Por Martins Pena (1845)
EDUARDO – Paulina, o artista quando vem ao Brasil, digo, quando se digna vir ao Brasil, é por compaixão que tem do estado de embrutecimento em que vivemos, e não por um cálculo vil e interesseiro. Se lhe pagam, recebe, e faz muito bem; são princípios da arte...
PAULINA – E depois das algibeiras cheias, safa-se para as suas terras, e comendo o dinheiro que ganhara no Brasil, fala mal dele e de seus filhos.
EDUARDO – Também isso são princípios de arte...
PAULINA – Qual arte?
EDUARDO – A do padre Antônio Vieira... Sabes quem foi esse?
PAULINA – Não.
EDUARDO – Foi um grande mestre de rabeca... Mas aí, que estou a parolar contigo, deixando a trovoada engrossar. Minha mulher está lá dentro com a mãe, e os mexericos fervem... Não tarda muito que as veja em cima de mim. Só tu podes desviar a tempestade e dar-me tempo para acabar de compor o meu tremulório.
PAULINA – E como?
EDUARDO – Vai lá dentro e vê se persuade a minha mulher que não se queixe à mãe.
PAULINA – Minha cunhada não me ouve, e...
EDUARDO, empurrando-a – Ouvir-te-á, ouvir-te-á, ouvir-te-á. Anda, minha irmãzinha, faze-me este favor.
PAULINA – Vou fazer um sacrifício, e não...
EDUARDO, o mesmo – E eu te agradecerei. Vai, vai...
CENA XIII
EDUARDO, só – Muito bem! Agora que o meu parlamentário vai assinar o tratado de paz, assentemo-nos e estudemos um pouco. (Assentase.) O homem de verdadeiro talento não deve ser imitador; a imitação mata a originalidade e nessa é que está a transcendência e especialidade do
indivíduo. Bériot, Paganini, Bassini e Charlatinini muito inventaram, foram homens especiais e únicos na sua individualidade. Eu também quis inventar, quis ser único, quis ser apontado a dedo... Uns tocam com o arco... (N. B.: Deve fazer os movimentos, segundo os vai mencionando.) Isto veio dos primeiros inventores; outros tocam com as costas do arco... ou com uma varinha... Este imita o canto dos passarinhos... zurra como burro... e repinica cordas... Aquele toca abaixo do cavalete, toca em cima no braço... e saca-lhe sons tão tristes e lamentosos capazes de fazer chorar um bacalhau..... Estoutro arrebenta três cordas e toca só com uma, e creio mesmo que será capaz de arrebentar as quatro e tocar em seco... Inimitável instrumentinho, por quantas modificações e glórias não tens passado? Tudo se tem feito de ti, tudo. Tudo? (Levantando-se entusiasmado:) Tudo não; a arte não tem limites para o homem de talento criador... Ou eu havia de inventar um meio novo, novíssimo de tocar rabeca, ou havia de morrer... Que dias passei sem comer e beber; que noites sem dormir! Depois de muito pensar e cismar, lembrei-me de tocar nas costas da rabeca... Tempo perdido, não se ouvia nada. Quase enlouqueci. Pus-me de novo a pensar... Pensei... cismei... parafusei... parafusei... pensei... pensei... Dias, semanas e meses... Mas enfim, ah, idéia luminosa penetrou este cansado cérebro e então reputei-me inventor original, como o mais pintado! Que digo? Mais do que qualquer deles... Até agora esses aprendizes de rabeca desde Saëns até Paganini, coitados, têm inventado somente modificações do modo primitivo: arco para aqui ou para ali... Eu, não, inventei um modo novo, estupendo e desusado: eles tocam rabeca com o arco, e eu toco a rabeca no arco – eis a minha descoberta! (Toma o arco na mão esquerda, pondo-o na posição da rabeca; pega nesta com a direita e a corre sobre o arco.) É esta a invenção que há de cobrir-me de glória e nomeada e levar meu nome à imortalidade... Ditoso Eduardo! Grande homem! Insigne artista!
CENA XIV
FABIANA e EDUARDO.
FABIANA, falando para dentro – Verás como o ensino! (Vendo Eduardo:) Oh, muito estimo encontrá-lo.
EDUARDO – Ai, que não me deixam estudar?
FABIANA – Pois você, sô mandrião, rabequista das dúzias, tem o atrevimento de insultar e espancar ...
EDUARDO – Então acha a senhora que uma arcada nos dedos é espancar?
FABIANA – E por que deu-lhe o senhor com o arco nos dedos?
EDUARDO – Porque não voltou a música a tempo, fazendo-me assim perder dois compassos... Dois compassos de Bériot!
FABIANA – Pois se os perdeu, anunciasse pelos jornais e prometesse alvíssaras, que eu havia dá-las, mas havia de ser a quem te achasse o juízo, cabeça de avelã! Ora, que estafermo este! Não me dirão para que serve semelhante figura? Ah, se eu fosse homem havia de tocar com esse arco, mas havia ser no espinhaço; e essa rabeca havia de a fazer em estilhas nessa cabeça desmiolada... Não arregale os olhos, que não me mete medo.
EDUARDO, enquanto Fabiana fala, vai-se chegando para junto dela e lhe diz na cara, com força – Velha! (Volta, quer entrar no seu quarto.)
FABIANA – Mariola! (Segura-lhe no hábito. Eduardo dá com o arco nos dedos de Fabiana. Vai-se. Fabiana, largando o hábito:) Ai, que me quebrou os dedos!
CENA XV
Entra OLAIA e após ela PAULINA.
OLAIA – Falta de educação será ela! (Encaminhando-se para o quarto.)
PAULINA – Cala-me o bico!
OLAIA – Bico terá ela, malcriada!
FABIANA – O que é isto? (Olaia entra no quarto sem dar atenção)
(continua...)
PENA, Martins. Quem casa, quer casa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2156 . Acesso em: 30 jan. 2026