Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
E fui subindo sempre.
A noite era formosa; a lua em fase plena mergulhava a cidade em um oceano de luz pálida, mas clara, suave, encantadora e romanesca.
Muitas vezes voltava-me para contemplar essa já grande Babel, esse labirinto de ruas que formam a opulenta capital do Brasil, e me embebia por minutos no grandioso panorama da bela sebastianópolis iluminada por milhares de flamas de gás, que simulavam enfeitiçá-la em noite de festa.
E de cada vez que me voltava para a cidade, eu dela me despedia, dizia-lhe o adeus saudoso e melancólico do filho que se separa da família, e que sabe que não voltará mais ao seu lar.
Eu subia sempre; o silêncio da noite era só interrompido pelo latir dos cães que, sentinelas vigilantes, guardavam as chácaras.
Ainda era cedo, mas a solidão completa; e todavia eu não tinha receio de encontro algum suspeito ou sinistro; receio de quê?... pobre e decidido a morrer, rir-me-ia do ladrão, do assassino que me atacasse.
Depois de muito longa marcha ouvi a voz de um homem que caminhava adiante de mim e que cantava uma rude cantiga com acompanhamento de viola, que ele próprio executava. Apressei o passo e apanhei o cantor.
Era um guarda do aqueduto.
Trocamos a saudação de—boa noite.
—Vou seguindo o caminho do Corcovado?
—Sim senhor; mas a estas horas?
—É proibido?
—Não; já sei: quer amanhecer lá.
-—Adivinhou.
—Pois eu vou dormir às Paineiras.
—Tanto melhor para mim. E das Paineiras ao Corcovado?
—Não há que errar.
Fomos seguindo em silêncio: no fim de meia hora perguntei:
—Por que não canta?
—Gosta?
—Muito.
—O canto anima o trabalho e ilude a fadiga, disse o guarda.
E afinou a viola e cantou outra cantiga também rude, e monótona, mas saudosa e melancólica. No meio da solidão e da noite o canto do guarda produzia em mim indizível impressão de suave tristura.
Observei com a luneta mágica por mais de três minutos o guarda, e vi que era pobre, tinha mulher e dois filhos, vivia alegre, e por seus dotes merecia as honras da terra e a maior estima dos homens.
Revoltou-me a posição obscura desse homem distintíssimo pela nobreza de caráter, e pela santidade do coração.
Quando acabou a cantiga, perguntei-lhe:
—Que pensa da vida?
—Que custa a viver.
—Não é melhor a morte?
—E minha mulher? e meus filhos?
—É feliz?
—Conforme: se me dessem o dobro do que ganho, eu me julgaria dobradamente feliz um dia.
—E por que não dois dias e mais?
—Porque é quase certo que no segundo dia eu desejaria ainda outra vez o dobro do que estivesse então ganhando.
—E não tem aflições?
—Às vezes, e sobretudo quando não trabalho; mas em tais casos Luisa deixa a costura e vem perguntar-me o que tenho; correm os meninos a pular-me ao pescoço, e lá se vai a tristeza pelo morro abaixo; ou, se estou só em casa pego na viola e canto.
—Que pensa dos homens?
—Bem e mal: nem confio nem desconfio, e julgo que é melhor não pensar neles.
—Por quê?
—Porque todo tempo é pouco para cada um pensar em si, na sua família, no seu trabalho, e nas contas que deve a Deus.
Eu admirava a sabedoria do guarda do aqueduto, e compreendi perfeitamente o seu amor, o seu apego à vida pelo encanto da esposa e dos filhos.
Só o egoísta pode almejar as delícias da morte, sendo esposo e pai; eu porém procurei debalde uma noiva, não tenho filhos e posso portanto e devo morrer.
Enlevado pela conversação ia continuá-la, quando o guarda me disse:
—Estamos nas Paineiras, e aqui nos separamos.
Ensinou-me o fácil caminho que me levaria ao Corcovado, deu-me —boa noite— e desapareceu, metendo-se por um trilho quase encoberto pelo mato.
XXXI
Lavado de suor e arfando de fadiga cheguei finalmente a alto ermo do Corcovado.
A lua brilhava formosíssima, e consultando o relógio, mercê da minha luneta mágica, vi que eram duas horas da madrugada.
Véu impenetrável de cerração cobria o mundo nos espaços imensos em torno do Corcovado.
Eu estava em pé no trono de vasto pais, submerso em dilúvio de neblina; compreendia a soberba majestade do meu sólio; mas tinha idéia das proporções dos meus Estados.
O vento frio fazia-me tremer, o ar leve e puríssimo deleitava-me a respiração.
Sentei-me; quis pensar na morte e não pude, porque meus olhos se cerraram, e dormi. Despertei ao primeiro raio do sol, que refletiu no meu rosto.
Levantei-me.
Era ainda cedo para ver o mundo abaixo dos meus pés e em torno do Corcovado.
Passeando pela planura, conversei comigo mesmo.
Morrerei; mas antes de morrer quero ver as grandezas da terra que deste sublime trono erguido por Deus se revelam e manifestam aos olhos do homem.
Aqui da altura direi o extremo adeus aos meus lá embaixo.
Será o último serviço que deverei a minha luneta mágica...
O último?...
Oh! eu vou morrer, por que não experimentarei a visão do futuro?... que me importa que se quebre a luneta, quando mais não posso usar dela?...
Fora loucura não tentar a experiência?...
Este novo pensamento dominou-me; fixei a luneta, e observei em volta do Corcovado o aspecto da natureza...
A cerração se desfizera de todo... o mundo se mostrava, se patenteava amplo, completamente sem véus, sem nuvens...vi...
(continua...)