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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

Carlos — Um instante. (Retendo AMBRÓSIO com uma mão, com a outra empurra a porta e aponta para dentro, dizendo:) Vê!

Ambrósio, afirmando a vista — Oh! (Volta para junto de Florência e de Emília, e as toma convulsivo pelo braço.) - Vamos, vamos, são horas!

Florência — O que é?

Ambrósio, forcejando por sair e levá-las consigo — Vamos, vamos!

Florência — Sem chapéu?

Ambrósio — Vamos, vamos! (Sai, levando-as.)

Carlos —Então, senhor meu tio? Já não quer que eu vá para o convento? (Depois que ele sai.) Senhor meu tio, senhor meu tio? (Vai a porta, gritando.)

CENA XIII

Carlos, só e depois Rosa

Carlos, rindo-se —Ah, ah, ah, agora veremos, e me pagaras... E minha tia também há de pagá-lo, para não se casar na sua idade e ser tão assanhada. E o menino, que não se contentava com uma!...

Rosa, entrando — Então, Reverendíssimo?

Carlos — Então?

Rosa —Eu vi meu marido um instante e fugiu. Ouvi vozes de mulheres...

Carlos — Ah, ouviu? Muito estimo. E sabe de quem eram essas vozes?

Rosa—Eu tremo de adivinhar...

Carlos — Pois adivinhe logo de uma assentada... Eram da mulher de seu marido.

Rosa —E então verdade? Pérfido, traidor! Ah, desgraçada! (Vai a cair desmaiada e CARLOS a sustém nos braços.)

Carlos — Desmaiada! Sra D. Rosa? Fi-la bonita! Esta é mesmo de frade... Senhora, torne a si, deixe desses faniquitos Olhe que aqui não ha quem a socorra. Nada! E esta? Ó Juquinha? Juquinha? (JUCA entra, trazendo em uma mão um assobio de palha e tocando em outro.) Deixa esses assobios sobre a mesa e vai lá dentro buscar alguma cousa para esta moça cheirar.

Juca — Mas o quê, primo?

Carlos — A primeira cousa que encontrares. (Juca larga os assobios na mesa e sai correndo.) Isto está muito bonito! Um frade com uma moça desmaiada nos braços. Valha-me Santo Antônio! O que diriam, se assim me vissem? (Gritando-lhe ao ouvido:) Olá! - Nada.

Juca ,entra montado a cavalo em um arco de pipa, trazendo um galheteiro — Vim a cavalo para chegar mais depressa. Está o que achei.

Carlos —Um galheteiro, menino?

Juca — Não achei mais nada.

Carlos — Está bom, dá cá o vinagre. (Toma o vinagre e o chega ao nariz de Rosa.) Não serve; está na mesma. Toma...Vejamos se o azeite faz mais efeito. Isto parece-me salada... Azeite e vinagre. Ainda está mal temperada; venha a pimenta da Índia. Agora creio que não falta nada. Pior é essa; a salada ainda não está boa!

Ai, que não tem sal. Bravo, está temperada! Venha mais sal... Agora sim.

Rosa, tomando a si— Onde estou eu?

Carlos — Nos meus braços.

Rosa, afastando-se — Ah, Reverendíssimo!

Carlos — Não se assuste. (Para JUCA:) Vai para dentro (JUCA sai)

Rosa — Agora me recordo... Pérfido, ingrato!

Carlos — Não torne a desmaiar, que já não posso.

Rosa — Assim enganar-me! Não há leis, não há justiça?...

Carlos — Há tudo isso, e de sobra. O que não há é quem as execute. (Rumor na rua)

Rosa, assustando-se — Ah!

Carlos — O que será isto? (Vai à janela.) Ah, com S. Pedro! (À parte:) O mestre de noviços seguido de meirinhos que me procuram... Não escapo...

Rosa — O que é, Reverendíssimo? De que se assusta?

Carlos —Não é nada. (À parte:) Estou arranjado! (Chega à janela.) Estão indagando na vizinhança... O que farei?

Rosa —Mas o que é? O quê?

Carlos, batendo na testa — Oh, só assim... (Para ROSA:) Sabe o que é isto?

Rosa — Diga.

Carlos — E um poder de soldados e meirinhos que vem prendê-la por ordem de seu marido.

Rosa — Jesus! Salve-me, salve-me!

Carlos — Hei de salvá-la; mas faça o que eu lhe disser.

Rosa — Estou pronta

Carlos — Os meirinhos entrarão aqui e hão de levar por força alguma cousa - esse é o seu costume. O que é preciso é enganá-los.

Rosa — E como?

Carlos — Vestindo a senhora o meu hábito, e eu o seu vestido.

Rosa — Oh!

Carlos — Levar-me-ão preso; terá a senhora tempo de fugir.

Rosa —Mas...

Carlos — Ta, ta, ta... Ande, deixe-me fazer uma obra de caridade; para isso é que somos frades. Entre para este quarto, dispa lá o seu vestido e mande-me, assim como a toca e xale. Ó Juca? Juca? (Empurrando ROSA:) Não se demore. (Entra JUCA.)Juca, acompanha esta senhora e faze o que ela te mandar. Ande, senhora, com mil diabos! (ROSA entra no quarto a esquerda, empurrada por CARLOS.)

CENA XIV

Carlos, só —Bravo, esta é de mestre! (Chegando à janela:) Lá estão eles conversando com o vizinho do armarinho. Não tardarão a dar com o rato na ratoeira, mas o rato é esperto e os logrará. Então, vem o vestido?

Rosa, dentro — Já vai.

Carlos —Depressa! O que me vale é ser o mestre de noviços catacego e trazer óculos. Cairá na esparrela(Gritando:) Vem ou não?

Juca, traz o vestido, toca e o xale — Esta.

Carlos — Bom. (Despe o hábito.) Ora vá, senhor hábito. Bem se diz que o hábito não faz o monge. (Dá o hábito e o chapéu a JUCA.) Toma, leva à moça. (JUCA sai.) Agora é que são elas... Isto é mangas? Diabo, por onde se enfia esta geringonça? Creio que é por aqui... Bravo acertei. Belíssimo! Agora a toca. (Põe a toca.) Vamos ao xale... Estou guapo; creio que farei a minha parte de mulher excelentemente.

(continua...)

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