie tinha instrução variada, trato ameno e excelente caráter. A sua livraria muito rica de boas obras vendidas a preço que não o prejudicava, mas não aturdia o comprador, foi preciosa fonte de civilização, e era freqüentada pelos homens de letras e pelos cultivadores das ciências, que achavam nela os melhores livros de publicação recente e o gozo da conversação ilustrada e espirituosa com o livreiro.

Contemporâneo do Albino Jordão, Mongie não tinha em menos preço a loja de livros, em grande parte velhos, e de brochuras antigas e modernas; pelo contrário, muitas vezes procurava o patriarca dos nossos alfarrabistas, entretinha-o quanto podia e comprava-lhe livros antigos e folhetos, cuja matéria excitava sua curiosidade.

Muito amigo do seu vizinho fronteiro, Mr. Desmarais, que ainda felizmente vive às vezes brincando e aludindo à sala de cabeleireiro da loja do perfumista, dizia-lhe em ótimo francês:

- Você adorna as cabeças por fora, e eu as adorno por dentro; creio que sou mais útil, mas você tem mais cabeças a adornar.

E o Desmarais respondia:

- Concordo, mas troquemos as lojas com a condição de trocarmos também as cabeças, não as dos fregueses, sim as nossas.

A loja de livros de Mongie foi a mais considerável do seu tempo, e ponto de reunião de sábios e de literatos, que ali tinham por segura palestra animada, interessante e espirituosa, na qual o dono do estabelecimento era excelente e estimado companheiro.

Um dos mais assíduos freqüentadores da loja de livros de Mongie de 1836 em diante foi aquele homem de inteligência superior que se chamou Francisco de Sales Torres Homem, e em seus últimos anos Visconde de Inhomirim.

Vem aqui a propósito curiosa informação que não deve escapar aos futuros biógrafos do ilustre visconde.

(continua...)

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