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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Oh! meu Deus! eu não descreverei, não tentarei descrever o lindo, o belo, o sublime panorama, que por todos os lados, se abriu à minha luneta mágica, as cidades e povoados, as terras, e o oceano. as montanhas e os abismos, os montes e os vales, as torrentes e as pedras, o céu e os campos, a providência, e o mundo, a riqueza do favor de Deus, e a miséria da incúria dos homens!!!

Ajoelhei-me e orei.

Ergui-me e ainda uma vez, e outra, e mais dez vezes enlevei-me na contemplação das majestades da criação que em torno do Corcovado se ostentavam...

Tudo era grande, tudo menos o homem que era o perdulário, e o esbanjador sacrílego dos tesouros da terra, que Deus lhe dera...

Senti que para não odiar, desprezava o homem, desprezei-me também, lembrei-me da morte, que olvidara em minha contemplação entusiasta, lembrei-me também do suicídio e da visão do futuro. O suicídio era fácil: um abismo estava cavado abaixo de meus pés; atirar-me a ele e não morrer era impossível...

Experimentar a visão do futuro era igualmente muito simples: bastava-me fixar a luneta mágica por mais de treze minutos sobre algum objeto.

Instintivamente lembrei-me da capital do Império do Brasil.

Ter por impressão extrema da vida uma idéia dos tempos que ainda hão de vir para aqueles que deixarei vivos, era uma ambição arrebatadora; ter por extrema despedida do mundo o quadro aberto do futuro próspero da pátria, seria a mais suave consolação, se eu pudesse conseguir a visão do futuro antes de suicidar-me.

Fixei pois a luneta mágica sobre a cidade do Rio de Janeiro e vi. . .

Durante os três primeiros minutos: força vital, prodígios de riqueza do solo do Império, majestade da natureza e em grande número de homens incapacidade, inveja, capricho, nepotismo, vaidade comprometendo tudo, sacrificando tudo, perdendo tudo no culto do egoísmo, e de ruins paixões.

Depois de três minutos até treze: a mesma e ainda mais surpreendente opulência de tesouros naturais do solo, o mais sábio governo do mundo, a população mais moralizada e pura, a constituição e as leis do Império religiosamente executadas, trabalho inteligente, a indústria esplêndida, abundância de ouro, profunda instrução em todos, contentamento geral, o céu na terra enfim...

Além de treze minutos: a visão do futuro... primeiro e de súbito imensa e compacta nuvem negra cobrindo todo o horizonte e logo através dela vivíssimo e penetrante raio de luz que me feriu e deslumbrou, que me fez recuar e cair por terra, quebrando-se em migalhas a luneta mágica de encontro a uma pedra!

Achei-me em trevas; mas ergui-me de pronto, e sem hesitar corri para o abismo e bradando:

—Adeus!...

Saltei o parapeito, arrojando-me ao profundo precipício...

Mas duas mãos possantes suspenderam-me pelas orelhas, pelas orelhas me contiveram por momentos no espaço entre a vida e a morte, e, sempre pelas orelhas, me tiraram da boca do abismo, e me depuseram no chão.

—Ainda é cedo, criança! disse a voz rouca do homem que me salvara, puxando-me as orelhas.

Reconheci o homem pela voz.

Era o armênio.



FIM DA SEGUNDA PARTE

EPÍLOGO

I

A suavidade das auras, a pureza do ar que banhavam docemente meu rosto e meus pulmões, o vivificante calor dos raios do sol venceram pouco a pouco a superexcitação nervosa que me ficara da tentativa de suicídio, do salto que eu dera, e da suspensão no espaço, na horrível boca do abismo.

Estirado no chão e em convulsivo tremor eu conservava a consciência de que vivia pela ativa lembrança das sensações instantâneas, mas violentas que me tinham torturado a alma; primeiro o adeus, extremo adeus deixado ao mundo, depois, dado o salto, o arrependimento súbito e vão; logo o socorro imediato e não esperado, e enfim a esperança, as ânsias e o terror desses instantes supremos, indizíveis em que me achei entre a vida e a morte, entre o suicídio que parecia absorver-me, e as mãos da providência que me continha pelas orelhas.

Passada uma longa hora, senti que me voltavam as forças.

Ajoelhei-me, e repeti em voz baixa breve oração.

Depois levantei-me e disse, procurando debalde com os olhos o armênio:

—Obrigado!

—Bom sinal! observou este; o teu coração voltou-se para Deus, e depois de render-lhe graças, a tua voz disse na primeira palavra um voto de gratidão ao homem que te salvou: morreste louco, e renasceste ajuizado.

Eu desatara a chorar, e chorei longamente.

O armênio tornou-me, depois de deixar muito tempo livre curso a meu pranto.

—Criança adoidada: já te puxei bastante as orelhas; mancebo infeliz, quero agora consolar-te. Enxuguei com precipitação as lágrimas, e lancei os olhos quase sem luz para o lado, donde me vinha a voz do armênio.

Ele riu-se e acrescentou

—Adivinhei o teu criminoso intento e vim aqui salvar-te do suicídio, e dar-te nova, terceira e última luneta mágica.

—Oh! .. e onde? e quando?

—Aqui mesmo e em breve.

—Que felicidade!

—Vou proceder à operação mágica.

—Eu a espero ansioso.

—E não tens medo? .. aqui.. neste lugar deserto... a sós comigo. . .

—Não.

—Confias pois muito em mim?

—Muito.

(continua...)

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