Por Franklin Távora (1878)
A mãe era a Bilóca, falecida há dois para três anos. Esta oncinha, que já então tinha mostrado para quanto havia de dar, quebrando as pernas dos cachorros a pedradas, furando com o espeto quente os porcos de casa a ver se lhes derretia o toucinho, segundo ele mesmo dizia, e pondo carvões abrasados na rede onde dormia um irmão menor que veio a morrer desta e de outras malindades, ficou depois da morte dela ao desamparo. Tantas tinha feito, que não houve aqui alma caridosa que não temesse te-lo perto de si. O mais compadecido de todos os moradores, a velha Aninha, recolheu-o um dia em sua palhoça. Pelo correr da noite acordou debaixo de labaredas. Lourenço tinha posto fogo na casa da velha.
Desde então todos fogem dele, até o vigário que ao principio foi muito por ele e lhe deu de comer e de vestir. Lourenço vive agora vagando pelas ruas judiando com os animais, furtando e roubando, como vocês acabam de ver.
- Este menino só enforcado pagará o mal que tem feito – disse Damião.
Pois se ninguém o quer, levo-o eu comigo. Faço esta obra de caridade, e fico bem satisfeito com isso, porque ele suprirá a falta que tenho de um filho para me ajudar. Queres ir comigo, Lourenço? Perguntou Francisco ao rapazito.
- Não vou com ninguém. Não sairei daqui.
- Hás de ir.
- Eu lhe mostro se vou.
- Eu te mostrarei se não vás – retorquiu o matuto.
E voltando-se para o velho Ignacio, acrescentou:
- Tranque-me o menino em sua casa enquanto amanhece. Pago-lhe o dobro do rancho.
Deus me livre – disse o velho. Se ele me cai dentro de casa tudo me arde como carvão em forja de ferreiro. Nem que me dê cincoenta cruzados.
Se fazes gosto em leva-lo contigo, amarramos o rapaz em um enchamel, como seu sargento-mór queria fazer com o Valentim.
Lourenço rugiu e disse:
- Soltem-me, porcos.
- Guarde-me o menino por esta noite, seu Ignacio – tornou Francisco. Pago-lhe bem.
- Peça-me tudo, menos isso. Ele em me achando dormindo, era capaz de sangrar-me.
- Pois não durma. Tenha-o debaixo das vistas para de madrugadinha restituir-mo
Como se calasse o velho, Francisco, tomando o seu silencio por aquiescência, fez sinal a Victorino e Damião para que o conduzissem á garapeira.
Os dois matutos agarraram-no com quantas forças tinham; mas antes de chegarem á porta viram-se obrigados a larga-lo, porque Lourenço a um tinha posto os braços em sangue, e sobre o outro desandará tamanho coice no estômago, que lhe tirou o animo para levar a efeito a empresa.
- Vejam só, vejam só – acudiu o velho Ignacio. Não lhes disse? Lá dentro não me pisa esta fera. Nada. Nem por Santo-Antonio. Se dois homens moços não podem com ele, que direi eu?
Querem saber de uma coisa? Inquiriu Francisco a cabo de um momento. Largo-me agora mesmo com ele por estes caminhos. Vamos, Victorino?
- Agora de noite?
- Que é que tem? A lua não tarda a nascer. Olhe já o clarão dela por cima da mata. Vamos. Não percamos tempo.
Em menos de um quarto de hora Lourenço estava atado com cordas pelas pernas na cangalha e em cima do cavalo que o devia conduzir para longe do povoado.
- Adeus, adeus, minha gente, disse Francisco aos companheiros que ficavam no ponto. Até nos encontrarmos outra vez por estas estradas.
- Faça boa viagem, Francisco, disse um deles. Mas fique certo de que você leva sarna para se coçar. Olhe, não se arrependa.
- A criança é de estouro – acrescentou outro.
- Deus é quem sabe. Muita vez não há de ser assim.
Francisco saltou sobre a garupa do cavalo onde estava Lourenço, que só faltou arrebentar de fúria para a qual não há qualificação possível.
Victorino, imitando o companheiro, montou no outro animal. Com pouco desapareceram na escuridão.
Francisco ia ruminando consigo em silencio estas idéias:
- Não tenho filho. Tratarei deste desgraçado que não tem quem por ele se doa. Farei conta que é meu filho. Espero em Deus que me há de ajudar a fazer dele um homem que sirva a gente.
Sem saber explicar como nem porque, Francisco sentia-se satisfeito com o presente que levava á sua mulher, não obstante os prantos e os uivos de que Lourenço ia enchendo o caminho no ultimo desespero.
III
Uma légua antes de Goiana, a estrada geral que vai do Recife á Paraíba, atravessa um lugar de presente aumentado, mas ao tempo desta historia apenas formado de uma casa de barro, e duas ou três palhoças espalhadas não longe dela, por dentro dos matos circunvizinhos, sem regular alinhamento, a uso das casas que, para assim escrevermos, se improvisam nas entranhas das florestas.
A casa de barro ficava á embocadura da mata de Bujari, a qual por então tinha, não como hoje, meia légua, mas quase uma de comprido. O lugar supramencionado, já nesse tempo aprazível e risonho, era alguns anos antes um como prolongamento dessa mata, menos fechado – é certo - , mas não menos ermo e desabitado do que ela. De um cajueiro velho que se mostrava, na beira do caminho, ao que saia da espessura, adveio-lhe o nome, que hoje designa o lugar, e tem por se a autoridade da consagração do povo e do tempo.
Fizera-se subitamente a transformação daquela seção da floresta como nos contos antigos mudam as situações ao puro querer de um gênio ou de uma fada. Eis como a coisa se deu.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.