Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Enquanto Alexandre escolhia o vestido, Elvira deu por falta do marido, e foi procurá-lo na terceira loja, e em seguida na quarta.
Mas o esposo estremecido, tendo feito a escolha de que se ocupara, e dado as suas ordens, desceu da galeria central e pôs-se a viajar pelas quatro lojas confederadas em busca de Elvira, que aliás acabava de subir para a mesma sala donde ele tinha saído.
Por explicável vexame, nem Alexandre perguntava aos caixeiros por Elvira, nem esta pelo marido, e um e outro andavam a fazer voltas pelas lojas e pela galeria central, não lembrando a nenhum dos dois que o mais acertado era ficar esperando.
Essa idéia veio enfim, mas infelizmente ao mesmo tempo a ambos: Alexandre na primeira loja e Elvira na quarta esperaram debalde um pelo outro dois ou três minutos.
Perturbaram-se os dois esposos namorados sem saber o que pensassem e foram de mal a pior.
Alexandre pôs-se de novo a procurar Elvira e foi dar consigo o armazém de fundo da casa, e somente parou esbarrando no portão de ferro, e vendo defronte a Sé Velha.
Elvira agitada e temerosa a buscar o marido subiu pela porta que abre para a Praça de S. Francisco de Paula, e, perdendo a diligência, deu volta pela Rua do Ouvidor, e apenas achou o criado que esperava firme à porta da segunda loja.
Não lhe dando o criado notícias do marido, Elvira pensou nas modistas e nas costureiras, e, ciumenta pela primeira vez, avançou para dentro da loja, atravessou a galeria central e subiu para o sobrado.
Alexandre voltava então do armazém do fundo, e se tivesse levantado os olhos para a escada, diante da qual passava, teria visto a esposa subindo-a; ele, porém, vinha já desapontado, porque um caixeiro que fora em serviço ao armazém acabava de dizer-lhe que sua senhora tinha saído pela porta da Praça de S. Francisco de Paula.
Por essa mesma porta se lançou Alexandre, e depois de gastar brevíssimo tempo a olhar para todos os lados sem avistar a sua Elvira fez o que ela tinha feito, deu volta pela Rua do Ouvidor e foi encontrar o criado imóvel no seu posto de obediência.
Sabendo que Elvira há pouco entrara de novo na loja, o esposo namorado e já senão suspeitoso ao menos apreensivo recomeçou os seus rodeios pelas lojas até que lhe veio à lembrança o sobrado, e partiu para atravessar a galeria central, e subir a ele:
Elvira não se perdeu nos labirintos do sobrado, porque conhecia bem o caminho das salas das modistas e costureiras, e lá chegando, pediu para dissimular loucas suspeitas que trazia, que lhe mostrassem os mais ricos vestidos feitos, enquanto com olhos penetrantes e com instinto feminil estudava fisionomias, e procurava indícios do que em ciúmes imaginara...
No meio da exposição e elogios que lhe faziam de delirantes vestidos, Elvira preocupada e menos circunspecta voltou-se rápida, e sem explicações nem despedida saiu acelerada.
A modista, que acudira ao seu chamado, e que assim ficara sem saber como com um vestido entre as mãos e a freguesa em retirada, disse em francês às companheiras:
- Esta senhora trouxe e leva ou o marido ou o amante em incêndio na cabeça.
Vejam como a senhora mais honesta, e nenhuma podia sê-lo mais do que Elvira, se expõe por imprudentes comoções mal contidas a maus e injustos juízos!...
Mas, feliz coincidência, quando Elvira, tendo descido a escada, voltava pela sala central para a primeira loja, Alexandre vinha da segunda para subir ao sobrado.
Era isso ao mesmo tempo, e ainda assim tão desatinados ambos, que já passavam sem se ver, nem dar um com o outro, quando Elvira que era sempre mulher, ao olhar-se embora sem parar a um espelho, viu nele a imagem de Alexandre em rápido vôo, e gritou-lhe doce e anciosamente.
- Alexandre!...
O final da história adivinha-se.
Os dois noivos namorados quase que se abraçaram ali mesmo, mas ainda bem que apenas risonhos e aditados limitaram-se a apertar as mãos em consideração aos circunstantes.
Ah! e se não fosse o espelho?!!
Eram duas e meia horas da tarde quando Alexandre e Elvira perdidos um do outro desde mais de uma hora conseguiram encontrar-se!...
Que se mirem naquele espelho as minhas exmas. leitores e os meus leitores, para que penetrando naquela imensa república de lojas confederadas, de territórios anexos, de portas de entrada e de saída e de labirintos do sobrado da grande e espaçosíssima loja de modas Notre Dame de Paris não se exponham por leve descuido a perderem-se alguma vez os pais e as filhas, os maridos e as esposas, como aconteceu a Alexandre e a Elvira!
Agora cumpre-me declarar que a história ingênua de Alexandre e de Elvira foi por mim imaginada sem malícia alguma e só no intuito de oferecê-la em despedida às minhas exmas. leitoras, e amolados leitores, pois que recebem aqui o seu ponto final as Memórias da Rua do Ouvidor.
CAPÍTULO 18
Três Anexos às Memórias da Rua do Ouvidor
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.