Por Martins Pena (1838)
Manuel João − Minha filha fugir com um vadio daqueles! Eis aqui o que fazem as guerras do Rio Grande!
Maria Rosa − Ingrata! Filha ingrata!
Manuel João − Dê-me lá minha jaqueta e meu chapéu, que quero ir à casa do Juiz de paz fazer queixa do que nos sucede. Hei de mostrar àquele mequetrefe quem é Manuel João... Vá, senhora, não esteja a choramingar.
CENA XX
Entram José e Aninha e ajoelham-se aos pés de Manuel João.
Ambos − Senhor!
Manuel João − O que é lá isso?
Aninha − Meu pai, aqui está o meu marido.
Manuel João − Teu marido?!
José − Sim senhor, seu marido. Há muito tempo que nos amamos, e sabendo que não daríeis o vosso consentimento, fugimos e casamos na freguesia.
Manuel João − E então? Agora peguem com um trapo quente. Está bom, levantemse; já agora não há remédio. (ANINHA e JOSÉ levantam-se. ANINHA vai abraçar a mãe.)
Aninha − E minha mãe, me perdoa?
Maria Rosa − E quando é que eu não hei de perdoar-te? Não sou tua mãe?
(Abraçam-se.)
Manuel João − É preciso agora irmos dar parte ao Juiz de paz que você já não pode ser soldado, pois está casado. Senhora, vá buscar minha jaqueta. (Sai MARIA ROSA.) Então o senhor conta viver à minha custa, e com o meu trabalho?
José − Não senhor, também tenho braços para ajudar; e se o senhor não quer que eu aqui viva, irei para a Corte.
Manuel João − E que vai ser lá?
José − Quando não possa ser outra cousa, serei ganhador da Guarda Nacional.
Cada ronda rende mil-réis e cada guarda três mil-réis.
Manuel João − Ora, vá-se com os diabos, não seja tolo. (Entra MARIA ROSA com a jaqueta e chapéu, e de xale.)
Maria Rosa − Aqui está.
Manuel João, depois de vestir a jaqueta − Vamos pra casa do Juiz.
Todos − Vamos. (Saem.)
CENA XXI
Casa do Juiz. Entra o Juiz de Paz e o Escrivão.
Juiz − Agora que estamos com a pança cheia, vamos trabalhar um pouco.
(Assentam-se à mesa.)
Escrivão − Vossa Senhoria vai amanhã à cidade?
Juiz − Vou, sim. Quero-me aconselhar com um letrado para saber como hei de despachar alguns requerimentos que cá tenho.
Escrivão − Pois Vossa Senhoria não sabe despachar?
Juiz − Eu? Ora essa é boa! Eu entendo cá disso? Ainda quando é algum caso de embigada, passe; mas casos sérios, é outra cousa. Eu lhe conto o que me ia acontecendo um dia. Um meu amigo me aconselhou que, todas as vezes que eu não soubesse dar um despacho, que desse o seguinte: “Não tem lugar.” Um dia apresentaram-me um requerimento de certo sujeito, queixando-se que sua mulher não queria viver com ele, etc. Eu, não sabendo que despacho dar, dei o seguinte: “Não tem lugar.” Isto mesmo é que queria a mulher; porém [o marido] fez uma bulha de todos os diabos; foi à cidade, queixou-se ao Presidente, e eu estive quase não quase suspenso. Nada, não me acontece outra.
Escrivão − Vossa Senhoria não se envergonha, sendo um Juiz de paz?
Juiz − Envergonhar-me de quê? O senhor ainda está muito de cor. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, quantos juizes de direito há por estas comarcas que não sabem aonde têm sua mão direita, quanto mais juizes de paz... E além disso, cada um faz o que sabe. (Batem.) Quem é?
Manuel João, dentro − Um criado de Vossa Senhoria.
Juiz − Pode entrar.
CENA XXII
Entram Manuel João, Maria Rosa, Aninha e José.
Juiz, levantando-se − Então, o que é isto? Pensava que já estava longe daqui!
Manuel João − Não senhor, ainda não fui.
Juiz − Isso vejo eu.
Manuel João − Este rapaz não pode ser soldado.
Juiz − Oh, uma rebelião? Sr. Escrivão, mande convocar a Guarda Nacional e oficie ao Governo.
Manuel João − Vossa Senhoria não se aflija, este homem está casado.
Juiz − Casado?!
Manuel João − Sim senhor, e com minha filha.
Juiz − Ah, então não é rebelião... Mas vossa filha casada com um biltre destes?
Manuel João − Tinha-o preso no meu quarto para levá-lo amanhã para a cidade; porém a menina, que foi mais esperta, furtou a chave e fugiu com ele.
Aninha − Sim senhor, Sr. Juiz. Há muito tempo que o amo, e como achei ocasião, aproveitei.
Juiz − A menina não perde ocasião! Agora, o que está feito está feito. O senhor não irá mais para a cidade, pois já está casado. Assim, não falemos mais nisso. Já que estão aqui, hão de fazer o favor de tomar uma xícara de café comigo, e dançarmos antes disto uma tirana. Vou mandar chamar mais algumas pessoas para fazerem a roda maior. (Chega à porta.) Ó Antônio! Vai à venda do Sr. Manuel do Coqueiro e dize aos senhores que há pouco saíram daqui que façam o favor de chegarem até cá. (Para JOSÉ:) O senhor queira perdoar se o chamei de biltre; já aqui não está quem falou.
José − Eu não me escandalizo; Vossa Senhoria tinha de algum modo razão, porém eu me emendarei.
Manuel João − E se não se emendar, tenho um reio.
Juiz − Senhora Dona, queira perdoar se ainda a não cortejei. (Cumprimenta.)
Maria Rosa, cumprimentando − Uma criada de Sua Excelência.
Juiz − Obrigado, minha senhora... Aí chegam os amigos.
CENA ÚLTIMA
Os mesmos e os que estiveram em cena.
(continua...)
PENA, Martins. O Juiz de Paz da Roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17003 . Acesso em: 29 jan. 2026.