Por José de Alencar (1872)
O mancebo, comovido, receou que o soluço rompesse do seio opresso da moça.
- D. Guilhermina! exclamou com voz submissa e suplicante. Podem reparar!
- Que mal faz!... Para eles, como para o senhor, não sou uma... desgraçada.
- Para mim!
- Não confessou que também crê no que se diz por toda a parte?
- É diferente!... Pode-se ter uma afeição...
- Mas é falso!
- Assegura-me?
- Juro!
- Em vez do juramento, dê uma prova.
- Qual deseja?
- A que eu lhe pedi.
D. Guilhermina hesitou.
- Quer me perder em vez de salvar-me? disse a senhora com a voz repassada de tristeza.
- Não quero prova alguma; acredito, atalhou Fábio.
Acabado o jantar, quando os convidados derramaram-se pela sala de bilhar e jardim, Fábio encontrou-se com Guida:
- O senhor há de me dizer uma coisa.
- Muitas e com o maior prazer.
- Que razão é essa pela qual o Dr. Nunes deixou de freqüentar a nossa casa?
- Pois há uma razão?
- O senhor disse-me quando chegou.
- Perdão, D. Guidinha; se bem me lembro, eu disse que havia uma “sem-razão”.
- Ou isso! tornou Guida a rir.
- É muito diferente.
- E essa sem-razão não se pode saber?
- Guarda segredo?
- Inviolável.
- Eu desconfio que é o visconde da Aljuba.
- Como? exclamou Guida na maior surpresa.
Ela não compreendia de que modo pudesse o usurário arredar a Ricardo de sua casa.
- Aí está o enigma!
- Brigou com o visconde?
- Não; briga não houve. Apenas Ricardo enxotou-o do escritório. Guida aplaudiu com riso franco.
- Mas por quê?
- Decifre. Não lhe disse que é um enigma?
- Vamos a ver.
- O tal visconde é um especulador terrível. De tudo faz negócio. Nascimentos e óbitos, casamentos e divórcios, heranças e dotes, nada lhe escapa. Não foi debalde que ele começou por belchior! Pois o homem parece que lembrouse de propor um dos seus “negocinhos” a Ricardo. - Ah!...
- Paulistas, a senhora sabe como são desconfiados. Ricardo não quis ouvi-lo; mas como o homem valeu-se de seu nome... disse Fábio hesitando.
- Acabe! Instou Guida com autoridade.
- Está acabado. Ricardo apanhou-o pela gola e sacudiu-o na rua, como se faz com uma barata, para não sujar as mãos.
- Creio que já decifrei. Mas vou pensar ainda, respondeu Guida com um sorriso, onde borbulhava o desprezo pela infâmia do usurário.
- Não me comprometa!
- Esteja descansado.
O Soares conversava no terraço com o conselheiro Bastos, o barão do Saí, o visconde da Aljuba, Nogueira e outros.
- Papai, escute!
Soares afastou-se com a filha.
- Hoje é dia de meus anos, creio que não se esqueceu?
- Tu terias o cuidado de lembrar-me?
- Entretanto ainda não me deu o presente de anos!
- Ah! E esta pulseira de esmeraldas que aí tens no braço? Aposto que nem imaginas quanto custou no Farani? Eu tenho vergonha de confessar! Cinco... Não digas que foram contos... Cinco histórias...
- Isto foi presente do banqueiro; e o pai?
- Nada de espertezas!... Eu cá sou um só; a obra não tem dois volumes. Por conseguinte deixa essa rabulice para o fisco, que reparte um homem em vários inquilinos para cobrar-lhes diversos impostos pessoais.
- Neste caso, aqui tem sua pulseira, disse Guida calcando a mola do bracelete para tirá-lo. De meu papai eu quero amor e não dinheiro.
- Bem! O que tu queres é pedir-me alguma coisa, e estás com estes rodeios. O que é?
- Faz?
- Se não for um impossível.
- Não deixe que o visconde venha à nossa casa.
- Por quê?
- Insultou-me!
- Que fez ele, Guida?
- Especulou com meu nome.
- Como sabes?
- É meu segredo.
- Tens certeza?
- Toda.
Um instante depois o Soares trançando o braço ao visconde levou-o até o quarto dos chapéus, e disse-lhe:
- Visconde, você sabe o provérbio: “Duro com duro não faz bom muro”. Nós somos dois espertalhões; não podemos embaçar-nos um ao outro; portanto cada um seu rumo. Aqui está seu chapéu.
- Isto quer dizer que me despede?
- É conforme a maneira de entender. Sou em quem se despede de suas relações. Boa noite.
Meia hora depois Fábio tornava à casa onde ia preparar-se para o baile.
Ao passar pela rua da Ajuda, lembrou-se o moço de alguma coisa, que o fez retroceder o espaço de dois ou três edifícios, e penetrar em um corredor escuro. No fim havia uma escada, que chegada ao tope no primeiro andar, voltava para cima.
Subindo a correr os dois lanços, achou-se em um sótão baixo e pequeno, composto de duas peças, uma das quais abria para a escada. Estava apenas cerrada a porta; não foi preciso bater.
Ricardo escrevia à luz de uma lamparina de querosene.
Uma semana havia que Ricardo se instalara em sua nova habitação. A fortuna lhe enviara um sorriso, bem escasso ainda, que não obstante luziu como aurora na sombria perspectiva de sua existência.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.