Por José de Alencar (1872)
- Julgo-a por mim. Sabes que amo tua irmã. Pois bem; aparecesse um casamento milionário para ela, e eu seria o primeiro a dizer-lhe: “Luísa, eu não sou o nec plus ultra dos homens; mas um pobre mortal com algumas qualidades e muitos defeitos. Como eu, se encontram aí pelas ruas às dúzias. Um milionário porém, meu anjo, é uma espécie rara, um animal exótico, um fenômeno social; vale a pena dar a gente um molho de esperanças que afinal murcham como o alecrim, para ter o prazer de possuí-lo”.
- Não me admira essa linguagem da parte de um homem que ama à tua maneira.
- É outro ponto em que discordamos. Tu tens a fidelidade do frade, eu a do soldado; tu foges, eu combato. Quando um homem conta à mulher amada suas conquistas e as seduções que sacrificou à sua beleza, ela deve ter legítimo orgulho.
- Guarda o teu espírito para o baile, Fábio; não o estejas esperdiçando nesta cela, onde só cabem as tristezas e preocupações da vida. Melhor farias se me respondesses seriamente a uma pergunta.
Fábio calou-se surpreso da severidade do olhar de Ricardo.
- Donde te vem o dinheiro que despendes nesta vida de luxo?
- Ora! Uma ninharia!
- Vês; tu coras e evitas responder-me.
- Emprestaram-me.
- Quem?... Ela?...
- Ricardo!... Que idéia fazes de mim?
- Desculpa-me!... Conheço teu caráter; mas no mundo em que andas agora, é tão fácil um deslumbramento, um eclipse!...
- Tens razão! Prometo abandonar semelhante vida... Irei ao baile desta noite porque estou obrigado.
- Vai e diverte-te, disse Ricardo, que desejava apagar no espírito do amigo o travo de sua injusta suspeita. - Não queres vir também?
- Tenho muito o que fazer.
E despediram-se.
XXIV
Estamos em junho.
Às onze horas saía Ricardo de seu escritório, já melhor situado, na Rua do Rosário, e dirigia-se à casa da Relação, onde dava audiência a 3ª vara municipal.
Tratava-se de um processo-crime importante; uma falsificação de firma. O negociante, vítima da fraude, tinha procurado Ricardo para incumbi-lo de promover a acusação com energia, pois era mister um exemplo.
Por avanço dos honorários deixara-lhe sobre a mesa naquela manhã um conto de réis.
Não era este o primeiro cliente importante que o jovem paulista vira aparecer-lhe de repente. De um lado chegavam as propostas, que exigiam para resolvê-las um jurisconsulto, ou pelo menos um provecto advogado. Do outro, minutas de contratos e escrituras. Sentia Ricardo, que seu nome granjeava entre os comerciantes um favor, que não sabia explicar. Agora mesmo, descendo a Rua do Ouvidor, perscrutava ele debalde a causa do conceito que subitamente adquirira como advogado na corte, onde tantos existem e tão ilustres.
Não podia atribuir o fato ao seu mérito, ou à voga artificial que se arranja por meio de anúncios, e até de escândalos. Também não se oferecera para advogado de alguma beneficência estrangeira, com o fim de captar a clientela dos sócios.
Lembrava-se de ter visto muitos desses novos clientes em casa do Soares; e quis supor um instante fosse tudo efeito da amizade de Fábio, que naturalmente falava naquela roda a seu respeito com o entusiasmo do costume. Mas não tardava em repelir essa suposição. Ricardo tinha experiência e sabia que a palavra sincera e convencida é pedra solta e não edifica neste país; é preciso pôr-lhe um comento: o medo, a comodidade, o lucro, a paixão, etc. Quando, fatigado de excogitar em vão, punha o ânimo à larga, espraiando a vista pela Praça de São Francisco de Paula, aonde saía naquele instante, deu com os olhos em Guida. Diante dele acabava de parar uma meia vitória, tirada por duas mulas possantes.
O lacaio, saltando da almofada, em vez de correr a abrir a portinhola, foi tirar questão com o cocheiro de uma diligência, que impedia a vitória de chegar à boca da Rua do Ouvidor.
- Psiu, olá, patrão, deu fundo aí?
- O largo é bem grande, respondeu o outro empoleirado.
- Não vê que é o carro do Sr. comendador Soares? Retorquiu o moleque com a insolência do lacaio de um milionário.
- É melhor que os outros?... Se tem muito dinheiro, guarde-o, que passa-se muito bem sem ele.
- Dobre a língua, sô atrevido, gritou o moleque pronto a saltar-lhe às bochechas.
D. Paulina e a filha debalde chamavam o pajem, receando que a rezinga desse em briga; Guida porém julgou que o mais expedito era descerem ali mesmo, fazendo cessar a causa da altercação e obrigando o lacaio a acompanhá-las. Reclinou para abrir a portinhola, mas Ricardo antecipara-se:
- É o Dr. Nunes, mamãe!
Apearam-se as duas senhoras e receberam os cumprimentos do moço.
- Ora estimei muito encontrá-lo, disse D. Paulina com sua habitual singeleza. Quero fazer um presente ao Soares; mas ele não gosta que lhe dêem coisas de luxo, que não tenham utilidade. Incomoda-se!
- Acho-lhe razão! disse Ricardo por delicadeza e para mostrar interesse na conversa.
- E eu não lhe acho nenhuma, acudiu Guida voltando-se: um presente é uma lembrança, e não um fornecimento de víveres, roupa ou qualquer outro necessário.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.