Por José de Alencar (1872)
Conseguira ao cabo de muita paciência a tradução de um folhetim, que lhe deixava uns setenta mil-réis por mês; e tivera uns dois processos policiais que, pagos mesquinhamente, lhe tinham metido no bolso uma nota de duzentos. Finalmente, procurando um cômodo, achara na Rua da Ajuda aquela metade de sótão mobiliado, a trinta mil-réis por mês incluída a comida; mas a dona da casa, uma senhora viúva, vendo que tratava com pessoa instruída, propôs-lhe como pagamento ensinar suas três meninas e dois rapazes; o que Ricardo prontamente aceitou.
Fábio opôs-se à mudança, na idéia de que o amigo fosse levado pelo receio de ser pesado; mas Ricardo demonstroulhe que daquele modo promovia seus interesses. Além de não custar-he o cômodo nada, senão trabalho, gênero de que tinha boa provisão, podia entre os conhecidos da viúva obter novos discípulos.
- E te sujeitas a isso? perguntara-lhe Fábio admirado.
- O trabalho honesto honra; e este de ensinar é dos mais nobres, respondera simplesmente o paulista.
No momento em que entrava o amigo, Ricardo escrevia à sua mãe, e confirmava-lhe as boas notícias que até então apenas lhe deixara entrever, receoso de afagá-la com falaz esperança.
- Trabalhando sempre! disse o trêfego fluminense recostando-se na marquesa de vinhático.
- Estou escrevendo para São Paulo, respondeu Ricardo com uma inflexão triste na voz.
- Oh! diabo!... É verdade, amanhã sai o vapor. Espera!
De um salto chegou-se à mesa, tomou uma pena, e escreveu no primeiro bocado de papel que achou, estas palavras: La vita uniti
Transcorreremo.
- Toma; mete isso em tua carta!
E acendendo o charuto, voltou à marquesa, onde espichou-se cantarolando o dueto da Traviata. Passado um instante ergueu-se; olhou indeciso para Ricardo que lhe dava as costas escrevendo; passeou a esmo pelo estreito aposento, e aproximou-se da mesa:
- Queres um charuto?... É fazenda superfina!... Duque!... Já vês que para fumá-los é preciso ser príncipe pelo menos. Mas o Soares, que trata este mundo de resto, abarrota com eles aquela súcia acostumada ao trabuco de vintém! Fazia dó ver como atolavam as mãos nas bandejas de prata dourada!... Toma, não queres provar?
- Deita-o aí, respondeu Ricardo metendo a cara na capa, e pondo-lhe o sobrescrito.
Secou-se a musa ao Fábio com aquela indiferença do amigo; deu outra vez algumas voltas pela casa, e afinal decidiuse:
- Podes ouvir-me um instante?
- Acabada esta carta; é a de Luísa e Bela.
Fábio fez um trejeito de homem pilhado na esparrela.
- Podes falar.
- Sem preâmbulos. Queres fazer tua felicidade?
- Para isso trabalho eu há dez anos.
- Pois não é preciso mais trabalhar: basta que estendas a mão.
- Achaste a lâmpada de Aladino, e me queres fazer presente dela?
- Não; mas descobri que o anel da Guida que é mais precioso do que o de Giges, foi feito para teu dedo. Ah! Assim me servisse ele!
- Já te pedi que não repitas esse gracejo.
- Não estou gracejando; falo sério, mais sério que a burra de bronze de teu futuro escritório. A Guida gosta de ti, acabei de convencer-me hoje.
- Não suspeites da pureza de uma menina sisuda, e com má intenção, disse Ricardo abrindo um livro para cortar a conversa.
- Assim recusas! Quando a riqueza e a felicidade te procuram e vêm tirar-te desta boceta que por uma metáfora atrevida e arriscada, como dizia o Padre Fidélis, chamam sótão, e onde vives empalado, tu a enxotas como uma importuna? E não te lembras de tua mãe, de tua irmã, dos teus, sobre quem se derramaria a tua felicidade como um benefício do céu?... És um egoísta, Ricardo!
Ricardo ergueu-se.
- É pena realmente que o anel não sirva em teu dedo, Fábio! Pois tu não hesitarias em sacrificar-te para a felicidade de todos nós, inclusive a de Luísa!
- Sem dúvida!
- Ao menos tens o mérito da franqueza, tornou Ricardo com ironia repassada de desgosto.
- Ora! tu não me pareces um advogado da corte! Não há estudante de São Paulo que não saiba ao terceiro ano o que é um caso de força maior, e quais são os seus efeitos jurídicos. Pois, meu caro Ricardo, um dote de um milhão com a perspectiva de outro por herança, em matéria de amor não é só força maior, é uma fatalidade.
- Vejo que aproveitaste bem o teu curso!
- Se que que amo Luísa, e estou na obrigação de amá-la toda a vida, salvo o caso de força maior, a esquecesse para casar-me aí com qualquer outra moça, seria decerto um ingrato, um monstro de perfídia. Mas sendo para casar sem amor, por cálculo, com uma boneca do valor de um milhão, daria um exemplo sublime sacrificando a paixão aos ditames da razão. Os heróis da história e da fábula são todos feitos por esse modo. O coração fica intacto; e dentro dele, como a lâmpada do santuário, arde sempre o primeiro e eterno amor. Eis como eu penso. - E Luisinha pensará do mesmo modo?
- Deve, porque me ama.
- A razão é original!
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.