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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

O rancho tinha somente aquela estreita entrada, onde há pouco Paulina se achava sentada. As duas míseras mulheres não tinham nem para onde correr, pois a onça apoderando-se dessa entrada voltara a frente para fora mostrando a seus perseguidores as alvas e enormes presas, e as formidáveis patas capazes de estrangular um boi. Paulina para logo caiu desfalecida; a negra mais morta que viva recolheu-se toda ao ângulo, que a coberta formava com o chão, como querendo entranhar-se pela terra adentro, tiritando de medo e encomendando a alma a Deus.

Assim pois naquele mesmo lugar em que ainda há pouco se sentava a criatura mais primorosa da terra, um transunto dos anjos do céu, respirando inocência, paz e ventura, alapardava-se agora o mais feroz e hediondo dos seres da criação, com os olhos chamejantes de furor, e as goelas abrasadas em sede de sangue.

Enquanto o fazendeiro com mão trêmula carregava a espingarda, os negros, que não tinham por armas senão foices e machados, hesitavam na maior perplexidade sobre o que deveriam fazer. Atacar a fera sem ter certeza alguma de matá-la de um só golpe, era perigosíssimo; ela podia num momento estraçalhar mais de um, ou o que ainda seria pior, recuando para o interior do rancho voltar sua sanha contra as duas infelizes, que lá se achavam na mais crítica e assustadora situação.

Enquanto os pretos vacilavam, e o amo escorvava espingarda, um cavaleiro a todo o galope rompe da mata, e investe para o rancho, a cuja porta a onça dava combate sanguinolenta aos cães, que ousavam aproximar-se-lhe. Já estava na distância de um tiro de espingarda, quando seu cavalo embaraça-se nas coivaras, e cai. Mas lesto e pronto o cavaleiro salta fora dos arreios, e com uma pistola em cada mão avança resoluto para a onça e desfecha-lhe à queima-roupa um tiro na cabeça. Em dois arrancos o feroz animal arroja-se sobre ele, lança-o por terra, e cai também para um lado estrebuchando e morre.

Nesse momento chegavam já, porém tarde, os outros caçadores, que vieram achar três corpos exânimes, a onça, que expirara, o cavaleiro malferido e banhado em sangue, e Paulina desmaiada. Uma das enormes patas da onça tinha apanhado em cheio o peito do infeliz caçador, e lacerando-lhe cruelmente as carnes o havia derribado no chão sem sentidos.

Uma cuia de água fria lançada na cabeça de Paulina restituiu-lhe prontamente os sentidos, e o consternado pai levantou aos céus as mãos agradecidas chorando de alegria ao ver que felizmente sua filha estava ilesa. Mas o denodado caçador, o intrépido salvador de sua filha, esvaía-se em sangue que jorrava de três largos e fundos lanhos, que as garras do animal lhe haviam aberto no peito, e o velho e todos os mais estavam na mais cruel aflição e desassossego por se acharem naquele ermo tão longe de qualquer recurso. Lavatórios de água fria, fios e ataduras, que eram os meios de que ali se podia lançar mão, nada conseguia estancar o sangue, que corria copioso das feridas. A própria Paulina, a quem o pai em rápidas e animadas palavras contara o ocorrido, já esquecida do seu susto, pálida e consternada se debruçava sobre o corpo exânime do ferido, e rasgando o lenço e a saia do seu vestido fazia atilhos e chumaços, que com suas próprias mãos ia aplicando sobre as feridas.

Felizmente, mais sabido do que todos eles em matéria de curar feridas, um preto velho tinha corrido ao mato, e voltava com um punhado de folhas na mão. Apenas chegou, todos se arredaram para lhe dar lugar. O preto ajoelhou-se perto do ferido, tirou todos os fios e ataduras, e fazendo pantomimas e murmurando palavras cabalísticas, mascou três ou quatro bocados das folhas que trazia, e foi deitando-as sobre as feridas. Em poucos instantes o sangue estava estancado, e o caçador conduzido para o interior do rancho e cuidadosamente deposto sobre uma esteira, em menos de uma hora recobrou os sentidos. Dali forçoso era levá-lo para casa do fazendeiro para ser convenientemente tratado, pois havia perdido muito sangue e seu estado era melindroso.

A onça marrada a um pau pelas quatro patas e carregada aos ombros de dois possantes negros, que gemiam debaixo do peso do truculento animal, e aos lados e atrás dela a cáfila dos cães arquejando de cansaço com as línguas dependuradas, ganindo e uivando com um choro fúnebre; em seguida o caçador cuidadosamente acomodado em um cobertor, de que armaram uma rede, conduzida por outros dois pretos; atrás dele imediatamente o velho fazendeiro e sua filha pálida e desgrenhada; depois o cavalo do caçador, que um escravo levava pela rédea, e logo em seguida os companheiros de caça do ferido conduzindo igualmente pela rédea suas cavalgaduras, e por fim os escravos do fazendeiro com seus machados ao ombro, rematando como uma guarda de honra toda aquela comitiva, tal era o singular e curioso préstito, que por uma formosa tarde de agosto desembocando de escura e espessa mata desfilava pelo lançante de um risonho espigão ao longo de um buritizal, dirigindo-se à casa do capitão Joaquim Ribeiro, que ficava como a meia légua do lugar do sinistro.

Capítulo II

A fazenda

(continua...)

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