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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Obedeci, e fixando a luneta mágica, vi diante de mim o mágico melancólico e carrancudo, e o meu amigo Reis agradável e risonho.

O armênio voltou-nos imediatamente as costas, e desapareceu logo, descendo apressado a montanha.

O Reis abraçou-me: e disse:

—Aquele homem é irresistível; adivinhou o ato de loucura que o senhor ia praticar, e prometeu-me salvá-lo sob duas condições, de que não quis prescindir: a primeira foi que eu conviesse em ser-lhe dada uma terceira 6 última luneta mágica, que teria a visão do bom senso; a segunda que eu consentiria em expor à venda no meu armazém lunetas mágicas com a visão do bom senso.

—E o meu amigo...

—Poderia eu hesitar, quando se tratava de impedir o seu suicídio? .. Comprometi-me a tudo; mas consegui do armênio três concessões.

—Quais?

—Que ele faria suas operações mágicas fora da minha casa; que ficaria em sigilo o que o senhor porventura observasse por meio da visão do bom senso; e que exclusivamente aos meus fregueses e amigos de intima confiança eu pessoalmente e só eu cederia, vendidas ou doadas, as lunetas mágicas do bom senso, ficando ainda a meu arbítrio a exigência de segredo, até que provas irrecusáveis do forçado encantamento experimentado por diversas pessoas, excluíssem qualquer suposição de credulidade pueril.

—Portanto o armênio começa enfim a convencê-lo.

—Ainda não; mas é um homem extraordinário. Quer ver? Acertou pelo seu o meu relógio; marcou precisamente a hora em que eu devia chegar ao alto do Corcovado, e encontrá-lo, lançando-lhe ao pescoço a sua nova luneta, e eu cheguei aqui exatamente à hora precisa, e no momento em que o armênio alargava com as mãos o cordão da luneta acima da sua cabeça e o fazia logo descer ao seu pescoço!...

—E se soubesse ..

—Perdão; saberei tudo depois. Agora urge satisfazer a dois empenhos, um meu, e outro nosso. —O seu antes do nosso: qual é? ..

—Promete-me o sigilo, a que o armênio não se opõe? .

—Pela minha gratidão e amizade juro guardá-lo.

—Obrigado! disse o Reis apertando-me britanicamente a mão

—E o nosso empenho? ..

—Não o adivinha?... são onze horas da manhã e ainda não almoçamos … eu apenas tomei café às três horas da madrugada.

—E eu não ceei ontem, e estou morrendo de fome .. desçamos para a cidade. —E lá almoçaremos, jantando.

Pusemo-nos alegremente a caminho.

Apesar da fome devoradora que sentia, reconheci que é menos fatigante e desagradável descer do que subir às montanhas, exceto, exceto sempre, mas exceto somente, quando se trata das alturas do governo.



VI

E já lá vai um mês... um mês inteiro de visão do bom senso.

Sinto desejo veemente de referir o que tenho observado; mas estou preso pelo dever de gratidão e pela religião do juramento, que me impõe silêncio.

Quantas lunetas do bom senso terá o armênio preparado magicamente para o armazém do

Reis? E este a quantos amigos as terá confiado? . . .

Não posso compreender estas cerimônias e escrúpulos do meu amigo Reis Tais escrúpulos são até antipatrióticos.

Se o Reis quer teimar no seu prejudicialíssimo sigilo, deve ao menos, e embora muito em segredo, oferecer sete lunetas mágicas com a visão do bom senso para uso dos membros do ministério e do governo do Brasil.

Não posso falar, não posso escrever, não posso dizer o que a visão do bom senso me está ensinando há um mês.

Quando o meu amigo Reis me desligar do juramento que fiz, escreverei o livro da—visão do Bom Senso.

Mas até lá... segredo.



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