Por Martins Pena (1848)
TIBÚRCIO – Um pedreiro-livre, minha Luísa, é um homem como outro qualquer; nunca comeu crianças nem falou com o diabo à meia-noite.
LUÍSA – Visto isso, não é verdade o que te digo?
TIBÚRCIO – Qual! São carapetões que te meteram nos miolos para talvez te indisporem comigo. A maçonaria é uma instituição...
LUÍSA – Dá-me a sua palavra de honra que nunca falou com o diabo?
TIBÚRCIO – Juro-te que é sujeitinho com quem nunca me encontrei.
LUÍSA – Hoje ouviu missa?
TIBÚRCIO – Nem menos de três.
LUÍSA – Ah, que peso me tiraste do coração!
TIBÚRCIO – Consentes que eu fale a teu mano?
LUÍSA, vergonhosa – Não sei...
TIBÚRCIO, beijando-lhe a mão – Malditos tagarelas, que iam-me fazendo perder este torrão de açúcar! Minha Luísa, nós seremos muito felizes, e eu te...
MARIANA, dentro – Devagar, devagar, que não posso.
LUÍSA, assustada – É D. Mariana!
TIBÚRCIO – Vou-me embora!
LUÍSA – Não, não, que o podem encontrar no corredor! Minha cunhada o conhece... Esconda-se até que elas entrem, e depois saia!
TIBÚRCIO – Mas aonde?
LUÍSA – Neste armário. (Tibúrcio esconde-se no armário, deixando a bacia sobre a mesa.)
CENA XIII
Entra MARIANA, apoiada nos braços de EUFRÁSIA e de SOUSA.
MARIANA – Ai, quase morri... Tira-me esta mantilha. (Luísa tira-lhe a mantilha.) Ai! (Senta-se.) Muito obrigada, compadre.
SOUSA – Não há de que, comadre.
EUFRÁSIA – Acha-se melhor, minha mãe?
MARIANA – Um pouco. Se o compadre não estivesse lá à porta da igreja para tirar-me do aperto, eu morria, certamente.
SOUSA – Aquilo é um desaforo!
MARIANA – É assim, é. Ajuntam-se esses brejeiros nos corredores das catacumbas para apertarem as velhas e darem beliscões nas moças.
SOUSA – E nos rasgarem as opas e darem caçoletas.
EUFRÁSIA – É uma indecência!
MARIANA – Espremeram-me de tal modo, que ia botando a alma pela boca a fora.
EUFRÁSIA – E a mim deram um beliscão, que quase arrancaram carne.
MARIANA – É insuportável!
SOUSA – Principalmente, comadre, em S. Francisco de Paula.
MARIANA – Estão horas inteiras num vaivém, só para fazerem patifarias.
EUFRÁSIA – A polícia não vê isso?
MARIANA – Ai, estou que não posso. Compadre, dê-me licença, que vou-me deitar um pouco.
SOUSA – Essa é boa, comadre!
MARIANA levanta-se – Já arranjou a opa para meu sobrinho?
SOUSA – A esta hora já está tirando esmolas.
MARIANA – Muito obrigada, compadre. Não se vá embora, jante hoje conosco.
SOUSA – A comadre manda, não pede.
MARIANA – Até já; descanse. (Saem Mariana, Eufrásia e Luísa.)
CENA XIV
SOUSA e depois FELISBERTO.
SOUSA, só – Estou estafado! (Senta-se.) A pobre da comadre, se não sou eu, morre; já estava vermelha como um camarão. (Ouvem-se dentro gritos de pega ladrão!) O que será? (Levanta-se; os gritos continuam.) É pega ladrão! (Vai para a porta do fundo; nesse instante entra Felisberto, que virá de opa e bacia, precipitadamente.
Esbarra-se com Sousa e salta-lhe o dinheiro da bacia no chão.)
FELISBERTO – Salve-me, salve-me, colega! (Trazendo-o para frente da cena.)
SOUSA – O que é isto, homem? Explique-se!
FELISBERTO, tirando um relógio da algibeira – Tome este relógio, guarde-o.
(Sousa toma o relógio maquinalmente.)
SOUSA – Que relógio é esse?
FELISBERTO – O povo aí vem atrás de mim, gritando: Pega ladrão! – mas creio que o logrei.
SOUSA – E o senhor roubou este relógio?
FELISBERTO – Não senhor! Entrei em uma casa para pedir esmola, e quando saí, achei-me com este relógio na mão, sem saber como... (Vozearia dentro.) Aí vêm eles! (Corre e esconde-se no armário.)
SOUSA, com o relógio na mão – E me meteu em boas, deixando-me com o relógio na mão! Se assim me pilham estou perdido. (Põe o relógio sobre a mesa.) Antes que aqui me encontrem, safo-me. (Vai a sair; ao chegar à porta, pára para ouvir a voz de Jorge.)
JORGE, dentro – Isto é um insulto! Não sou ladrão! Em minha casa não entrou ladrão nenhum!
SOUSA, voltando – Aí vêm!... E este relógio que me acusa... Pelo menos prendem-me como cúmplice. (Corre e esconde-se no armário.)
CENA XV
Entra JORGE.
JORGE – Não se dá maior pouca vergonha... Julgarem que eu era ladrão! Creio que algum tratante aproveita-se da opa para entrar com liberdade nas casas e surripiar alguma coisa, e os mais que andam de opa, que paguem!... Eu, roubar relógio!... Pois olhem, precisava bem de um. (Vê o relógio sobre a mesa.) Um relógio! Que diabo! (Pegando no relógio:) De quem será? Será roubado? Quatro bacias com esmolas! E então? E então tenho três homens dentro de casa? Oh, com os diabos! E todos três irmãos das almas... E ladrões ainda em cima! Vou saber como é isto. Mas, não; se eu perguntar, não me dizem nada. (Aqui aparece à porta da direita Eufrásia, sem que ele a veja.) É melhor que eu veja com meus próprios olhos. Vou esconder-me no armário e de lá espreitarei. (Vai para o armário; Eufrásia o segue pé ante pé. Logo que entra no
armário, ela dá um pulo e fecha o armário com a chave )
EUFRÁSIA – Está preso! Minha mãe, venha ver o canário! (Sai.)
CENA XVI
(continua...)
PENA, Martins. Os Irmãos das Almas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2161 . Acesso em: 30 jan. 2026.