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#Comédias#Literatura Brasileira

As Casadas Solteiras

Por Martins Pena (1845)

Clarice — Não, não! Deixe o caso por nossa conta. Fazendo-se-lhes o pedido assim de surpresa, são capazes de negar... Estou certa que negarão. Melhor é resolvê-los pouco a pouco.

Virgínia — Clarice tem razão. Com carinhos, obediência e meiguice talvez possamos arranjar alguma coisa.

Jeremias — Tempo perdido... Pérolas a porcos! Meiguices não são para ingleses; é bom cá para nós.

Virgínia — Deixe o caso por nossa conta.

Bolingbrok (dentro) — Jeremias?

Jeremias — Lá vou, inglês do diabo!

Clarice — Vá, vá e tenha cuidado que eles não bebam muito.

Virgínia — Senão, não nos ouvem, pegam a dormir, e adeus Sonâmbula.

Bolingbrok (dentro) — Jeremias?

Jeremias — Adeus, adeus! (Vai saindo, cantando:) God save the King!... (Sai.)

CENA III

Virgínia — Mana Clarice, é preciso fazer-nos amáveis.

Clarice — Amabilíssimas!

Virgínia — Preparemos primeiro o chá.

Clarice — Dizes bem. ( De uma mesa que está no fundo, trazem para a que está no meio da sala todos os preparos do chá.)

Virgínia (enquanto preparam o chá) — Que remédio temos nós? Querem assim iludidos... (Chamando:) Tomás? Tomás?

Clarice — Tanto peior para eles... Que culpa temos nós? (Aqui entra um criado inglês.)

Virgínia — Traze água quente para o chá. (O criado sai.)

Clarice — As xícaras estão prontas.

Virgínia — Jesus! Ia-me esquecendo o aguardente, ou rum, como eles chamam.

(Vai buscar sobre a mesa do fundo um frasco com rum.)

Clarice — E esse esquecimento deitaria tudo a perder... (Entra o criado com uma chaleira com água quente.) Dá cá. (Deita água no bule.) Leva. (O criado sai com a chaleira.)

Virgínia — Agora creio que nada falta.

Clarice — Vamo-nos vestir, e pentearmo-nos.

Virgínia — Sim, sim! Façamo-nos bonitas, para melhor seduzir. Eles aí vem. (Saem ambas, apressadas.)

CENA IV

Jeremias e depois John e Bolingbrok.

Jeremias (entrando) — Já não posso beber. Safa, diabo! Se me demoro mais tempo à mesa, acabo por uma combustão espontânea... Irra, que funis são os meus dois ínglis!

John (entrando) — Assim abandonas o campo?

Bolingbrok (entrando) — Jeremias está fraco, tem cabeça mole; não pode!

Jeremias — Sim, se eu estivesse como os senhores, acostumados desde criança a beberem cerveja...

Bolingbrok — Porter.

Jeremias — Yes, porter.

John -—Vamos ao chá. (Assentam-se à mesa.)

Bolingbrok — Jeremias tem medo da vinho; gosta de água... É uma pata.

Jeremias — Pata será ele.

Bolingbrok — Pata! Ah, ah! (Rindo:) Pata, yes!

Jeremias — Tu nunca hás de tomar língua.

John — Queres chá?

Jeremias — Dá-me. (Servem-se de chá e continuam a falar, bebendo-o.)

John — Não tens recebido cartas do Rio?

Jeremias — Não, e nem se me dá.

John — Chama-se a isso descuido e indiferença.

Bolingbrok — Descuida, yes.

Jeremias — Que queres? Sou assim. Também por descuido foi que me casei.

John — Vê lá, Bolingbrok, como são os brasileiros, quando tratam de seus interesses pecuniários. Jeremias vendeu tudo quanto possuía: uma fazenda de açucar que lhe deixou o pai...

Jeremias — Não rendia nada; tudo era pouco para os negros comerem, e morrerem muitos.

Bolingbrok — Porque não sabe trabalha.

John — Vendeu duas belas propriedades de casa...

Jeremias — Das quais estava sempre mandando consertar os telhados, por pedido dos inquilinos. Só nisso iam-se os aluguéis.

John — E sabes tu, Bolingbrok, o que fez ele de todo esse capital?

Bolingbrok — Dize.

John — Gastou metade em bailes, passeios, carruagens, cavalos...

Bolingbrok — Oh!

John — E a outra metade emprestou a juros.

Bolingbrok — Este está bom; boa firma, jura doze per cento...

Jeremias — Qual doze, homem!

Bolingbrok — Quante?

Jeremias — A oito por cento ao ano.

Bolingbrok — Oh, Jeremias está doido! A oito per cento? Oh!

John — Assim é que se estraga uma fortuna.

Bolingbrok — Brasileiros sabe mais gasta do que ganha.

Jeremias — Ora, adeus! A vida é curta e é preciso gozá-la.

John — E depois dessa criançada, veio cá para a Bahia e deixou a mulher no Rio de Janeiro.

Jeremias (para Bolingbrok) — Isto também é loucura?

Bolingbrok — Conforme... Quando mulher é má, deixa ela; quando é boa, pega nela.

Jeremias — Pega nela, yes! Mas como a minha era o diabo com saia, eu deixa ela.

Bolingbrok — Yes!

Jeremias — Oh, John, oh, Bolingbrok, se eu tivesse uma mulher como as vossas, então... Que anjos, que docilidade! Eu, se fosse qualquer de vocês, não lhes negava a mais pequena coisa. (À parte:) É preciso prepará-los. (Alto:) Oh, eu os julgo incapazes de as tratar mal! Nem me passa isso pela cabeça.

Bolingbrok — Mim não nega coisa razoável. (Levanta-se.)

John — Nem eu. (Levanta-se.)

Jeremias (levantando-se e à parte) — Não gostaram do conselho... (Alto:) Enfim, cada um faz o que entende.

Bolingbrok — Yes.

Jeremias — Adeus, John, tenho muito que passear, e é tarde. Farewel, my dear Bolingbrok. How do you do? Give me some bread. I thank you. Hem? Tem que dizer a esta bela pronúncia? Até logo. (À parte:) É preciso deixá-los com as mulheres... (Alto:) Adeus! Sejam amáveis. (Sai cantando.)

CENA V

Bolingbrok e John

Bolingbrok (passeando) — Mim está desconfiado...

(continua...)

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