Por Franklin Távora (1876)
Enquanto o taverneiro aviava o matinal freguês, o cavalo que jejuava desde a véspera pôs-se a devorar a grama do pátio, e, sem consciência dos riscos em que se ia meter, foi cair muito naturalmente dentro da pequena roça da mameluca e começou a destruí-la mostrando tenção de dar conta dela.
Mas ainda bem o primeiro jerimum não se havia derretido entre os poderosos molares do faminto animal, quando a dona da plantação desfechou neste tamanho golpe com uma das estacas da cerca, que o pobrezito, dando às popas pelo meio do pátio, foi atirando os sacos aqui, os caçuás acolá, a cangalha além, e desembestou por fim, pela margem afora, em violenta fuga.
Não satisfeita com semelhante desforra, Chica em um pulo ganhou a venda, e investiu com o inofensivo matutinho.
— Amarelo de Goiana! — gritou-lhe ela ao pé do ouvido. — Não sei onde estou que não te ponho mole com este pau para te ensinar a amarrares melhor a tua besta esganada de fome.
O rapaz, volvendo a vista ao volume humano que lhe acabava de falar e cujos olhos pareciam querer saltar das órbitas, respondeu-lhe sem se alterar nem mover:
— Besta ! Besta é ela.
E, senhor de si qual se estivesse gracejando com um amigo, levou o copo aos lábios com o maior sangue-frio que ainda se pôde mostrar na taverna, onde as paixões se acendem com a prontidão do raio.
Irritada por esta represália que a seus olhos pareceu condensar todo o desprezo do mundo, a mameluca não teve dúvida, não, e levantou a acha para o rapazito.
Tinha este deposto o copo sobre o imundo balcão quando pressentiu a arremetida; pôde por isso fugir em tempo com o corpo à violenta pancada. A estaca bateu a meio no balcão' e metade dela voou pelos ares em estilhaços que foram quebrar as panelas de barro e as poentas botijas com que se achavam adornadas as sujas prateleiras da pocilga.
Ouviu-se então um estalo, e logo o baque de um pesado corpo. José havia desandado com tanta força uma bofetada na mameluca, que a fizera cair redondamente no chão.
Quis Timóteo acudir à companheira na apertada conjuntura que se lhe desenhou aos olhos com as negras cores de um desastre, ou vergonha para o lar e bodega onde nunca sofrera afronta igual ou que com esta se parecesse. Mas quando apercebia o animo para dar o arriscado passo, descobriu na mão de José uma faca de Pasmado que o reteve a respeitosa distância.
Julgando-se Jos , à vista do agravo que recebera, com direito a público e estrondoso despique, arrastou por uma perna a mameluca, ainda tonta, para o terreiro, e aí, com uma raiz de gameleira com que os meninos tinham brincado na véspera, começou a pôr em prática a mais edificativa sova de que nos dão notícia as tradições matutas.
A mameluca tentou por diferentes vezes livrar se das mãos do rapazito, espernegando como possessa. As mãos de José porém pareciam, pela dureza e pelo peso, manoplas fundidas de propósito para esmagar um gigante. Demais, José havia posto um pé no pescoço da Chica, e com ele comprimia lhe o gasnete, tirava lhe a respiração, afogava a sem piedade.
A estrada estava deserta. Os moradores da povoação, de ordinário madrugadores, por infelicidade da caseira de Timóteo dormiram demais nesse dia do que tinham por costume. Além disso, as casas mais próximas da venda ficavam ainda a distancia, sendo todas, como então eram, muito espalhadas. Esta circunstância, tirando toda esperança de pronto socorro, animou José a prolongar o exercício para o qual podia dizer se estava preparado por diuturno hábito.
Depois de alguns minutos, sentiu Timóteo subirem lhe enfim às faces os restos do equívoco brio e gritou, sempre de longe:
— Você quer matar me a Chica, José ?
— Deixe ensinar esta cabra, seu Timóteo. Ela nunca viu homem, e por isso anda aqui feita galinho de terreiro, ou peru de roda, metendo medo a todos estes papa siris dos Afogados.
Assim dizendo, José montava se literalmente na mameluca, e dava lhe com os restos da raiz da gameleira já sem serventia. A faca, que minutos antes reluzira em uma das mãos estava agora atravessada na boca do matuto, em quem o ignóbil vendeiro parecia ver, não uma figura humana, mas uma visão infernal que o ameaçava, a ele também, não com igual pisa, mas com a morte, que para ele era mil vezes pior.
De repente José colheu o ímpeto, pôs se de pé, e inquiriu de si para si:
— E o meu cavalo ?
Correu incontinente à margem e soltou um longo assobio que atroou o solidão mal desperta; a margem estava erma, e só o silêncio respondeu ao seu chamamento. Tornou ao pátio onde alguns vizinhos, finalmente atraídos pelos gritos, ao princípio furiosos, depois rouquenhos, e por último cansados e quase imperceptíveis da moribunda mulher banhada em sangue, tratavam de restitui-lá à casa.
— E o que te vale, cabra do diabo! — disse José, olhando para o volume inanimado que mãos tardiamente piedosas arrastavam ao casebre. — O que te vale é ter eu que ir em busca do meu cavalo. Se não fosse ele, nunca mais comias farinha.
Dias depois voltou José, montado no seu cavalo, trazendo uma espingarda nova na mão, uma faca de arrasto pendente da cintura, os caçuás cheios de peças de pano e outros objetos que se vendiam nas lojas da vila.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.