Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

Os Dois ou o Inglês Maquinista

Por Martins Pena (1845)

FELÍCIO – Vai bem.

CECÍLIA – O que é?

MARIQUINHA – Uma coisa.

CENA XI

Entram CLEMÊNCIA, EUFRÁSIA, JOÃO, JÚLIA, o menino, a preta com a criança e o moleque.

CLEMÊNCIA – Mostra que tem habilidade.

EUFRÁSIA – Assim é bom, pois o meu nem por isso. Quem também já vai adiantado é o Juca; ainda [ontem (?)] o João comprou-lhe um livro de fábula.

CLEMÊNCIA – As mestras da Júlia estão muito contentes com ela. Está muito adiantada. Fala francês e daqui a dois dias não sabe mais falar português.

FELÍCIO, à parte – Belo adiantamento!

CLEMÊNCIA – É muito bom colégio. Júlia, cumprimenta aqui o senhor em francês.

JÚLIA – Ora, mamã.

CLEMÊNCIA – Faça-se de tola!

JÚLIA – Bon jour, Monsieur, comment vous portez-vous? Je suis votre serviteur.

JOÃO – Oui. Está muito adiantada.

EUFRÁSIA – É verdade.

CLEMÊNCIA, para Júlia – Como é mesa em francês?

JÚLIA – Table.

CLEMÊNCIA – Braço?

JÚLIA – Bras.

CLEMÊNCIA – Pescoço?

JÚLIA – Cou.

CLEMÊNCIA – Menina!

JÚLIA – É cou mesmo, mamã; não é primo? Não é cou que significa?

CLEMÊNCIA – Está bom, basta.

EUFRÁSIA – Estes franceses são muito porcos. Ora veja, chamar o pescoço, que está ao pé da cara, com este nome tão feio.

JOÃO, para Eufrásia – Senhora, são horas de nos irmos.

CLEMÊNCIA – Já?

JOÃO – É tarde.

EUFRÁSIA – Adeus, comadre, qualquer destes dias cá virei. dª. Mariquinha, adeus. (Dá um abraço e um beijo.)

MARIQUINHA – Passe bem. Cecília, até quando?

CECÍLIA – Até nos encontrarmos. Adeus. (Dá abraço e muitos beijos.)

EUFRÁSIA, para Clemência – Não se esqueça daquilo.

CLEMÊNCIA – Não.

JOÃO, para Clemência – Comadre, boas noites.

CLEMÊNCIA – Boas noites, compadre.

EUFRÁSIA e CECÍLIA – Adeus, adeus! Até sempre. (Os de casa acompanham-nos.)

EUFRÁSIA, parando no meio da casa – Mande o vestido pela Joana.

CLEMÊNCIA – Sim. Mas quer um só, ou todos os dois?

EUFRÁSIA – Basta um.

CLEMÊNCIA – Pois sim.

CECÍLIA, para Mariquinha – Você também mande-me o molde das mangas.

Mamã, não era melhor fazer o vestido de mangas justas?

EUFRÁSIA – Faze como quiseres.

JOÃO – Deixem isto para outra ocasião e vamos, que é tarde.

EUFRÁSIA – Já vamos, já vamos. Adeus, minha gente, adeus. (Beijos e abraços.)

CECÍLIA, para Mariquinha – O livro que te prometi mando amanhã.

MARIQUINHA – Sim.

CECÍLIA – Adeus. Boas noites, senhor Felício.

EUFRÁSIA., parando quase junto da porta – Você sabe? Nenhuma das sementes pegou.

CLEMÊNCIA – É que não soube plantar.

EUFRÁSIA —. Qual!

MARIQUINHA – Adeus, Lulu.

EUFRÁSIA – Não eram boas.

CLEMÊNCIA – Eu mesmo as colhi.

MARIQUINHA – Marotinho!

CECÍLIA – Se você ver dª. Luísa, dê lembranças.

EUFRÁSIA – Mande outras.

MARIQUINHA – Mamã, olhe Lulu que está lhe estendendo os braços.

CLEMÊNCIA – Um beijinho.

CECÍLIA – Talvez possa vir amanhã.

CLEMÊNCIA – Eu mando outras, comadre.

JOÃO – Então, vamos ou não vamos? (Desde que Eufrásia diz —Você sabe?

Nenhuma das sementes pegou – falam todos ao mesmo tempo, com algazarra.)

CLEMÊNCIA – Já vão, já vão.

EUFRÁSIA – Espere um bocadinho.

JOÃO, para Felício – Não se pode aturar senhoras.

EUFRÁSIA – Adeus, comadre, o João quer-se ir embora. Talvez venham cá os Reis.

CECÍLIA – É verdade, e...

JOÃO – Ainda não basta?

EUFRÁSIA —. Que impertinência! Adeus, adeus!

CLEMÊNCIA [e] MARIQUINHA – Adeus, adeus!

EUFRÁSIA. chega à porta e pára – Quando quiser, mande a abóbora para fazer o doce.

CLEMÊNCIA – Pois sim, quando estiver madura lá mando, e ...

JOÃO, à parte – Ainda não vai desta, irra!

CECÍLIA, para Mariquinha – Esqueci-me de te mostrar o meu chapéu.

CLEMÊNCIA – Não bota cravo.

CECÍLIA – Manda buscar?

EUFRÁSIA – Pois sim, tenho um receita.

MARIQUINHA – Não, teu pai está zangado.

CLEMÊNCIA – Com flor de laranja.

EUFRÁSIA – Sim.

JOÃO, à parte, batendo com o pé – É de mais!

CECÍLIA – Mande para eu ver.

MARIQUINHA – Sim.

EUFRÁSIA – Que o açúcar seja bom.

CECÍLIA – E outras coisas novas.

CLEMÊNCIA – É muito bom.

EUFRÁSIA – Está bem, adeus. Não se esqueça.

CLEMÊNCIA – Não.

CECÍLIA – Enquanto a Vitorina está lá em casa.

MARIQUINHA – Conta bem.

CECÍLIA – Adeus, Júlia.

JÚLIA – Mande a boneca.

CECÍLIA – Sim.

JÚLIA – Lulu, adeus, bem, adeus!

MARIQUINHA – Não faça ele cair!

JÚLIA – Não.

JOÃO – Eu vou saindo. Boas noites. (À parte:) Irra, irra!

CLEMÊNCIA – Boas noites, sô João.

EUFRÁSIA – Anda, menina. Juca, vem.

TODOS – Adeus, adeus, adeus! (Toda esta cena deve ser como a outra, falada ao mesmo tempo.)

JOÃO – Enfim! (Saem Eufrásia, Cecília, João, o menino e a preta; Clemência, Mariquinha ficam à porta; Felício acompanha as visitas.) CLEMÊNCIA, da porta – Adeus!

EUFRÁSIA, dentro – Toma sentido nos Reis pra me contar.

CLEMÊNCIA, da porta – Hei de tomar bem sentido.

CECÍLIA, de dentro – Adeus, bem! Mariquinha?

MARIQUINHA – Adeus!

CLEMÊNCIA, da porta – Ó comadre, manda o Juca amanhã, que é domingo.

EUFRÁSIA, dentro – Pode ser. Adeus.

CENA XII

CLEMÊNCIA, MARIQUINHA e FELÍCIO.

CLEMÊNCIA – Menina, são horas de mandar arranjar a mesa pra ceia dos Reis.

MARIQUINHA – Sim, mamã.

CLEMÊNCIA – Viste a Cecília como vinha? Não sei aquela comadre aonde quer ir parar. Tanto luxo e o marido ganha tão pouco! São milagres que estas gentes sabem fazer.

MARIQUINHA – Mas elas cosem pra fora.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...45678...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →