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#Comédias#Literatura Brasileira

O Judas em sábado de aleluia

Por Martins Pena (1844)

Capitão — Eu te creio, porque teus olhos confirmam tuas palavras. (Gesticula com entusiasmo, brandindo a espada) Terás sempre em mim um arrimo, e um defensor! Enquanto eu for capitão da Guarda Nacional e o Governo tiver confiança em mim, hei-de sustentar-te como uma princesa. (Pimenta desata a rir às gargalhadas. Os dous voltam-se surpreendidos. Pimenta caminha para a frente, rindo-se sempre. O Capitão fica enfiado e com a espada levantada. Maricota, turbada, não sabe como tomar a hilaridade do pai)

CENA VII

Pimenta e os mesmos.

Pimenta (rindo-se) — O que é isto, Sr. Capitão? Ataca a rapariga... ou ensina-lhe a jogar à espada?

Capitão (turbado) — Não é nada, Sr. Pimenta, não é nada... (Embainha a espada) Foi um gato.

Pimenta — Um gato? Pois o Sr. Capitão tira a espada para um gato? Só se foi algum gato danado, que por aqui entrou.

Capitão, querendo mostrar tranqüilidade — Nada; foi o gato da casa que andou aqui pela sala fazendo estripulias.

Pimenta — O gato da casa? É bichinho que nunca tive, nem quero ter.

Capitão — Pois o senhor não tem um gato?

Pimenta — Não senhor.

Capitão (alterando-se) — E nunca os teve?

Pimenta — Nunca!... Mas...

Capitão — Nem suas filhas, nem seus escravos?

Pimenta — Já disse que não.... Mas...

Capitão (voltando-se para Maricota) — Com que nem seu pai, nem a sua irmã e nem seus escravos têm gato?

Pimenta — Mas que diabo é isso?

Capitão — E no entanto... Está bom, está bom! (Ã parte:) Aqui há maroteira!

Pimenta — Mas que história é essa?

Capitão — Não é nada, não faça caso; ao depois lhe direi. (Para Maricota:) Muito obrigado! (Voltando-se para Pimenta:) Temos que falar em objeto de serviço.

Pimenta (para Maricota) — Vai para dentro.

Maricota (à parte) — Que capitão tão pedaço de asno! (Sai)

CENA VIII

Capitão e José Pimenta. — Pimenta vai pôr sobre a mesa a barretina. O Capitão fica pensativo.

Capitão (À parte) — Aqui anda o Faustino, mas ele me pagará!

Pimenta — As suas ordens, Sr. Capitão.

Capitão — O guarda Faustino foi preso?

Pimenta — Não, senhor. Desde quinta-feira que andam dous guardas atrás dele, e ainda não foi possível encontrá-lo. Mandei-os que fossem escorar à porta da repartição e também lá não apareceu hoje. Creio que teve aviso.

Capitão — É preciso fazer diligência para se prender esse guarda, que está ficando muito remisso. Tenho ordens muito apertadas do comandante superior. Diga aos guardas encarregados de o prender que o levem para os Provisórios. Há-de lá estar um mês. Isto assim não pode continuar. Não há gente para o serviço com estes maus exemplos. A impunidade desorganiza a Guarda Nacional. Assim que ele sair dos Provisórios, avisem-no logo para o serviço, e se faltar, Provisório no caso, até que se desengane. Eu lhe hei-de mostrar. (A parte:) Mariola!... Quer ser meu rival!

Pimenta — Sim senhor, Sr. Capitão.

Capitão — Guardas sobre guardas, rondas, manejos, paradas diligências — atrapalhe-o. Entenda-se a esse respeito com o sargento.

Pimenta — Deixe estar, Sr. Capitão.

Capitão — Precisamos de gente pronta.

Pimenta — Assim é, Sr. Capitão. Os que não pagam para a música, devem sempre estar prontos. Alguns são muito remissos.

Capitão — Ameace-os com o serviço.

Pimenta — Já o tenho feito. Digo-lhes que se não pagarem prontamente, o senhor Capitão os chamará para o serviço. Faltam ainda oito que não pagaram este mês, e dous ou três que não pagam desde o princípio do ano.

Capitão — Avise a esses, que recebeu ordem para os chamar de novo para o serviço impreterivelmente. Há falta de gente. Ou paguem ou trabalhem.

Pimenta — Assim é, Sr. Capitão, e mesmo é preciso. Já andam dizendo que se a nossa companhia não tem gente, é porque mais de metade paga para a música.

Capitão, assustado — Dizem isso? Pois já sabem?

Pimenta — Que saibam, não creio; mas desconfiam.

Capitão — É o diabo! É preciso cautela. Vamos á casa do sargento. que lá temos que conversar. Uma demissão me faria desarranjo. Vamos. Pimenta — Sim senhor, Sr. Capitão. (Saem)

CENA IX

Faustino. só. Logo que os dous saem, Faustino os vai espreitar à porta por onde saíram, e adianta-se um pouco.

Faustino — Ah, com que o senhor Capitão assusta-se, porque podem saber que mais de metade dos guardas da companhia pagam para a música!... E quer mandarme para os Provisórios! Com que escreve cartas, desinquietando a uma filha-família, e quer atrapalhar-me com serviço? Muito bem! Cá tomarei nota. E o que direi da menina? É de se tirar o barrete! Está doutorada! Anda a dous carrinhos! Obrigado! Acha que eu tenho pernas de enchova morta, e olhos de arco de pipa? Ah, quem soubera! Mas ainda é tempo; tu me pagarás, e... Ouço pisadas... A postos! (Toma o seu lugar)

CENA X

Chiquinha e Faustino.

Chiquinha (entra e senta-se é costura) — Deixe-me ver se posso acabar este vestido para vesti-lo amanhã, que é Domingo de Páscoa. (Cose) Eu é que sou a vadia, como meu pai disse. Tudo anda assim. Ai, ai! (Suspirando) Há gente bem feliz; alcançam tudo quanto desejam e dizem tudo quanto pensam: só eu nada alcanço e nada digo. Em quem estará ele pensando! Na mana, sem dúvida. Ah,

Faustino, Faustino, se tu soubesses!...

Faustino (à parte) — Fala em mim! (Aproxima-se de Chiquinha pé ante pé)

(continua...)

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