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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

—Não há confiança sem fundamento que ao menos se suponha seguro, e tu nem sequer sabes como me chamo, o que não me admira, porque nem sabes o teu verdadeiro nome.

—Eu o conheço pelo armênio, o mais sábio dos mágicos, e sei que recebi na pia batismal o nome de Simplício.

—Erro duplo! não há aqui armênio nem Simplício.

—Então como nos chamamos?

—Eu me chamo Lição.

—E eu?

—Tu te chamas Exemplo.

— Ah!

—Escuta-me.



II

O armênio começou a falar.

—A exageração degenera os sentimentos, desvirtua os fatos, desfigura a verdade.

"Exagerar é mentir.

"No mundo há o bem e o mal, como há na vida o prazer e a dor.

"Mas o bem é o bem, o mal é o mal como eles são e não podem deixar de ser para a humanidade que e imperfeita: perfeito bem, absoluto mal não há para ela.

"O bem absoluto é Deus; mal absoluto não existe, não pode existir; porque seria o mal sem arrependimento, e sem perdão e portanto um limite à onipotência de Deus, o absurdo na verdade eterna.

"Assim pois acontecimento, ser da criação, homem absolutamente maus ou absolutamente bons não são possíveis, nem se compreendem.

"Estudar o mundo e os homens, observando-os pela enfezada lente as doutrinas, ou prevenções, as tuas duas lunetas exageraram.

"Ora exagerar é mentir.

"Mancebo, a verdadeira sabedoria ensina e manda julgar os homens, aceitar os homens, aproveitar os homens, como os homens são.

"A imperfeição e a contingência da humanidade são as únicas idéias que podem fundamentar um juízo certo sobre todos os homens.

"Fora dessa regra não se pode formar sobre dois homens o mesmo juízo.

"Cada qual é o que é; cada qual tem as suas qualidades, e seus defeitos.

"A sociedade que aceite cada homem com as suas qualidades e os seus defeitos, explorando umas e outras em seu proveito.

"As próprias plantas venenosas são úteis: a ciência faz do veneno mais violento um meio destruidor de moléstias, regenerador da saúde, conservador da vida.

"A educação do homem que é a base mais importante e a essencial da ciência social pode explorar em beneficio da sociedade, dirigindo-os convenientemente, os próprios defeitos correspondentes às qualidades estimáveis de cada um.

"Mancebo! para te levar à verdade já te lancei duas vezes no caminho do erro.

"Erraste acreditando no mal, erraste acreditando no bem, que te mostraram tuas duas lunetas, que exageraram o mal e o bem, ostentando cada uma o exclusivismo falaz do seu encantamento especial.

"Erraste pelo exclusivismo; porque o exclusivismo é o absurdo do absoluto no homem.

"Erraste pela exageração; porque exagerar é mentir."



III

Eu escutara com respeitoso silêncio o armênio que, tendo descansado alguns momentos, disse-me:

—Resolvi dar-te hoje a mais preciosa, mas também a última das lunetas mágicas que de mim terás.

—Qual?...

—Aquela que te fará gozar a visão do bom senso.

—Oh! a visão da sabedoria...

—Quase.

—Serei feliz... perfeitamente feliz!

—Nem assim.

—Por quê?...

—Porque o homem é o homem.

—Não entendo.

—Porque ainda com o bom senso há ardendo na alma do homem uma flama insaciável, que torna impossível a felicidade perfeita.

—Que flama é essa?

—A do desejo— de desejo que tem mil sobrenomes — amor, glória, ambição, ouro, honras, luxo, gula, vingança .. e muito mais que eu não acabaria de dizer nem em duas horas.

—Ao menos porém a visão do bom senso não me tornará nem cético, nem ludibrio do mundo e dos homens.

—E não sofrerás menos por isso

—Como?

—Pela visão do bom senso reconhecerás, onde está o bem e o mal, e mil vezes não poderás aproveitar o bem, e livrar-te do mal.

—Mas é incompreensível!

—A pesar teu serás arrastado para longe do bem e para os precipícios do mal...

—Resistirei.

—Serás o censor de muitos e o reprovado de quase todos...

—Que importa?

—Os homens te condenarão contraditoriamente, como republicano e áulico, excêntrico e tolo, ateu e fanático, imoral e hipócrita, presumido e estúpido, santilão e demônio

—Rir-me-ei deles.

—Terás pois a luneta; mas será a última —Conservá-la-ei sempre.

—Quebrá-la-ás.

—Conterá ela também a visão do futuro?

—Como, se e a do bom senso?—Criança, a visão do futuro não pode ser mais do que uma combinação de probabilidades feitas à luz do passado.

—Então juro que conservarei a luneta do bom senso por toda a minha vida.

—Fá-la-ás em pedaços e intencionalmente.

—Por quê?

—Porque é melhor não ver.

—Oh! não...

—Vou dar-te a luneta.



IV

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V

Não posso dizer o que se passou durante meia hora ou mais; porque eu nada vi, nada podia ver, pobre míope quase cego que eu era.

O armênio procedera a uma operação mágica não sei como, nem em que altar de cabala improvisado à luz do sol e no alto do Corcovado.

Ouvi piar de aves, silvos de serpentes, conjurações do armênio que me pareciam sair ou do seio da terra, ou de profunda gruta, senti frio de gelo e calor de fogo ardente; em seguida reinou silêncio, e em breve o mágico lançou-me ao pescoço um trancelim que suponho ser de arame que enlaça a luneta pelo competente anel, onde, como vim a saber depois, estava gravado em letras microscópicas o nome—raro.

—Fixa a luneta! gritou-me com sua voz ronca o armênio.

(continua...)

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