Por Visconde de Taunay (1871)
Ali chegamos às 11 horas de 24 de janeiro de 1867 acampando, em ordem de batalha, com a direita encostada à margem direita de Nioac; e a esquerda à mata do Orumbeva. Instalaram-se o quartel-general e o trem à retaguarda, no local da vila, ocupando o hospital as pequenas casas salvas do fogo e um grande galpão que às pressas se construiu.
Serviu a nave da igreja — de onde se retirara tudo quanto ainda havia de símbolos do culto — de depósito ao cartuchame e a todas as munições.
Ergueram-se, de todos os lados, ranchos de palha, gurbis como lhes chamam na Argélia, e, dentro em pouco, oficiais e soldados ali se acharam tão bem instalados quanto as circunstancias o permitiam. Um bem-estar, desde vários meses ausente, o renovamento da existência um sentimento de plenitude de vida a todos nós exaltava, e em todos se transmutava na ânsia de sobressair, graças a algum brilhante feito d'armas que chamasse a atenção do país para uma expedição desde muito inativa. Reinavam no acampamento a esperança e a alegria.
Perigo havia, contudo, neste entusiasmo; e os que conheciam o chefe, de si para si, indagavam, com secreto desassossego, qual lhe seria a demonstração da iniciativa.
Ia-lhe no peito amarga lembrança que não conseguia remover da mente. Ao abandonar o coronel Oliveira, comandante das armas da província, a praça de Corumbá (1), embora estranho às primeiras deliberações motivadoras desta precipitada retirada, figurara neste triste episódio o coronel Camisso na qualidade de comandante do segundo batalhão de artilharia; e, por tal motivo, vira-se acoimado de solidariedade com este ato de fraqueza. Contra ele servira-se a malevolência destas vozes cruéis, circulando, em tal época, um soneto impresso, acerbo estigmatizador dos defensores de Mato Grosso. Dentre os nomes nele apontados, lera o próprio...
Subsistia a dor da afronta, profundamente magoado como se lhe achava o pundonor militar. Com verdadeira paixão aceitara o comando da expedição. Seria, a seu ver, o modo de se reabilitar perante a opinião pública e, desde tal momento, concebera o projeto não de se manter na defensiva, como o critério o indicava, dada a exigüidade dos recursos de que podia dispor, e sim de levar a guerra ao território inimigo, fossem quais fossem as conseqüências.
Dia a dia. cada vez mais, tal idéia o empolgara. Sob, a influência de legítimo ressentimento, tomou a feição da fixidez, apesar da inata indecisão do caráter. Sinistro fadário o impelia ao infortúnio.
Encontrava-se no arquivo da coluna um ofício do Ministro da Guerra recomendado a marcha sobre o Apa logo que as conjunturas a tanto se prestassem.
Ali enxergou, não o que exatamente havia, uma indicação facultativa, mas a ordem de avançar, forma peremptória. Por mais que se lhe fizessem observações: cego, graças a doentia suscetibilidade, levava a mal que de menos contestável se lhe objetasse.
Uma frase depreciativa a seu respeito pronunciada, imprudentemente repetida, ainda lhe acirrou a inflexibilidade, tornando-o surdo a quanto parecesse desviá-lo do projeto de invasão. Não era que lhe não sopesasse as dificuldades; via, porém, os soldados cheios de entusiasmo e já aguerridos; embalava-se na esperança de, à sua testa, praticar grandes feitos; adestrava-os às manobras, por meio de freqüentes exercícios, levava-os a empenhar combates simulados, em que a artilharia representava ruidoso papel; e desta agitação geral resultava uma animação de que ele próprio compartia.
Entretanto, algumas vezes também, percebia nitidamente que apenas dispunha de uma vanguarda de exército em campanha; e era obrigado a reconhecê-lo. As hesitações lhe voltavam então, e, chegado o dia por ele próprio fixado para a arrancada das forças, achava sempre motivo para o adiamento, embora precisasse invocar as razões na véspera repelidas. Ora oficiava ao Ministro que nada podia empreender sem cavalaria, e ora pretendia poder dispensá-la; dolorosos embates entre a autoridade da razão clara e as inspirações do orgulho magoado.
Era-lhe a atitude, aliás, sempre digna e firme; em todas as questões administrativas trazia, sobretudo, o cunho de nobre integridade. Não admitia uma diminuição ao prestígio de chefe e sabia mantê-lo tanto mais quanto lhe assistia real singeleza e amenidade.
Homem de quarenta e sete anos de idade, baixo e aparentemente robusto, feições regulares, tez morena-escura, olhos negros e vivos, tinha larga testa e belo crânio, completamente calvo, que dos paraguaios lhe valeu injuriosa alcunha. Sempre sério e preocupado, era visto solitário, ou a conferenciar com o velho sertanista que nos servia de guia, José Francisco Lopes.
Merece este ser apresentado ao leitor antes que o veja agir. Dentre nós, os que tinham presentes os romances de Fenimore Cooper, não podiam, à vista do sertanejo brasileiro, o homem das solidões, deixar de evocar a grande e singela figura de Olho de Falcão no Último dos Moicanos.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.