Por José de Alencar (1853)
— O pai que eu destino a essa criança sois vós, Duarte de Moraes, e vossa mulher lhe servirá de mãi. Ella deve ignorar sempre que teve outros, e que fui eu quem lh'os roubei. Aceitem pois esta
menina, e com ella a fortuna que lhe pertencia. Tereis animo de recusar-me este serviço, de que preciso para repouso de minha vida ?
— Disponde de nós, Ayres, e d'esta casa.
A um apito de Ayres, appareceu o velho Bruno, carregando nos braços como ama secca, a filha do corsario. Era um lindo anjinho louro, de cabellos annelados como os vellos do cordeiro, com
os olhos azues e tão grandes, que lhe enchiam o rosto mimoso.
— Oh! que seraphim! exclamou Ursula tomando a criança das mãos rudes e callosas do gageiro, e cobrindo-a de caricias.
N'essa mesma noite o velho Bruno por ordem do capitão regalava a maruja na taberna do Simão Chanfana, ao beco da Fidalga.
Ayres ahi appareceu um momento para trincar uma saude com os rapazes.
VII
O BAPTISMO
Domingo seguinte a bordo da escuna tudo era festa.
No rico altar armado á popa com os mais custosos brocados, via-se a figura de Nossa Senhora da Gloria, obra de um entallhador de S. Sebastião que a esculpíra em madeira.
Embora fosse tosco o trabalho, sahíra o vulto da Virgem com um aspecto nobre, sobretudo depois que o artifice tinha feito a encarnação e pintura da imagem.
Em. frente ao altar achavam-se Ayres de Lurcena, Duarte de Moraes e a mulher, além dos convidados da função. Ursula tinha nos braços, envolta em alva toalha de crivo, a linda criancinha loura, que adoptára por filha.
Mais longe, a maruja commovida com, a ceremonia, fazia alas, esperando que o padre se paramentasse. Este não se demorou, com pouco appareceu no convez e subiu ao altar.
Começou então a ceremonia do benzimento da Virgem, que prolongou-se conforme o ceremonial da igreja. Terminado o acto, todos até o ultimo dos grumetes foram por sua vez beijar os pés da Virgem.
Em seguida se passou ao baptismo da filha adoptiva de Duarte de Moraes. Foi madrinha Nossa Senhora da Gloria, de quem recebeu a menina o nome que trouxe, pela razão de a ter Ayres salvado no dia d'aquella invocação.
Esta razão porém calou-se; pois a criança foi baptisada como filha de Duarte de Moraes e Ursula; e a explicação do nome deu-se com ter ella escapado de grave doença no dia 15 de Agosto. Por igual devoção tomou-se a mesma Virgem
Santissima para padroeira da escuna, pois á sua divina e milagrosa intercessão se devia a victoria sobre os hereges e a captura do navio.
Depois da benção e baptismo da escuna, acompanharam todos em procissão o sacerdote que de imagem alçada dirigiu-se á prôa onde tinham de antemão preparado um nicho.
Por volta do meio dia, terminou a ceremonia, e a linda escuda desfraldando as velas bordejou pela bania em signal de regosijo pelo seu baptismo e veiu deitar o ferro em uma sombria e formosa enseiada que havia na praia do Catette, ainda n'aquelle tempo coberta da floresta que deu nome, ao lugar.
Essa praia tinha dois outeiros que lhe serviam como de atalaias, um olhando para a barra, o outro para a cidade. Era ao sopé d'este ultimo que ficava a abra, onde fundeou a escuna Maria da Gloria, á sombra das grandes arvores e do outeiro, que mais tarde devia tomar-lhe o nome.
Ahi serviu-se lauto banquete aos convivas, e levantaram-se muitos brindes ao heróe da festa, Ayres de Lucena, o íntrepido corsario, cujos rasgos de valor eram celebrado com um enthusiasmo sincero, mas de certo afervorado pelas iguarias que trascalavam.
É sempre assim; a gula foi e ha de ser para certos homens a mais fecunda e inspirada de todas as musas conhecidas.
Ao toque de trindades, cuidou Ayres de voltar à cidade, para desembarcar os convidados; mas com pasmo do commandante e de toda a maruja não houve meio de safar a ancora do fundo. Certos sujeitos mais desabusados asseguravam que sendo a praia coberta de arvores, na raiz de alguma fisgára a ancora, e assim explicavam o accidente. O geral, porém, vendo nisso um milagre, o referiam mais ou menos por este teor.
Segundo a tradição, Nossa Senhora da Gloria agastada por terem-n'a escolhido para padroeira de um navio corsario, tomado aos hereges, durante o banquete abandonára o seu nicho da prôa e se refugiára no cimo do outeiro, onde á noite se via brilhar o seu resplendor por entre as arvores.
Sabendo o que, Ayres de Lucena botou-se para a praia e foi subindo a encosta do morro em demanda da luz, que lhe parecia uma estrella. Chegado ao tope, avistou a imagem da Senhora da Gloria, em cima de um grande seixo, e ajoelhado defronte um ermitão a rezar.
— Quem te deu, barbudo, o atrevimento de roubares a padroeira de meu navio, gritou Ayres irado.
Ergueu-se o ermitão com brandura e placidez.
— Foi a Senhora da Gloria quem mandou-me que a livrasse da fabrica dos hereges e a trouxesse aqui onde quer ter sua ermida.
— Ha de tel-a e bem rica, mas depois de servir de padroeira
á minha escuna.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.