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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Sabe-se que ultimamente alguns observadores curiosos da capital descobrirão no céo uma estrella brilhante áhora em que se parte o dia, e acharão n'esse facto uma novidade, que os encanta.

Uma autoridade competente declarou que a estrella que se via era o planeta Venus, e que não havia nada de extraordinário no pheno-meno;mas a despeito de tal declaração não diminuio o numero dos curiosos, que se entre-gão com vivo interesse á observação da estrella do meio-dia

E quinta-feira, ao dar o sino de S. Francisco de Paula o signal do meio-dia, passava eu pela Praga da Constituição, e eis que vejo uma columna cerrada de improvisados astrônomos de olhos fitos no céo.

Approximei-me, e qual não foi a minha surpreza, quando descobri no meio dos curiosos o meu amigo Constando !

Cheguei-me a elle e chamei-o ! tempo perdido!... o rapaz estava com o juizo acima do mundo da lua.

— Diabo ! exclamou emfim; atrapalhaste-me no instante mesmo em que Venus começava a brincar com as meninas dos meus olhos !

— Constando ! pois assim te deixas prender pelos encantos de uma Venus que nunca ha de ser tua, e esquecendo talvez a bella mysteriosa?...

Apenas pronunciei as palavras bella mysteriosa, vi o meu amigo Constando mudar de feição e ficar assim com uma cara de noivo logrado, ministro demittido, candidato mamado, actor pateado, que vem tudo a dar na mesma cara, Comprehendi logo que o amante da bella mysteriosa tinha feito fiasco.

— Constancio, disse-lhe eu, adivinho que chegaste ao desfecho do teu romance.

Fez-me com a cabeça um signal affirmativo.

— Pois então faze de conta que hoje é sabbado, e vamos ao caso.

— Infandum, regina, jubes renovare...

Não o deixei acabar o verso de Virgilio.

— Tenho a tua palavra : paga-me o que me deves.

— Pois sim.... estou preso pela minha palavra... não ha remédio...

— Vamos a isso : que tens a dizer-me ?...

— Primeiro que tudo digo-te o que já te tenho dito dez vezes : sou um tolo !

— Sim ; mas tens consciência : é uma

consolação ; porém a historia, a historia ?..,

— Vaesrir... vaes zombar de mim !

— Como ?... pois a bella mysteriosa não disse á velha e depois não te escreveu n'um bilhete que te amava extremosamente ?...

— Disse, e até fallou a verdade.

— Pois que mais queres, coração insaciável ?

Constancio soltou um suspiro magoado.

— Ah ! já sei : a tua bella mysteriosa é alguma velha feia, e...

— Ao contrario é moça, e bella.

— Já a viste ?...

— Vi-a sim ; e repito que é moça e bella.

— Mas desenxavida... pretenciosa...

— Também não ; é espirituosa e modesta.

— Então agora acertei: depois que a viste e a conheces, a tua razão, que é calculista como agiota, te esta de continuo cantando aos uvidos aquella velha cantiga que acaba assim :

Casar com mulher sem dote é remar contra a maré.

_ Ainda te enganas : ella é tão rica como eu.

— Em tal caso dou as mãos á palmatoria, e confesso que não decifro o enigma.

Constando pensou um momento, e depois disse :

— Visto que sempre terei de te contar o fim da historia, tanto faz hoje como sabbado.

— Digo-te que estás criando juizo, Constando.

— Passeiemos.

Dei-lhe o braço : começámos a passeiar e elle tomou logo a palavra.

— Creio que não preciso dizer-te que domingo não faltei á exposição dos objectos offerecidos pelas senhoras a favor da pobreza. Eu ! eu, que estou habituado a levantar-me da cama ás dez horas do dia, fui domingo amanhecer á porta da Academia das Bellas Artes: jejuei até e pela primeira vez na minha vida, pois sahi de casa sem me lembrar de almoçar. O amor e a politica, tirando ambos igualmente o juizo ao homem, tem um notavel ponto de dissimilhança: o amor sacrifica a barriga ao coração, e a politica de muita gente é um sacrifício do coração á barriga.

— Não te afastes da questão principal, Constancio.

— Emfim !... estava lá ! ........ descobri finalmente a minha querida bolsa de seda entre os interessantes objectos expostos ! reconheci-a logo... immediatamente : era ella mesma, era a bolsa de seda !

— Que rapaz afortunado !

— Foi minha, e havia de sel-o por força ! eu teria preferido aquella simples bolsa de seda á propria Estrella do Sul, ou á Montanha da Luz !

— Parolas de namorado.

— Em uma palavra, achei-me de posse da minha bolsa de seda, e apenas a vi nas minhas mãos, esquecendo a exposição, e não querendo saber de mais nada, atirei-me para casa a galope.

— A galope ?. . penso que deves retirar a, expressão, Constancio.

— De modo nenhum : a palavra foi admitida ha alguns annos nos mais brilhantes salões; não havia ninguém que pretendesse as honras do grande tom, que não galopasse nos bailes; por consequencia, não retiro a expressão e repito, galopei.

— Perfeitamente !

(continua...)

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